miércoles, 30 de octubre de 2013

Zé Maria, emocionado

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José Maria de Almeida. (clique no nome)

Este homem já é parte da história do Brasil. As redes de comunicações (grandes jornais, revistas e televisões) fingem não saber que ele existe, mesmo porque essas redes, que hoje investem na alienação do povo, colaboraram ativamente ou foram parte da ditadura. 

Os livros de história já estão se encarregando de mostrar quem foi quem. No vídeo, Zé Maria fala na 77ª Caravana da Anistia do Ministério da Justiça.



domingo, 27 de octubre de 2013

Boêmios viajam, mas não para o Burundi, n'A Charge do Dias

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A turma do botequim há dez dias meteu-se numa van e saiu pelo mundo. A última notícia, da manhã de sexta-feira, dá conta de que saíam de Montevidéu em direção à Argentina, depois de acabarem com o estoque de bebidas dos bares da capital uruguaia, todos trajando a belíssima camisa do Peñarol. Silvana Maresia, que foi quem telefonou, disse que parecia a delegação do Peñarol, a de halterocopismo, pois até pelas ruas andavam de copo na mão. 

Quando retornarem teremos muitas histórias, se bem conheço os boêmios e boêmias, e com o Contralouco junto, aí já viu, este já teria aprontado ainda no Chuí, ao vislumbrar do outro lado da rua um bar cujo nome lhe agradou, pois atravessou a rua, pisando em terras uruguaias, agora Chuy, e enfiou-se no bar La Cueva, cheio às oito da noite. Pediu una cerveza no balcão e bateu os olhos num velho fazendo o bandoneón chorar, não teve dúvida: desafiou a los hermanos para um concurso de cantoria de tango, ele mesmo abrindo a competição com Esta noche me emborracho. Começou a chegar mais gente e o bar superlotou, a notícia correu pela rua que nos separa e nos une, brasileiros e uruguaios, e logo juntou uma multidão lá fora. Fizeram-no cantar três vezes. Consta que a cada vez que chegava ao final, Esta noche me emborracho bien, me mamo, ¡bien mamao!, pa' no pensar, era ouvido em Santa Vitória do Palmar. Resulta que ficou amigo de todo mundo, não o deixaram pagar nem o cigarro. O que faz a bebida.


O filósofo Aristarco de Serraria foi um dos que preferiram ficar em Porto Alegre, devido a compromissos outros. Ontem à noite, já tarde, com somente uns dez companheiros e companheiras às mesas, mais este que vos fala que estava de visita, o sábio, excelente contador de estórias, saiu-se com uma boa. 

Disse que o Burundi (a capital também começa com a letra "b", Bujumbura), país famoso pela interminável guerra civil - agora parece que estão sossegando o pito -, também o é pelas suas licitações, todas com cartas marcadas, pois ou os concorrentes acertam-se na calada da noite ou o edital é dirigido, neste caso corre grana por fora para ninguém abrir a boca, sua vez chegará, entre outros métodos de assaltar os cofres da União. O povo sobrevive com a agricultura de subsistência ou escravizado pelos ruraralhos (segundo o boêmio, o nome remete para uma mistura de ruralista com um primo do carpano) nas plantações de café e banana. Isso me soou familiar.

Em algumas situações sequer fingem concorrer e se associam para o saque, despudoradamente, evitando perda de tempo, com a parte do leão para os estrangeiros, aí aparecem com proposta única. Em alguns casos são financiados com o dinheiro do próprio povo, via empréstimos subsidiados pelo BB - Banco do Burundi, ou pela Caixa Federal do Burundi, ou ainda pelo Banco Nacional de Desenvolvimento do Burundi.

Os grandes meios de comunicação lá de vez em quando denunciam algum ladrãozinho com grande estardalhaço, por superfaturar a aquisição de papel higiênico ou pasta de dente, mas nas grandes negociatas nunca dão um pio, por incompetentes, quando não coniventes.

No comando das grandes empresas nacionais, atopetadas de políticos, quem não é ladrão é cúmplice. 

O povo, convenientemente desarmado em campanhas de desarmamento, vive em triste miséria, com escolas caindo aos pedaços, enquanto banqueiros, governantes, grandes empresários, lobistas e outros bichos horrendos enchem as burras em contas de paraísos fiscais. Professor é motivo de riso, ninguém mais deseja seguir essa profissão de fome. A massa ignara é distraída pela televisão, com novelas e jogos do Flamengo de Ngagara.

Se alguém ousar reclamar do preço da passagem do bonde, lá vem cassetete, infiltram ratos no movimento, para iniciarem as provocações, e saem batendo para matar, pois uma parcela dos miseráveis é armada para destruir a outra, infinitamente mais numerosa, porém, como vimos, desarmada e de cérebro contaminado pelas redes de entretenimento vulgar. Os escravagistas nunca entraram num bonde, andam de Ferrari ou de helicóptero, e cercados de seguranças mal-encarados, mas muitos tiram dos bondes grandes fortunas, arrancando a pele da plebe em conluio com os alcaides das subprovíncias.

No Senado e na Assembléia Nacional tomam assento os mandaletes dos grandes bandidos, quando não os próprios, eleitos pelos analfabetos funcionais, isto é, por aqueles a quem eles mesmos subtraíram uma boa escola.

Concluiu o pensador: "Acho que deve ser muito triste viver num lugar assim".



A doutora Jezebel do Cpers, que também não viajou dizendo estar muito velha para esses exageros, não se aguentou: "Então, meu caro amigo, fico um tempão lhe escutando enquanto o senhor ri da minha cara, com uma ironia grossa assim, esperava mais do seu talento, o amigo poderia ser menos óbvio".


Todos concluíram que para suportar esse tipo de assunto, em pleno sábado, só bebendo, e pediram ao Portuga a renovação das bebidas. Eu também.

Decidiram dar uma recuperada no tempo perdido, através do notibuc da Leilinha, pois faz tempo que não sai A Charge do Dias, pela ausência de muitos dos companheiros.

Ficaram com Newton Silva. Salve Caba da Peste. Salve, Fortaleza.



Mestre Nani, com Obama no divã. Aqui pedi licença para agradecer de público ao Nani Lucas pelo trabalho que teve em ilustrar meus contos, com capa e tudo, um trabalho maravilhoso. Todos aplaudiram, ao Nani, quanto aos contos eles não estão muito certos, não leram ainda, temem que novamente seja uma sangueira danada, mas em 2014 saberemos das suas reações.


Nicolielo.


Jotape.



Miss Leilinha Ferro, que escolhe a solas por ser a coordenadora da coluna, ficou com o Cazo.


Como visitante, fui contemplado com o direito a uma. Fiquei com o Samuca.


A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.
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El último café

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El último café (Héctor Stamponi/Cátulo Castillo), de 1964, belíssimo e sensível tango, na voz da cantante espanhola "mexicana" Rocío Dúrcal, nome artístico de María de los Ángeles de Las Heras Ortiz (Madrid, 4/10/1944 - Torrelodones, Madrid, 25/3/2006).


Llovía y te ofrecí, ¡el último café!




Zé Maria

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"Em 1977 era próximo ao grupo trotskista Liga Operária e foi convidado a distribuir o boletim “Faísca”, para o 1º de Maio. Foi preso, junto com outros ativistas, na sua primeira panfletagem. Ficou 30 dias na cadeia e a campanha pela sua libertação motivou as primeiras passeatas dos estudantes contra a ditadura após o AI-5.

É uma das lideranças da onda de greves no ABC paulista, no ano de 1978, e um dos principais dirigentes em Santo André. Operário da Cofap, torna-se um dos membros do comando de greve do ABC. Propõe no congresso dos metalúrgicos em Lins (SP) a fundação de um Partido dos Trabalhadores. Participa, depois, da fundação do PT e da CUT.

Em 1992 é expulso do PT por defender a campanha do Fora Collor, que, até então, a maioria da direção do PT era contra."

Fragmentos (Wikipédia) sobre JOSÉ MARIA DE ALMEIDA (Santa Albertina, SP, 2/out/1957), que nesta sexta-feira, 25, recebeu certificado em que o Estado reconhece a perseguição política a ex-militantes da Convergência Socialista, movimento que lutou contra a ditadura militar (1964-1985).

Na ocasião, disse: "Estamos aqui resgatando o passado, mas também construindo o futuro. Puxar pela memória, exigir punição aos torturadores, é uma tarefa de primeira magnitude".

Reconhecemos em Zé Maria e seus companheiros a qualidade de patriotas, que aspiram mudar o Brasil sem abdicar de seus ideais e sem acordos com os assaltantes.

Vida longa, Zé.
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jueves, 24 de octubre de 2013

Anand x Carlsen: o mundo vai parar em novembro

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Está chegando a hora: dia 9 de novembro, em Chennai, na Índia, às 15h (7:30h em Brasília), começará o embate mais esperado pelo mundo do xadrez na última década. 

O planeta vai parar para assistir ao indiano  Viswanathan Anand novamente colocar seu título de campeão do mundo em jogo, desta vez contra o prodígio norueguês Magnus Carlsen, o "Mozart" do jogo-ciência.




Anand, quando defendeu com sucesso o seu título em Moscou, diante de Boris Gelfand, em 2012.

No tabuleiro ao lado, veja a histórica oitava ronda de Moscou, quando Boris Gelfand caiu em 17 lances ao entrar numa roleta russa (ao tomar a torre, sairia pelo menos com a perda de um cavalo, em posição perdedora).















Carlsen, que venceu o torneio de candidatos deste ano, em Londres, suplantando outros grandes gênios. 

Aqui é de se recordar a sensacional última ronda do Candidatos 2013, em 1º de abril. Carlsen vinha da rodada anterior empatado com Vladimir Kramnik, ex-campeão mundial, uma pedreira, em 8,5 pontos, com os demais adversários já fora do páreo. 

O rapaz jogou de brancas com Peter Svidler e perdeu. O mundo se encolheu ao vivo: o menino tremeu diante de tamanha responsabilidade.

Em outro tabuleiro lutavam Vassily Ivanchuk e Kramnik, este agora precisando de um empate para vencer o certame, e Mr. Kramnik é famoso por saber empatar. 

Vassily Ivanchuk, que duas rodadas antes havia sido o verdugo do jovem norueguês, vinha muito mal no torneio, mas havia batido o "Mozart". 

A esperança estava no cérebro do "louco" Ivanchuk.

E o adorável "louco", que este blog não se cansa de exaltar, como AQUIAQUI, AQUI e AQUI (neste último "aqui" uma entrevista que nos concedeu, mas há muito mais),  jogando uma partida perfeita, sereno, nervos o fino, bateu a Vladimir Kramnik impiedosamente, recolocando Magnus Carlsen na guerra em mano a mano. 

Carlsen e Kramnik foram para o tiebreak. 

Que tremeu nada, perder é do jogo, e Carlsen venceu com relativa facilidade. 



Veja o site oficial, AQUI.



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sábado, 19 de octubre de 2013

Éramos assim

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Hoje falei ao Carlos Valle (Salve, Palmeira das Missões) de uma cena que presenciei quando menino. Mas esqueci de dizer algo muito importante, que me marcou para sempre.

Como sabe o País inteiro, GRENAL aqui é guerra, a tremura que dá, as mortes do coração, sai da frente, é de chorar. 

Falo de antes, agora não sei. 

Ouvi falar de gangues de bandidos sustentados por bandidos que dirigem os clubes, em São Paulo e outras localidades, mas não sei.

Em dia de grenal os institutos de cardiologia ficavam atentos, prontos, todos presentes, nada de folga, todo mundo dobrando serviço, os hospitais se reforçavam com voluntários...

Veterinários se escalavam, ajudando, advogados tiravam o pulso das pessoas, todo mundo virava atendente, só havia duas tribos: os que estavam no estádio e os "médicos". 

Eu entendia um tiquinho de galos de briga, daí que cuidei de muitos gremistas e colorados, bico torto, hein, meu? Essa pegou na orelha, de pua, mas dá nada. Babaca, cair na quina, andou bebendo, falta de laço. Além do pessoal lá dentro, os bares do entorno superlotavam. Porém coisinhas de bebedeira, poucos. 

Os que morriam mesmo era do coração. Cem por grenal, por baixo. Se não morriam na hora, morriam em casa, aí as estatísticas não registravam.

Na época a turma não ganhava 600 mil por mês nem saía se beijando com o adversário nas terríveis derrotas, na carinha do povo, os atletas não eram vagabundos, respeitavam o torcedor, tudo pelos ensinamentos dos dirigentes, que também não eram.

Mas nesse dia não fui voluntário de galos de briga, nesse grenal eu fui como torcedor. Como perceberão os amigos, eu tinha 20 anos e era solteiro, sonhador. Melhor 21.

Não somente em Porto Alegre os nervos ficavam à flor da pele, e sim no estado do Rio Grande do Sul inteiro, e repercutia nos gaúchos da Bahia, do Ceará (Salve Praia do Futuro), da Amazônia, do Paraná (saudades), de Montevideo, do Rio de Janeiro (salve Jacarepaguá, salve Leme), do topo do Himalaia e nos pirados que moravam em Vênus (estes todos colorados).

Se o espetacular Grêmio entrasse em campo com os reservas, uma desfaçatez, o medo aumentava mais nas hostes coloradas, imagine, perder para os reservas. Se o Inter fizesse essa besteira, tremia o pavilhão em preto, o azul sumia junto com a alegria.

Eu vi Bibiano Pontes, quarto-zagueiro do Inter, fazer um gol contra naquele Grenal, isto foi o que contei ao Carlos, numa atrasada na catega que encobriu o grande Gainete, que havia saído do gol para buscar.

Golaço, de chapa de pé direito, com perfeito destino aos braços do alemão (italiano? Amanhã vejo) que se vestia de preto. Como saiu, só viu ela passar por cima, estatelado...

Acontece. 

Era uma bela noite em Porto Alegre. O Beira-Rio congelou, "eles" gritavam, festa na casa do adversário. As torcidas eram meio a meio ou quase, um lado vermelho, outro azul.

(Será que era o Carlos Gainete?, tudo se mistura, acho que não, era 1973 ou 4 ou 5?, por aí)

No finzinho do jogo Bibiano Pontes, o maninho do grande Daison Pontes de Passo Fundo (Daison era o melhor zagueiro-central do Brasil, na catega e, se enfeiou a cena, é campeonato, bola para o mato, mas era meio brabo, daí que quando foi para o Flamengo meteu o braço num sem-vergonha, enfiou a cara dele na cerca... e, deixa para lá, parece que o sujeito era o técnico, disso os cariocas da plim-plim esquecem de falar, como aqui, em suas memórias de parcialidade), subiu para a área tricolor num escanteio, gesto desesperado, sonhando em recuperar o gol contra. Bateram, ele voou e fez de cabeça, pega!, adeus, empatando o jogo!

O estádio virou um inferno vermelho, o urro se ouviu lá no topo daquele Himalaia, mas...

No embalo correu a comemorar tentando abrir os braços, só tentou, não andou cinco passos e desmaiou na linha de fundo, de emoção. Meu Deus, morreu.

O que esqueci de falar ao Carlos, antes escrevi Sérgio (Xexéu, Padilha, Ronaldo, Tide, Zanchi, uma gremistaiada... até Fernando Conceição se listrou, puxa, não tem ninguém que ame o Peñarol aí?), é que naqueles segundos cruciais, horas, pois nesse momento um minuto são horas de pavor, entre os médicos correrem e chegarem até o moço para tentar reanimá-lo, um silêncio sepulcral se instalou em Porto Alegre. E se espalhou pelo mundo e além deste mundo.

Cabia cem mil pessoas no Beira-Rio, havia a "coréia", tempos em que os pobres que construíram o estádio podiam ir, a um pila por cabeça no intervalo, assistir em pé no fosso, com ardor.

O estádio inteiro congelou. Porém o que mais me chamou a atenção, eu de camisa vermelha atrás da goleira que um dia viria a ser a do relógio, coração aos saltos, não foi o silêncio em Vênus. 

Foi o silêncio na imensa torcida do co-irmão, Grêmio Futebol Porto Alegrense. Um silêncio ansioso, de respeito. 


Somente quando Bibiano ganhou éter no nariz, levantou-se indeciso, tentando se apoiar nos camaradas, e logo caminhou, meio cambaleando, estava bem, é que "eles", corações aliviados, voltaram ao normal.

Recomeçaram a nos chamar de filhos da puta.



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viernes, 18 de octubre de 2013

Um tango para Mariza - Cuartito Azul

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No aniversário de Mariza, vai um tango. Feliz aniversário, Preta!

É de 1939, música de Marianito Mores e letra de Mario Battistella.

A orquestra é a de Francisco Canaro, o cantor é Francisco Amor.

Pero nada podrá ya parecerme
tan lindo y tan sincero
como vos


jueves, 17 de octubre de 2013

O barão do Rio Branco e a aproximação política entre o Brasil e a Rússia

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 Por Vyacheslav Ossipov, no Voz da Rússia


Os primeiros passos no sentido do estabelecimento de um entendimento político mais estreito entre o Brasil e o Império Russo no século XIX estão ligados indissoluvelmente à atividade do “chanceler de ouro” do Brasil, José Maria da Silva Paranhos, conhecido como o barão do Rio Branco. É este o tema da edição especial da revista histórica Rodina (Pátria), dedicada aos 185 anos do estabelecimento de relações diplomáticas entre a Rússia e o Brasil.


Para começar, convém descrever em poucas palavras a situação política interna e externa que serviu de pano de fundo para o desenrolar destes acontecimentos. O historiador António José Ferreira Simões descreveu da seguinte maneira a situação daquela época: “José Maria da Silva Paranhos era ministro das Relações Exteriores de um país, cujas instituições ainda não se tinham formado. O Brasil, que se tinha tornado república há pouco tempo, se deparava com graves problemas internos da dívida externa e a sua economia dependia da exportação de uma única cultura – o café. Os fazendeiros ricos apenas começavam a adaptar-se à abolição da escravatura. Mas mesmo nestas condições, Rio Branco aguardava o momento de formação de um ambiente favorável para uma política externa ativa, o que lhe granjeou de direito o lugar de honra no panteão de heróis da nação”.

Enquanto exercia o seu primeiro cargo diplomático – o de vice-cônsul do Brasil em Liverpool – José Maria da Silva Paranhos, que tinha então 39 anos, revelou grande interesse em relação a longínqua Rússia, à sua gente, à sua arte e literatura que começaram a conquistar naquela época a popularidade no mundo inteiro. Foi precisamente por isso que em 1884 o ministro da Agricultura Afonso Augusto Moreira Pena o encarregou de chefiar a delegação brasileira na Exposição Agrícola Mundial que se realizava em São Petersburgo. O objetivo do Brasil era fazer propaganda da sua mercadoria principal – o café – num país que tomava exclusivamente o chá. A atividade que o futuro ministro desenvolveu neste seu posto pode servir, certamente, de exemplo para muitos dos nossos promotores da exportação nacional no estrangeiro.

Depois de chegar à capital do Império Russo, José Maria não perdeu tempo à toa. Ele dedicava no mínimo duas horas por dia a contatos com a imprensa, falando do Brasil que os russos praticamente desconheciam e preparava, ele próprio, os materiais informativos sobre o seu país. Pouco tempo depois, os jornais de São Petersburgo já informavam que o pavilhão brasileiro virou um dos “centros mais elegantes da cidade”. Cada pessoa que o visitava tinha o direito a uma xícara gratuita de café aromático brasileiro. E durante o dia o pavilhão recebia até vinte mil visitas!

O futuro “chanceler de ouro” aproveitava todo o seu charme pessoal para explicar neste pavilhão às damas de São Petersburgo como se devia preparar o café. Ele doou vinte sacos de café ao hospital dos inválidos das guerras balcânicas e o imperador russo foi informado imediatamente disso. Logo no outro dia, o imperador Alexandre III, acompanhado pela imperatriz Maria Fiodorovna, visitou o pavilhão brasileiro. O monarca provou o café e revelou grande interesse em relação à vida no Brasil.

Depois da exposição, Silva Paranhos foi agraciado com a primeira condecoração russa – ordem de Santo Estanislau do II grau – e, depois de retornar a Liverpool, foi promovido a conselheiro.

O barão do Rio Branco considerava que em fins do século XIX – princípios do século XX formaram-se condições exclusivamente favoráveis para a intensificação das relações russo-brasileiras tanto na esfera econômica, como política. Uma prova disso foi a sua brochura “O Brasil na Exposição Internacional”, editada em francês em São Petersburgo. O barão apresentava ao leitor russo um país pouco conhecido naquela época e exortava a aumentar o comércio bilateral e estabelecer relações econômicas estáveis entre os dois Estados-gigantes.

Até 1892, quando foram publicadas as memórias do viajante e embaixador russo no Brasil Alexander Ionin, esta brochura era, na realidade, o primeiro e único livro sobre o Brasil editado na Rússia. Depois de retornar ao Rio de Janeiro, Silva Paranhos apresentou um informe sobre a Rússia no Ministério das Relações Exteriores. As teses básicas deste informe foram publicadas em 07 de agosto de 1884 no Jornal de Comércio, editado no Rio de Janeiro. O diplomata insistia na organização do “comércio regular e direto” entre os dois países e manifestou o desejo de que a exposição passada “não fosse tão-somente um espetáculo decorativo”.

Mas o barão do Rio Branco teve a oportunidade de ver esta sua convicção no plano prático somente em 1902, depois da nomeação para o cargo de ministro das Relações Exteriores. Foi a Segunda Conferência de Paz de Haia, convocada por iniciativa do imperador russo Nicolau II, que deu um importante impulso para a aproximação política dos dois países. Nesta conferência, foi criado o Tribunal Internacional de Arbitragem.

A conferência de paz de Haia aprovou uma série de importantes documentos referentes às leis de condução da guerra na terra e no mar, que continuam em vigor mesmo hoje em dia. Ela consagrou a norma do direito internacional, de acordo com a qual a força militar não pode ser utilizada para cobrar dívidas.

A intenção do barão do Rio Branco de estabelecer relações de parceria mais estreitas com a Rússia haveria de se concretizar em 1909. Nessa altura, Silva Paranhos propôs ao novo ministro plenipotenciário da Rússia no Rio de Janeiro, Piotr Maksimov, firmar um acordo russo-brasileiro, assim como um tratado sobre a colaboração econômica. Ao apresentar as suas credencias, Maksimov entregou ao barão do Rio Branco a Ordem Russa de Águia Branca – um sinal de reconhecimento da participação ativa do diplomata brasileiro nos trabalhos da Conferência de Haia. Silva Paranhos ofereceu, por sua vez, um almoço em homenagem ao ministro russo, durante o qual fez questão de apontar o papel ativo que a Rússia tinha desempenhado na política europeia e mundial e, em particular, na regularização pacífica dos litígios internacionais.

Ao mesmo tempo, os diplomatas russos certificavam-se cada vez mais de que as perspetivas de relações econômico-comerciais entre a Rússia e o Brasil eram favoráveis. O ministro russo na Argentina Evgueni Stein constatava com amargura que “o nível de desenvolvimento das nossas relações comerciais com o Brasil é baixo”, ressaltando, ao mesmo tempo, que “não devemos menosprezar a disposição favorável dos brasileiros em relação ao nosso país”. “Aqui, na América Latina, para a Rússia tudo e em toda parte é interessante", opinava o embaixador Maksimov. "É uma pena que os nossos homens de negócios não queiram saber isso”.

Infelizmente, é preciso constatar com pesar que muito do que foi dito naquela época continua em grande parte válido também hoje em dia...

martes, 15 de octubre de 2013

No Dia do Professor, senti pelo cheiro, n'A Charge do Dias

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Aqui deste lado, eu, João da Noite, pai das mãe e marido das muié.

O pessoal mandou as obras cedo, eu que me incomodei com o batalhão de PMs que fazem sede a alguns quilômetros daqui e não prestou, quase perco o horário de postá-las. O vento me trouxe murmúrios, conversas, risos de analfabetos adultos, logo vieram de gabinetes de cem metros quadrados, senti cheiro de charutos cubanos caros, cheiro de milhões em notas sujas, ouvi o riso de taquara rachada daquele fútil mulher daquele banqueiro, estes não cheiravam analfabetismo, cheiravam maldade, maldade de moleques adultos, o mesmo cheiro que sentia quando era o Collor e o Fernando Henrique. 

Eu hein, ouvi perfeitamente alguns se vangloriando que deram porrada em professoras e professores... isso no Rio de Janeiro, ainda bem que isto não acontece aqui em Porto Alegre, não é? Ainda bem.

Mas me incomodei igual, pra mim PM é PM, aqui ou na Cochinchina, tem mais que se fuder. Quero  ver sozinhos, sem armadura, sem gás, sem pau que não é pau, é pior, quebra muito mais, sem arma da cintura, se são bem home!

Esses mortos de fome que batem nas pessoas mais sofridas que eles, que são sofridos sim, ganham mal, passam horrores. Por isso é que só tem bandido na PM. Só não, tem muitos que aguentam o tirão, resultado da mãe boa e do colégio, este último por vezes arranja o estrago das que não são boas mães.  Então saí e botei fogo no primeiro quartel que encontrei. Imaginei-me no Rio de Janeiro: os meganhas fora lá caçando meninos Black Blocs. Sozinho incendiei tudo naquela bosta de quartel. Claro, primeiro o Joel explodiu uns trecos na esquina, para tirar os guardas, depois foi fácil botar os explosivos e a gasolina, deu tempo até de deixar um recado no quadro onde se preparam para atacar pessoas desarmadas. Hoje vão dormir na rua.

Quando Salito voltar vai querer me matar. Páro aqui, até aqui periga que ele consinta, duvido mas vai que, porque o que eu quero dizer mesmo não pode ser dito usando da bondade alheia, da casa do Salito e do seu espaço na internet.

Então posto as charges que me deixou de obrigação. Opa, movimento grande lá na rua, parece que me acharam, tomara, vou ver


  

sábado, 12 de octubre de 2013

Beijo cura?, n'A Charge do Dias

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Os empinantes demoraram mas enviaram as obras do dia, me pegaram de saída, lá vai, se não for agora só amanhã.

Segundo Leilinha Ferro, a coordenadora da coluna, ontem foram longe, após uma resposta de Aristarco de Serraria a uma pergunta sobre o Círio de Nazaré, que acabou se transformando em palestra. Às quatro da matina Contralouco, Aristarco e Luciano saíram para outra, de pena do Portuga, que estava dormindo em pé. 

E foi o Bruno Contralouco quem chegou contando o único fato inusitado, que se saiba, do Beco do Oitavo neste Dia da Criança. Disse que desceu o Beco da Fonte e entrou no Oitavo, quando topou com o Negrote, o morador de rua que é amigo da turma, convidado especial e presença infalível em todos os churrascos e jantares. O Negrote está muito velho, volta e meia adoece, quando o Contralouco o leva para o seu apartamento, mas é só melhorar que já se manda, argumentando que sua casa é a rua e não gosta de incomodar o amigo. Antes de mais nada perguntou ao Negrote qual o bicho de hoje (todos os dias é dia de um, para o velho beberante), e deu Gato na pinha. Ao ponto: o Negrote andou sabendo de uma história de que a Dilma anda distribuindo beijos, daí que saiu-se:

- Brunão, você que é um cara bem relacionado, pode perguntar pra Dilma se o beijo dela cura hemorróidas? As minhas andam me incomodando.

E o velho saiu rindo sem esperar resposta. O Contra arrematou aos amigos: 

- Se curasse sem-vergonhice já estaria bom, bastaria um dia de beijação nos seus aspones e na cachorrada da sua base aliada.

Clóvis Baixo mostrou os pelos do braço: em pé, arrepiados como quem levou um choque, ele explicou:

- Só de pensar em levar um beijo da Madame Min, brrr.

Na hora da escolha das charges, pelo que vi ninguém quis saber de beijos. Aos arquivos: ficaram com as seguintes:

Duke.



Thomate. Esta me fez lembrar algo que escrevi por aqui outro dia: em relação aos protestos, onde estão os nossos artistas? Na rua não os vi.


Sid. Parece que me enganei, aqui estão alguns beijos, eca.



Leilinha Ferro escolheu a obra do Brum. Esta eu tinha visto ao passar os olhos no jornal Tribuna do Norte (RN), apostei que a menina sairia por aí. Quem mora na aldeia conhece os bugres.



Aristarco de Serraria apareceu ainda de kerb, desta vez acompanhado da morocha "festeira e atirada" de quem falamos na postagem anterior. Leilinha foi hospitaleira, deixando que escolhesse uma a solas, visita é visita. A Zuleika é porrada, ficou com o Zop



A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.

miércoles, 9 de octubre de 2013

Quem são os vândalos?, n'A Charge do Dias

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Uma antiga reclamação dos boêmios foi levantada no botequim: o preço da erva-mate, o povo já não consegue tomar chimarrão. Aos leitores do Paquistão: tomar chimarrão é chupar uma infusão numa cabaça oval, mas não vão pensar bobagem aí. Carlinhos Adeva, o diretor jurídico do Partido dos Boêmios (em constituição), é o cara que sabe das coisas e ensina seus confrades:

- Se for ver de perto, é de assustar o lucro das empresas de erva-mate, ali só tem nego podre de rico, cada um com uma sobrinha de cinquenta milhões aplicados no mercado de agiotagem, fora as mansões, fazendas e carangos estranjas. Bons tempos aqueles dos pequenos soques de erva, os caras enriqueciam mas não era esse assalto. 

Novamente aos leitores do Paquistão: "mercado de agiotagem" é como os beberantes chamam ao que os pulhas apelidaram de "mercado financeiro", alegando que o primeiro diz tudo e o outro é uma ficção para iludir os incautos.

- E tem mais pau do que erva, lembrou Wilson Schu.

- Eu já passei pro tereré, disse Jussara do Moscão.

Alô, Paquistão: tereré é uma infusão de folhas, sem pau.

- A gauchada deveria parar de tomar mate por alguns meses, pra gente ver como esses putos vão sentir o ardume no rabo, falou Luciano Peregrino.

- Se eu pego um cara desses eu capo, disse Bruno Contralouco.

Nesse lero escolheram a primeira obra do dia. Com o Sinovaldo



A seguir a turma aprovou a indicação da Jezebel do Cpers, que se diz cansada da Dilma:

- Ai, meu tuíterzinho, ui... ora, essa vaca que vá trabalhar, o Brasil afundando e ela se fresqueando em Ratinhos e nas redes sociais.

- Essa bruxa nem bêbedo eu como, disse Bruno Contralouco.

Com sérias ameaças de que em 2014 ela vai ver o que é bom para a tosse, ficaram com o Rico


Sobre a Marina Silva, ficaram com o Renato.



Os diálogos esquentaram quando chegaram aos protestos. Disse Silvana Maresia:

- Se a gente fizer uma passeata de um milhão de pessoas, desfilando quietinhos, dá nada, segue tudo igual, quebrando um osso de alguém pode ser que algo mude, mas agora as redes só tem assunto para "vândalos".

- A Globo ditadura chega a dar ânsia de vômito..., disse Lorildo de Guajuviras com cara de nojo.

- Esses sim são bárbaros, vândalos, que destroem valores e culturas regionais, afirmou Jezebel.

- E os políticos, então, roubam de bilhão, e vândalo é quem quebra uma loja de agiotagem..., disse Clóvis Baixo.

- E os chamados grandes empresários, que são grandes ladrões, que elegem seus politicalhos com o dinheiro que tomam do povinho, no círculo vicioso, primeiro rouba, depois elege os vadios para certificar-se de que poderá continuar roubando, e mais..., disse Lorildo, desesperançado.

- Nem um pio sobre a razão dos protestos, ou se algo será feito, pensam que alguém é imbecil, disse Tigran Gdanski.

- É o que eu sempre digo, para mudar algo só se morrer um manifestante nas mãos dos meganhas, espancado covardemente, como costumam fazer, e com filme e tudo, se não, necas..., disse Freddy Garcia Lorpa. 

- O povo "é" imbecil, corrigiu Ain Cruz Alta ainda com a cabeça na fala de Tigran.

Omitimos o que disse Bruno Contralouco, os amigos podem imaginar. A observação mais leve que cometeu dava conta de que não se aguenta mais de vontade de matar a todos "esses vândalos filhos da puta". Desconfiamos que esses tais não são os meninos encapuzados.

Ficaram com o Aroeira.


Brum.


E Nani.



Miss Leilinha Ferro ficou com o Duke, a respeito de outros larápios premiados pela exuberante privataria de outros vândalos de mão molhada.



A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.
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domingo, 6 de octubre de 2013

Arrebentando Marina

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Ao descontamento natural de parte do eleitorado brasileiro com esse governo de direita do PT, arrancando de pelo menos 20 milhões de pessoas a possibilidade de uma terceira  via, os indivíduos que se apoderaram da sigla que um dia chegou a significar esperança agora conseguiram adicionar outro componente: a gota de raiva pela desonestidade, pelo golpismo sequer disfarçado. Em 2014 veremos o que colherão.


Justiça pelo avesso

Por Janio de Freitas (na Folha)


Tudo indica que o Tribunal Superior Eleitoral, mesmo com os votos em geral bem argumentados dos seus ministros, favoreceu os possíveis culpados pelas estranhezas na tramitação do pretendido partido de Marina Silva. Ainda que não houvesse "uma ação deliberada" de "mais de 53% dos cartórios" eleitorais, na gravíssima acusação feita por Marina Silva, os indícios de anormalidade na verificação dos apoios de eleitores (necessários 492 mil) foram, pior do que inexplicados, suspeitos.

O deputado Miro Teixeira, do Rio e entusiasta da Rede de Marina, sustenta que "no ABC (Grande São Paulo), a quantidade de apoios rejeitados pelos cartórios é absolutamente anormal". Para admitir a possibilidade dessa anormalidade e de sua dimensão, é só lembrar-nos de que o ABC é uma cidadela da CUT e do PT, contrários à criação da Rede, e de que outros também levantavam lá um partido, o plagiário Solidariedade do Paulinho da Força Sindical.

Mais difícil é admitir que, em tais circunstâncias, os comandos da Rede tivessem a ingenuidade de aplicar no ABC o trabalho mais promissor em outras regiões. Não foram as únicas ingenuidades influentes no desfecho negativo.

Não há dúvida da falta de 50 mil apoios válidos para o total necessário, comprovada na contagem pedida pela relatora Laurita Vaz. Mas dessa certeza não decorre a segurança de que as tantas invalidações fossem de fato motivadas, já que nem ao menos suas causas foram informadas.

Ciente desse e de outros problemas, como o irregular excesso de tempo consumido pela burocracia cartorial, o TSE deveria providenciar uma verificação por amostragem nos cartórios com rejeição anormal. Não o fez. Deu votos sólidos para o que parecia, não para a certeza do que era. 
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Time after time

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Time after time é de 1946 ou 1947 (Sammy Cahn e Jule Styne).

Foi gravada por centenas de gigantes do século passado, como Frank Sinatra, Paul Anka, Shirley Bassey, Chet Baker, Tony Bennett, Vikki Car, Placido Domingo, Ella Fitzgerald, Connie Francis, Judy Garland, Johnny Mathis, Chris Montez, Barbra Streisand, Sarah Vaughan... e por ela, Dinah Washington.

Ainda criança ouvi a canção, e por alguma estranha razão sempre a recordo no dia do meu aniversário, e a repito, repito, repito, girando meu riscado LP. Normalmente me sinto feliz. Hoje não, acho que Perfídia me pegou mais.



E por ele, Rod Stewart.



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miércoles, 2 de octubre de 2013

O calote americano

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Por Mauro Santayana, no JB

Vez ou outra, os jornais, com base em cálculos astronômicos, anunciam que, em tal dia e a tal hora, um determinado asteroide irá passar raspando a órbita da Terra, e que todos podem ficar tranquilos, porque não há perigo de ele ser atraído pela gravidade terrestre e acabar com o mundo.

Essas declarações, no entanto, não costumam servir para afastar o receio. Muitos, mesmo depois de ler os jornais e ver as entrevistas de astrônomos na televisão, terminam indo dormir com um aperto no coração. E rezam para que no dia seguinte tudo amanheça bem e o sol brilhe de novo, até que chegue o momento da aproximação de um novo corpo celeste da órbita terrestre.

Pois bem, no dia 17 de outubro uma espécie de asteroide financeiro passará por Washington, e não temos como antecipar se ele irá ou não cair sobre as nossas cabeças. Nesse dia, se esgotará o prazo de aplicação das medidas excepcionais que estão sendo empregadas pelo tesouro dos Estados Unidos para evitar o défault — ou a inadimplência do país — no pagamento de seus compromissos.

Os EUA devem, hoje, em valores correntes, quase 16 trilhões e 700 milhões de dólares. Uma quantia tão alta que ultrapassou o limite máximo definido pela legislação. Com isso, o governo precisa, agora, aprovar uma lei que lhe permita aumentar o orçamento e o teto da dívida — que já é a maior do mundo — para poder contrair novos empréstimos e continuar funcionando.

A decisão, no entanto, não é da Casa Branca. Hoje, primeiro de outubro, começa um novo ano fiscal, e o Congresso, dominado pela oposição, vem postergando, desde maio, uma decisão a respeito do assunto. Os republicanos chantageiam Obama, e exigem, entre outras coisas, para sair do impasse, o fim da reforma do sistema de saúde, aprovado em 2010, que entraria em vigor em 2014.

Na maioria dos países do mundo — ou naqueles em que prevalece o bom-senso e os interesses da população — a questão já teria sido resolvida, por meio da negociação entre o Executivo e os deputados e senadores. Nos Estados Unidos, no entanto, com uma oposição conservadora cada vez mais radical, e manipulada por movimentos fundamentalistas como o Tea Party, tudo pode ocorrer. Caso se chegue a uma situação de défault, o mundo assistiria a uma crise econômica sem precedentes. Que afetaria a maioria das nações e, principalmente, a China e o Brasil, que são, neste momento, o primeiro e o terceiro maiores detentores de títulos da dívida do tesouro norte-americano.

Boa parte dos problemas que estão sendo vividos pelos EUA e pela Europa — com exceção da Alemanha — derivam, justamente, do fato de se querer manter, nesses países, um padrão de vida maior que o do resto do mundo, com base no endividamento dos governos, das empresas e da população.

A crise fiscal norte-americana agravou-se, nos últimos anos, com as pesadas dívidas exigidas  para custear guerras injustas — e inúteis — em países como o Iraque e o Afeganistão, e pela “guerra contra o terror”, que inclui agências de inteligência como a NSA, ao custo de bilhões de dólares por dia.

Desde que Nixon abandonou a conversibilidade do dólar com relação ao ouro, no início da década de 70, que tinha sido estabelecida em Bretton Woods, os EUA têm vivido, direta ou indiretamente, à custa do resto do mundo.

A questão da dívida norte-americana está exigindo — definitivamente — um esforço coordenado para que se acabe com essa situação, com a reformulação das trocas monetárias e do próprio sistema financeiro internacional.

Os Brics têm feito tímidas tentativas no sentido de substituir a moeda dos Estados Unidos em suas trocas e de criar instituições que possam, paulatinamente, servir de alternativa - principalmente para as nações emergentes - ao FMI e ao Banco Mundial.

Mas continuam, paradoxalmente, a manter boa parte de sua riqueza investida em títulos dos EUA, quem sabe, pela vontade de marcar, também, com essa atitude, as mudanças que estão ocorrendo nos últimos anos no panorama geopolítico mundial.

As moedas romanas serviam não apenas para armar suas legiões mas também para cunhar em ouro, prata e bronze os símbolos do poder imperial. É preciso tirar dos Estados Unidos a possibilidade de exprimir sua soberba e de continuar armando seus soldados com meros pedaços de papel.
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Os Filhos da Puta (6)

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Policiais infiltrados no protesto pacífico dos professores, em 30 de setembro de 2013, na Cinelândia (Rio de Janeiro).

Um deles joga uma pedra numa casa de agiotagem*, para justificar as agressões que viriam. A moçada do Black Bloc que desfilava em apoio protesta com veemência.

Os irresponsáveis esfregavam as mãos e sorriam como hienas lá dentro dos seus palacetes.



É o horror que o sistema, pelas suas redes de comunicações, vem fingindo que não vê. Admita-se que os meganhas, coitados incultos, não saibam o que fazem, mas quem os treina e lhes dá ordens sabe.

Onde andarão os "humanistas revolucionários" Lula e José Dirceu, e suas gangues? E a UNE? Ah, são associados ao Cabral Delta Guardanapo, e a riqueza, dizem, muda as pessoas. Onde anda tanta gente, e os nossos artistas, atores, cantores? Será que vai ser preciso o Papa Chicão assumir mais essa, dizendo-se repugnado pela gestapo carioca?

Escrevo ainda tomado de emoção pelo que acabo de ver. Abalou-me sobremaneira a cena, lá pelos 2m40s do vídeo, onde agridem um manifestante franzino. Caem de pau, arrancam a máscara contra gases, o capuz, e... surge uma inofensiva menininha loira. Não sei o que estão fazendo os pais do Rio de Janeiro, talvez saibam algo que eu não sei, mas de uma coisa estou certo: se fosse uma filha minha, no mesmo dia eu viajaria ao Rio de Janeiro, e juro que encontraria o policial para termos uma conversa em particular. Eu iria de avião, os ferros de caminhão. A depender dos primeiros desenlaces, talvez eu acabasse encontrando os verdadeiros responsáveis, afinal quem está seguro neste mundo, mesmo cercado de seguranças com ridículos óculos escuros pagos com o nosso dinheiro?


*Sempre que possível damos os nomes corretos. No caso, o termo não é na acepção jurídica, que, como se sabe, é humano delírio. Instituição financeira chega perto, mas não nos satisfaz. Já banco é assento sem encosto, nada a ver.

Explicações sobre a criação desta coluna eventual em Os Filhos da Puta (1)
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martes, 1 de octubre de 2013

Para me irritar, a insânia, n'A Charge do Dias

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- Hoje o Salito me disse que quando quer se irritar lê o Ruy Castro. Eu sou mais ortodoxo, para me incomodar e estragar o meu dia leio o Delfim Netto, o Luiz Pondé, o Juremir, o Arnaldo Jabor e todos os políticos que escrevem em jornais. Aliás, quanto ao Delfim, em meio à leitura sou tomado de recordações da ditadura e o jornalão que o publica me desperta náuseas, disse Aristarco de Serraria.

Como se vê, hoje um dos assuntos do botequim foi sobre métodos de autoaporrinhação, com o filósofo Aristarco me botando no meio. Defendo-me à distância: falei em me irritar somente, companheiro Aristarco, por isso pego leve, pois se fosse ler as pessoas que citaste eu cortaria os pulsos. Quanto ao cidadão mencionado, não sei quem é, mas as duas ou três vezes em que me caiu às mãos uns bilhetes que escreve o sujeito estava em cruzada contra os Black Blocs, intolerância pura, raivosa, a pretexto de fazer gracinhas com coisa séria, não sei se é a idade, é um homem velho, talvez insatisfeito pelas insondáveis reflexões da velhice, como lembranças de coisas que poderia ter feito e não fez, mas, ainda que a sua especialidade seja falar da vida alheia, afinal quer o quê? Que os meninos aguentem quietos esse estado de coisas? Por que tanto lhe dói a revolta da juventude? Ou é para puxar o saco do dono do jornal, pois não é o único dos empregados da Folha que está em campanha contra os moços de preto. Outro reparo é sobre os garranchos dos políticos: essa raça não sabe escrever um parágrafo, meu amigo, são bons é de conversa, afinal passaram a vida treinando mentiralhas em frente ao espelho. Tente imaginar o Lula externando pensamentos numa A4, não dá, né, seja pela falta de pensamentos ou por meios de externá-los, ou, o que é mais provável, por ambos, e que não me venham chamar verdades de preconceito. Quem escreve as matérias dos politicalhos é o "escritor fantasma", o "ghost writer" tupiniquim. Por fim, lembrem os amigos do nosso trato: incluam-me fora das discussões.

- Eu, quando quero me irritar, perco a parada do ônibus, aí tenho que descer e pegar outro de volta, disse Clóvis Baixo.

Odoacro (sei, mas não me culpem pelos nomes das figuras), primo do Aristarco, de visita ao bar, foi mais simples:

- Eu assisto ao Jornal Nacional. Depois vejo o boquinha de chupar ovo aquele no outro noticiário, me falta o nome agora, um que acusavam de ser do Comando de Caça aos Comunistas, aliás acho que morreu, nunca mais o vi.

Depois Aristarco esclareceu que o primão leva o nome de Odoacro em homenagem ao cara que destruiu o Império Romano. Os velhos eram cultos. Interessante... só se fala, com quilômetros de filmes, do Império Romano, mas nada se diz sobre quem venceu aos valentões; pior, insinuam que eles perderam para si mesmos. Por que será?

- Eu começo a fazer carreteiro e saio, deixando a panela no fogo. Só volto horas depois, na última vez os bombeiros tiveram que arrombar o apartamento, os otários não viram que deixei a janela dos fundos aberta, disse Bruno Contralouco.

- Eu assisto cinco minutos do programa Manhattan Connection, mais não aguento, disse Jezebel do Cpers.

- Que programa é esse?, perguntou Clóvis.

- Ah, uns almofadinhas do Brasil que ficam falando de lá dos Estados Unidos, ela respondeu.

- Eu leio o lambe do Collor, disse Marquito Açafrão.

- Lambe do Collor?, hesitou Jezebel.

- Sim, aquele Cláudio Humberto, é batata, arruina o dia definitivamente.

- Eu boto uma música countrymexicaneja, chamar de sertaneja não dá, disse Chupim da Tristeza.

- Eu procuro uma música do Roberto Carlos, falou a professora Jussara do Moscão. - Aquela do entro no  meu carro e a solidão me dói nem o Papa aguenta, sabem, né, o importado dele tava com uma mola solta.

- Eu puxo assunto com uma petarrenta, disse Luciano Peregrino, hoje de poucas palavras. (O boêmio chama de petesudas às petistas fanáticas que são gostosas, raras, aliás; as demais são petarrentas, isso é coisa dele, eu fora)

- Eu entro num templo do Edir Macedo e ouço a pregação de algum viado daqueles, pra mim faz um bem danado, cresce a vontade de enchê-los de porrada, disse Gustavo Moscão.

Bruno Contralouco, que já cometeu a loucura de entrar num templo na Av. Mauá, ficou bem quietinho, pois naquela vez não se aguentou e começou um baile lá dentro. Saiu todo quebrado, mas se vangloriando de ter surrado dez gorilas mãos de gato, como falou à época.

- Eu vejo uma charge do Imbessinha, declarou Freddy Lorpa, referindo-se, o malvado, ao Bessinha.

Um por um os boêmios foram discorrendo sobre as suas manias. Algumas me surpreenderam, mas, enfim. Omitimos outras, o blog é familiar.

Com a professorada já presente em peso, o assunto mudou, de repente o bar inteiro estava na Cinelândia, vendo os meganhas espancarem modestos professores cariocas. Os trilhões de leitores podem imaginar a indignação, o governador Cabral Delta Guardanapo e o prefeito Paespalhão só não foram chamados de filhos da puta em respeito às suas genitoras, mas saiu de assassinos covardes para cima. Vão acabar no Guinness pelo recorde mundial de truculenta burrice, conforme disse a professora Ain. 

Silvana prenunciou que logo até os seus comparsas da imprensa se sentirão obrigados pela opinião pública a cair de pau na insânia de ambos. Depois leu o desabafo, de hoje, de sua colega Luiza Debritz, do Rio de Janeiro:

Hoje nos enfiaram goela abaixo um plano de cargos e salários cretino, balas de borracha, coquetéis molotov, bandidos fardados, bombas de gás lacrimogênio, professores feridos, lágrimas nos olhos, cães em cima do acampamento dos professores resistentes.

Em algum momento vimos um cidadão sendo preso porque se pronunciou contra a ação truculenta da polícia, perguntamos: preso por quê? Tá preso porque tá preso. E o comandante dizia para os outros condicionados: não fala nada, não tem diálogo, tá preso porque tá preso. Sabe por que não é pra falar nada? Porque não há o que dizer, não sabem, uma cambada de pau mandado, cachorrinhos do Cabral. 

Quando a greve começou e houve as primeiras manifestações dos professores eu pensava "que orgulho dessa classe", é uma luta que me preenche, que me representa, que me move, os professores municipais são exemplares, foi sempre tudo pacífico e animado, com tom de luta sem agressividade. Não consigo ligar a luta que já dura quase dois meses de diálogo aberto e pacífico com o campo de guerra que se tornou a Cinelândia hoje. Não desce, é uma sensação horrível.

Silêncio no botequim.

- Insânia... sem-vergonhice agora trocou de nome, sussurra Tigran Gdanski.

Logo todos estavam elogiando novamente os governantes, em altos brados, com repertório inadequado até para a mansão que havia em Brasília, onde o Palocci se reunia com amigos, ladrões e prostitutas, se é que dá para diferenciar os primeiros uns dos outros. Fecha-se uma mansão, abre-se outra.

Instados pela Leilinha, renovaram os aperitivos e partiram para a escolha das charges.

A primeira obra alude a esses elementos, com o mestre Nani.




Aroeira.



S. Salvador.




Deram uma maneirada, com o Sinovaldo. Não há no bar, salvo o Portuga, que torce pela permanência, quem não queira a caveira do Dunga.




Leilinha resolveu fazer um agrado ao Portuga, que acha que ainda é possível levar o título. Com o Jader.



A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.