sábado, 28 de junio de 2014

Churrasco de ouro

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Hoje cedo eu estava em frente à banca 38 do Mercado Público de Porto Alegre, namorando os vinhos e uísques expostos, quando levei um tapinha nas costas e ouvi vozes me festejando.

Eles, os boêmios Wilson Schu e Gustavo Moscão, abraços e tal. No rodízio de assadores, são os encarregados do churrasco no botequim, previsto para sair depois do jogo do Brasil e antes do jogo do Uruguay, no meio da rua. Lá é assim, se chover a turma improvisa cobertura para os barris de latão cortados que lhes servem de churrasqueira. Vieram comprar a carne. 

Contaram-me que antes passaram na Mercearia Zaffurtari, lá na Cidade Baixa, mas o gringo está impossível, ninguém mais agüenta os seus preços. 

- Sala, o sujeito quer R$ 24,90 o quilo de ripa da chuleta, disse Gustavo.

- A picanha é cinqüenta contos!, esbravejou Schu.

Enquanto conversávamos comprei meus vinhozinhos, em seguida acompanhei-os até as bancas de carnes. Na que paramos deu para ver, bem em nossa frente, que a ripa está a R$ 11,90 o quilo.

- Viu? Como vamos comprar dez quilos de ripa, fora outras coisas, só aí a economia será de... deixa ver, hummm, dá treze, vezes dez: 130 paus, falou o Mosca.

Nesse ponto, enquanto aguardavam a chamada da sua senha de atendimento, com muita gente na frente, me contaram que o Bruno Contralouco, que tinha ido junto à Zaffurtari, armou um banzé por lá. Exigia falar com o dono, que não estava, obviamente, então encheu de osso o pobre do gerente, em altos brados:

- Quer dizer que aqui vocês tem o Bezerro de Ouro, é? Pegaram aquele dos crentes, cresceu, virou touro e botaram a cruzar com a Bezerra de Diamante do Boifrio, e agora estão vendendo os descendentes, novilhos castrados entupidos de veneno, mas com pedigree de meio ouro e meio diamante?

O Contra lembrou do Bezerro de Ouro bíblico porque em outros tempos andou se informando, para conhecer o inimigo, como dizia, pois tem bronca de uns tais bispos e pastores que andam de preto por aí. Em frente ao botequim eles não passam mais, ali é certo que apanham, agora quando ele quer se divertir sai caçá-los por outros bairros, nas proximidades dos seus templos, que chama de agências de picaretagem. Certa vez entrou numa, lá perto da Rodoviária, e foi um escândalo, o sujeito lá na frente gritava Aleluia e ele berrava Saravá. Acabou saindo no braço com os gorilas, que não contavam que o Contra é bom de boxe, jiu-jitsu e savate, deu neles lá dentro.

Quando apelou para adjetivos impublicáveis a respeito do gringo da Zaffurtari a turma o arrastou de lá, antes que a polícia chegasse. Uma barbaridade. Não quis vir com os amigos ao Mercado Público porque resolveu se meter na sua gráfica, disse que ia imprimir cinco mil panfletos para distribuir em toda a Cidade Baixa, “dizendo umas verdades e propondo boicote ao filho da mãe”, como disse. Cá comigo penso que isso não vai acabar bem, o gringo não conhece o Bruno, não sabe com quem está lidando.

Pedi aos amigos que me considerem entre os que estarão no churrasco, o rachid da despesa é depois, e me fui para as bancas de legumes, carne já comprei ontem.

Tomara que o Brasil vença, assim talvez o Bruno esqueça o dono da mercearia ao menos por hoje.

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viernes, 27 de junio de 2014

Chile e Brasil: Viva!

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O Chile... o querido país da Cordilheira até o Pacífico, de tanta tradição linda: bem vindos, amigos chilenos, os que puderam vir, espero não apenas os ricaços, hermanos, ao nosso País. Mesmo com mercenários nos representando, isso agora não importa. São bem vindos, sintam-se em casa, pois em casa estão.

Somos todos humanos. É só futebol, o que nos une de verdade são laços de humanidade, de idênticos sofrimentos, a falta de tudo, pela miséria, a ânsia de escolas boas para todos, comida para todos, a presidente Michelle luta e sei que está disposta a dar a vida pelo Chile, como o povo chileno daria, imagine se não, a presidente eleita pela vontade popular. Temos os mesmos problemas, mais acima ou abaixo do nível do mar.

O chamado primeiro-mundo ainda verá, não será para sempre que a FIFA e outros órgãos, principalmente os da economia, serão deles, com a cumplicidade de nossos antipatriotas, gentes cuja terra natal é o dinheiro, insensatos.

Porém em esforço conjunto, sul e centro americanos, estamos evoluindo a olhos vistos, criticados pelos vendidos, aqueles, os vendidos ao nortista, a peste que assola a toda Sul América, Central, e ao mundo. Um dia virão humildes, e os receberemos bem, mas os lesa-humanidade serão enquadrados.

Como sabem, torcerei pelo meu Brasil no sábado, mas ao fim, aconteça o que acontecer, sairemos abraçados.

Somos irmãos. Saudades de Antofagasta.

Abraço.

Salazar.

martes, 24 de junio de 2014

Carta à Haidée

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Porto Alegre, 24 de junho de 2014.

Prezada amiga Haidée

Camarada gateira, escrevo para mandar e pedir notícias, os anos vão passando e a gente vai esquecendo uns dos outros. Aqui família bem, minhas gurias me abandonaram, de casa, né, posto que foram tocar em frente as suas  vidas. Pai sofre, ainda bem que são muitas, sempre aparece uma que outra para levar um papo de dois minutos.

Veja só o que me aconteceu. Tudo começou com um sonho de algo que nunca tinha lembrado: eu com 12 anos, subindo a rua da Vila Nova, lá na cidade da qual fugi, assoviando, as pessoas colocavam cadeiras na rua, na calçada, noites de luar, verão. Passar por eles me dava um frio, nunca olhei para os lados. Nove da noite, ao passar tangueando ouvi de um velho, com murmúrios de aprovação das velhas, todos com mais de 20 anos, ou 22: "Olha como o guri assovia bem, La Cumparsita, flauteado...". 

"E com floreios", disse uma velha de 19 de quem reconheci a voz, era minha parente longe. Joguei a cabeça mais para cima, para trás, grudei os olhos nas estrelas lá em cima, em desafio ao mundo, e segui caminhando, sem poder impedir meus ouvidos de gato. Ninguém me gostava naquela cidade, embora eu desse a vida por eles na hora do pega, se preciso fosse um dia, meus concidadãos, tudo por dinheiros que eu não tinha e porque eu era teimoso, e assoviei mais lindo ainda, agora com Sabor a Mi. 

Depois piorou.

De tão nervoso e abalado esta noite consegui dormir apenas três horas, das onze às duas. Despertei com um pesadelo terrível, eu ensopado de sangue em meio a animais num ambiente branco, meta a esfaquear um sujeito. Saltei da cama e passei a procurar a minha adaga no quartinho de bugigangas. Encontrei-a devidamente embrulhada num pano, mais um saco de plástico por fora. Depois passei a remoer vingança. Deu-se o seguinte.

Ontem levei o Gatolino e o Louco de Fome ao médico de gato, minha estréia nessa área, porque ambos estavam com umas bolinhas na parte superior do corpo.

Sabe o cara de 60 anos, que parece 80, que quer parecer ter 30? Sabe jogador de baralho de carpetas de vigésima categoria, aquele que deixa a unha do mindinho crescer para marcar cartas? Sabe um babão que tenta ares de dançarino de tango, com o colete molhado de baba? Sabe o cara que em vez de prestar atenção no felino fica olhando para o traseiro das mulheres com gatos nos braços?

Pois é: o elemento era isso e mais um pouco, com aquela vozinha de taquara rachada. Fui ao consultório desarmado, nem me lembro mais de arma de fogo, sei que entreguei toda a artilharia à campanha do desarmamento, pelo que já estou há tempos arrependido. Quer dizer, entreguei todas as armas menos uma, nunca se sabe o futuro, fiquei com um 38 especial, mas o escondi tão bem que esqueci onde e nunca mais o achei, sei que está aqui em casa, se for preciso outro dia boto tudo abaixo e o encontro, mas lá na hora pensei em pegar um ferro qualquer, um vaso, para arrebentar a cabeça do filho da, vai, da mãe. Ou uma corda para enforcar o miserável, ando com saudades de fazer um nó de forca, a última vez que fiz foi quando me desgostei com certo deputado. Ai que raiva, vem cada pensamentinho...

Como sou civilizado somente lhe chamei a atenção, falando alto, com delicadeza: "Ô, seu bosta, vai fazer o serviço ou não? Posso voltar outro dia se está tão ocupado em olhar as bundas e os seios das senhoras".

Ele me mirou, pensou bem na resposta que daria, e veio com aquele risinho de hiena, se fazendo de meu amigo para as senhoras pensarem que eu estava brincando. Foi para já, receitou isto e aquilo. Considera-se esperto, para completar o perfil.

Depois do “exame” que fez me tomou 130,00 por gatinho. 260 paus. No total, perdeu dez minutos examinando os dois. O Gatolino não queria, fazia Fuuuuuu e fugia pro meu lado, um fiasco, voava pelos cantos pedindo socorro, eu tive que pegá-lo, bater um papo e tal, e segurá-lo enquanto o Mr. Hyde Cat fingia que o examinava, o Gatolino odiou o nojentão. Ao final meteu-lhe a pata na cabeça, arrancando-lhe a peruca, bem feito. Na sua vez, o Louco de Fome só fazia Huummmm de brabo, segurei-o também para o bandido passar-lhe a sua mão de pintar catacumbas.

Eu numa eme que ando... Paguei. Talvez volte lá buscar o meu e matar o filho da, vá lá, da mãe.

A dois paus o quilo de média qualidade, média nada, boa, 260 dá 130 Kg de arroz. Com 130 Kg eu como dois anos e picos. As madames me confirmaram que 130 por consulta é o preço que vêm pagando ao criminoso.

Dos dez minutos que ele gastou, uns 7 eu levei acalmando o Gatolino. Mais um ou dois com o LF, de modo que, dando de barato, ele trabalhou um minuto, outro para rabiscar a receita.

Antes de pegar em armas, preciso me informar. Então me diga, querida amiga, quanto estão roubando, digo, cobrando, aí em Florianópolis?

Aqui, neste ponto, hoje de manhã pretendia encerrar esta missiva, mas apenas a interrompi. Agora três da tarde. Parei porque me deu na veneta e pouco antes do meio-dia resolvi telefonar para o vagabundo, me identifiquei e tal, e disse:

- Seguinte, meu chapa: você me roubou, seu puto, ou me devolve a grana ou vou cometer um veterinariocídio.

- O quê? O senhor está me ameaçando?

- Não, senhor, não estou ameaçando: estou prometendo.

- Vou telefonar para a polícia!

- Pra dizer o quê, malandro? Que eu telefonei para avisar que os gatinhos não sararam graças a ti? Com isso não dá nada, o resto tu está inventando. Mas agora me deu mais raiva. Poderei te pegar amanhã como daqui a um ano, durma com essa, mas que vou te pegar, ah, eu vou. E quando te pegar não estarei assoviando La Cumparsita nem Sabor a Mi.

- Como?!

Desliguei.

Pois é, minha amiga, nada como a gente ser sincero com as pessoas, quem não se comunica, se trumbica, como dizia o velho palhaço. Há pouco chegou um motoboy me trazendo um envelope com os 260. O homem foi honesto.

Mesmo assim, mande me dizer quanto os picaretas estão cobrando aí, de repente passo a levar o Gatolino e o LF passear em Floripa, em época de revisão médica, pode sair mais em conta. Aproveitarei para visitá-la para tomarmos uns mates e colocarmos em dia as nossas conversas.


Saudades. Grande abraço.
Salito.

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sábado, 21 de junio de 2014

La Nave del Olvido (1)

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Só lembro que estava barbudo de seis meses, unhas compridas nas mãos e nos pés, quebravam, doíam, e sujo, sujo, sujo. Fezes grudadas na grossa camisola marrom, por baixo nu, com feridas causadas pela sujeira, me ardiam as partes íntimas. Antes disso somente um vago semblante de mulher, uma espada, colocava o corpo na frente para defendê-la, e a seguir coberto de sangue. Névoa, lembrança fugidia, passava e me enlouquecia, onde está? Não voltava.

Viva na mente apenas a última cena, esta sim: eu já dentro do enorme barco, com mais uns duzentos entre homens e mulheres, no leme um louco que berrava palavras incompreensíveis, era um dialeto do lado esquerdo da Grécia, um estrangeiro. Vi de longe, a uns cem metros no cais, quando Michel chegou gritando, atirou-se sobre os soldados com raiva, não façam isso. 


Já tinham feito. Ouvi seus gritos enquanto o espancavam, gritava meu nome.


Fomos navegando mar adentro, sem comida, sem água, com aquele homem dirigindo, ele robusto, descomunal, espumando pela boca, urrando.


Sete dias depois os que não morreram ou gemiam se contorcendo, por beber água salgada, começaram a beber o sangue uns dos outros. Luta feroz, ninguém tinha arma. Pedaços de pau, alguns ferros arrancados da embarcação, unhas e dentes. Quando ameaçavam vir para o meu lado viam as lascas pontudas que improvisei, uma em cada mão, e então iam para os mais fracos. E comeram os velhos e velhas, mulheres, logo ninguém se entendia mais, precisei me defender, eu abatia e logo muitos caíam em cima, comendo os corpos, suas bocas vermelhas de sangue e o olhar de desvario. 


Eu mirei o grandalhão do leme, que já tinha matado três pelo sangue. Fiquei com raiva ao ver como comeu uma moça franzina. Lábios tórridos, resolvi beber o sangue dele, se fosse preciso, ali já perturbado com tudo aquilo, sem saber de onde vim, quem era Michel, para onde íamos. Deus fugiu.


Quando não pude mais, vendo o bacanal de carnes e sangue, perdi a cabeça, alucinado saí do meu canto e o peguei por trás, metendo-lhe uma lasca de um barril seco na nuca, peguei bem, com a corrida e violência a ponta saiu no céu da boca. Ao abatê-lo e morder o seu pescoço com fúria é que me dei conta de onde estávamos. 

La Nave del Olvido. O risco me feriu o cérebro, explodiu, fiquei estatelado por um instante, parei, mas no desespero logo segui mordendo a sua jugular com mais força, com sede e fome, chupando o sangue que saía aos borbotões, queria comer seus olhos, sua bunda, tudo. No primeiro dia o sangue bastou.


Todos morreram. Eu não, eu comi peitos, pernas, pedaços, restos. Quando não tinha mais nada, comi panos, madeira.


E o mundo se acabou.


Deitado na proa da nave, naquele fedor, alguém me levantou pelas costas, para me fazer sentar. Levantou um esqueleto moribundo.


Abri os olhos, tonto, mole, tornei a desmaiar. Senti água no rosto e agredi a quem não via, com últimas forças vindas não sei de onde, água, água, água. Seguraram-me com força, me imobilizaram, e me deram água aos poucos, agora eu urrava como aquele, mais água.



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viernes, 20 de junio de 2014

Na primeira dividida

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Fui fazer o exame de varredor do Congresso, eu moro no fim de Planaltina, me viro, meu, daí que o exame era às duas da tarde mas às nove da manhã eu tava na área. Esta é a minha grande oportunidade. É trabalho certo, varrer, cara, só varrer. Com a direita e o toco é um abraço. O velho Souza do Riacho Fundo me deu a letra, falou com um cara importante, um que vai pegar michês no Riacho 2, me indicou pra ele. Fui meio sem jeito, não gosto de pedir bexiga, mas o Souzão disse que se eu não comer outro come. Nada de frescura com o cara, ele falava do emprego.

Passou, que sufoco, agora tou aqui, sentado na frente do casebre, enquanto a mulher mexe com alegria na panela de feijão, eu com um liso de branca de dois dedos daqueles de mão aberta do mindinho ao polegar, bebendo, eu mereço, ela sabe. Eliete volta e meia sorri feliz, chamando, não quer que eu fique na chuva, com um sinal digo deixa eu, morena, e lembro, lembro de mais esta.


Salário de 7 paus. Por 7 paus eu varria até a mãe deles. Éramos oito os candidatos, para quatro vagas, alguns dos caras sorriam, com jeito de estou aprovado. Uns bundinhas.

A única pergunta foi o que eu achava da Copa, do futebol. Por aí. Saquei, eles pensavam em entender a minha vida, a vida da Eliete, do Maicon e da Xuxita, todos da Silva, minha família, pelos meus sentimentos de futebol. Eu, hein?

Me deram papel e caneta. Escrever eu sei mais ou menos bem, só me falta o braço esquerdo que perdi aos dezessete anos, o hospital recusou, mas o tenho até o cotovelo. Respirei fundo, e caprichei nos garranchos. Odiei os caras que me olharam daquele jeito e seguiam olhando.

Sou do tempo em que não se xingava no ouvido o adversário: "Comi tua mãe, seu viado". Isso fazem rindo, as famílias deles rirão no findi, durante o churrasco entre atletas de clubes amigos, rivais, como falou um sabão da globo outro dia. Sabe o que o fulano me disse?, e riem. Nem andava feito gazela de agarramento na grande área. Nada disso, nada de papo nem agarramento, se gosta de pegar em homem, meu caro, nada contra, mas errou de lugar e de homem, vá pegar no pau de quem quiser, aqui viemos jogar futebol.

Muito menos amizade de milhão, esse o grande problema, enquanto o povo passa fome, acham que não sei?, os carinhas ganham milhão por mês. Viram gazelas em campo, afinal são amoitados com os cartolas no roubo, o centroavante amiguinho amanhã será companheiro do clube que pagar mais pelo nada que faz, a não ser agarramento, umas putas. Putas de milhão, meu.

Não mesmo. Não era assim que eu queria. O senhor vai entender.

Na primeira dividida, lá no meio de campo, longe da área, ele ia parar no Japão, para saber que aqui não, violão. Aí tu diz, sem gritar mas para ele e seus companheiros de ataque e todo seu time ouvirem bem: na próxima vai ser pior. O juiz também ouve, e daí? Mas sem raiva, na boa. E ele que tente pra ver. Se tentar, aí já viu, sem perder a cabeça, mas ele sai de maca por acidente. Quem sabe, sabe, não há tevê que perceba. Brutamontes e amiguinhos de findi não sabem.

E ele que se cuide, se entrar corrido, pode levar um balãozinho de costas, para desmoralizar.

Ao fim da partida, seu, o bem-bom deles vem te cumprimentar: vocês venceram, muito se deve a ti. Quer trocar camisinhas. Você tira a sua, dá de presente ao fã, e diz: homem não tou fazendo, a tua entrega para a maninha, diz que eu mandei pra ela.

Zagueiro que se preza empurra os companheiros do meio e da frente pelo exemplo, naquela de eles pensarem: se o cara está se matando lá atrás, até apelando, a gente também precisa se mexer, mostrar a que viemos. Algo assim.


O Brasil vai se fuder nesta Copa.

Não sei se eu e muitos colegas, se tivéssemos um começo certo, comida, apoio, roupas de jogo, aprendizado, poderíamos ter sido grandes atletas. Não sei. Só sei que assim... melhor não ter sido.

Isto é o que eu penso sobre futebol. 

Obrigado.

Entreguei a prova. Sabia que estava reprovado, os outros caras eram capachos de políticos, só vieram fazer fita.

Vou embora pra casa, tirar esta roupa apertada do irmão da Eliete, e vou mentir de novo pra ela e pras crianças que deu tudo certo. Na parada de ônibus me despeço dos outros otários sem políticos, abraço, mano, se faltar rango pinte lá em casa, a gente se ajeita. E começa a chover, o ônibus não vem, um protesto trancou tudo lá na saída, me diz um cara de radinho. Tomara que  os carinhas que protestam pelo menos matem alguém da repressão, duvido.

Pra mim chega. Vou pegar aqueles caras do Congresso, sozinho, mano a mano, um por um, sem pai nem político pra ajudar, antes que a comida termine. Vou cortá-los ao meio. Já que não posso mais jogar, vou pra dividida de outro jeito.

Duas horas depois chego em casa, ensopado e rindo para a Eliete. Beijo ela na boca, corresponde com saliva quente, adocicada, pastosa de tesão, a nega é assim, se beijar na boca se molha, depois diz ai, homem, todo molhado, se esquiva contente, se fazendo, dou gargalhada, abraço minhas crianças com felicidade, Papai chegou, passou no exame.

Aí vim aqui pra fora, na chuva, olhar pra eles.

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miércoles, 18 de junio de 2014

O que se perdeu

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Janio de Freitas, ontem na Folha

Os defensores do xingamento dirigido à presidente da República, adeptos do argumento de que apenas foi usada a linguagem das arquibancadas de futebol, formalmente têm razão. Mas o fato fez parte de mais do que os hábitos dos campos de futebol, mais do que um insulto pessoal e mais do que seu alegado sentido político.

Na raiz e na forma daquele fato está a realidade de que os brasileiros não têm educação nenhuma. A que tiveram, e não há dúvida de que a tiveram, perderam toda. Como e por quê, não está identificado nem procurado, o que por si já é prova da falta de educação. Mas nada a ver com a educação escolar, que a outra independe desta.

A cafajestice é a regra, sem diferenciação entre as classes econômicas. Na vulgaridade da linguagem, na indumentária "descontraída", na ganância que faz de tudo um modo de usurpar algo do alheio, na boçalidade do trânsito, nos divertimentos escrachados, na total falta de respeito de produtores e comerciantes pelo consumidor, enganado na qualidade e furtado no valor --em tudo é o reinado do primarismo mental e dos modos da falta de educação.

O baixíssimo nível moral e intelectual do Congresso, o comercialismo dos dirigentes políticos e dos partidos, o negocismo que corrompe as administrações públicas, tudo isso é a própria falta de educação, invasiva e ilimitada. E crescente.

Ao xingamento a Dilma Rousseff seguiram-se, como atos políticos, três eventos: a convenção do PSDB para oficializar a candidatura de Aécio Neves à Presidência, a convenção do PT para a candidatura de Alexandre Padilha ao governo paulista, e a primeira aparição política que Eduardo Campos se dignou a conceder ao seu Estado desde que deixou o governo pernambucano. Foram três festivais de grosserias e insultos em nome da política.

Exceto Eduardo Campos, que sugeriu ser o governo federal "um bocado de raposa que já roubou o que tinha que roubar", tudo o que foi noticiado como dito nos atos poderia ser dito com alguma elevação. Aécio Neves, Lula, José Serra, Fernando Henrique, no entanto, não recusaram a regra vigente. A julgar pela conduta deste grupo de candidatos e dirigentes, e pelo que até agora disseram Aécio e Campos, está prenunciada uma campanha pela Presidência com falta absoluta de ideias e o máximo da agressividade mais primária.

A propósito, Eduardo Campos, com a originalidade de que pôde dispor, disse dos xingamentos a Dilma Rousseff que "na vida a gente colhe o que a gente planta". Quando o vaiarem, descobrirá o que plantou com seu comentário.

BEM ENTENDIDO

Seria voltar bem mais de um século, se o propósito do vice-presidente Joe Biden, em sua prevista visita hoje a Dilma Rousseff, for mesmo "retomar a relação de confiança" entre Brasil e Estados Unidos. Mas o governo americano e Joe Biden são menos pretensiosos. É claro que ele se refere, aliás explicitamente, à retomada das relações anteriores aos incidentes entre o governo Obama e os de Lula e Dilma.

Ou seja, no dizer de Biden, "relação de confiança" é a que vigorou quando o governo americano violava as comunicações de todo o governo brasileiro, da Petrobras e de outras empresas, e até da própria presidente.


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viernes, 13 de junio de 2014

Os chargistas da Copa

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O blog Ainda Espantado é prova cabal, há anos, do apreço e admiração que tenho pelos chargistas brasileiros. Porém nos últimos dias se desconectaram da realidade, não todos, mas a imensa maioria. Vão por eles, pelas suas "valentias", pagas a bom preço, seja em numerário ou pela covardia de manter o status quo. Vai um exemplo, somente um, pois são centenas, que me perdoe o autor, pego para judas. Não é judas, é somente mais um enganado, saindo pelo menos.

Subestimam as pessoas que protestam por um Brasil melhor. Subestimam homens e mulheres. Vá lá que critiquem, é do jogo, mas isso... Francamente, precisamos ter responsabilidade, sabedores do efeito de uma obra popular na memória da população, sempre desprotegida e reclamando do governo, já que Deus nos dá apenas conforto espiritual. Ou serão mesmo cobras mandadas?

A briga não é contra a presidente Dilma, como pretendem alguns que venderam o Brasil e querem, na maior cara de pau, voltar ao poder, faltou vender o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, na próxima conseguem, renderá muito mais, pelo "por fora", do que os cargos de diretores fictícios desses órgãos, onde já têm muita grana e mordomias e ajudam parentes e comparsas. 


Não. A briga dos manifestantes é por um Brasil melhor, em apoio à presidente, a qualquer que seja o governante, mas também em favor dessa mulher que jamais teve sua honra posta em dúvida, como as deles foram postas, ela que é refém dos vagabundos de sempre, o peemedebê, muitos donos de jornais. Os fascistas, quando não nazistas, donos das tevês e de certos grupos empresariais ajudam. 

Alguns errados do governo foram presos, assim a nossa Justiça decidiu, li os autos, aceitei, mas os deles ainda não, e é horrível o dano que causaram. Vamos em frente.

Quem vaiou a presidente na abertura da Copa? O povo? 

Negativo, foram os donos de tudo, da área VIP do estádio, ingresso de mil reais, mais uísque, petiscos franceses, será que até cama para diversão com moças compradas? Não, camas depois, nas mais caras boates de São Paulo. E me vem o Marcelo Tas, outrora um bom palhaço, fazer figura? Um bostinha que não viu o tempo passar. O que o dinheiro não faz. E a idade, um velho cerebral, por dinheiro, ajudante dos nazis da Band certa vez o vi.

A presidente, ganhando líquido menos de 20 mil reais, encarregada de levar o Brasil nas costas, submetida diariamente a desgaste físico e emocional terrível, lutando para evitar que os gatos sigam metendo a mão, os próprios e os deles, estes piores, sendo vaiada por essa canalha. Lá dentro, como na área VIP, uns caras ganhando um milhão por mês, como o inteligente Felipão, que tanto fez pelo Brasil... fora a verba da propaganda.


A moçada reclama porque assim melhora o governo, e este aceita, nunca houve tamanha liberdade de expressão como agora. Imaginem o Opus Dei, governador de São Paulo, como presidente, já teriam atirado de metralhadora. Há erros e tal, claro que sim, esta Copa não deveria ter existido, mas não é culpa da Dilma, e todos festejaram quando o Lula foi lá para buscá-la. Todos que eu digo são os canalhas que hoje reclamam, eu, pessoa física, fui contra sempre, como contra foi uma minoria. Mas, eles...

Se todos fossem como vocês, nobres artistas, aquelas pessoas que protestam seriam uns merdas, com o perdão da palavra. O que vocês vêm cometendo é desrespeito que beira a molecagem. As pessoas que saem em protestos pacíficos, exigindo seus mínimos direitos, não são assim. Querem que a Copa, e os senhores, se fodam.

Dizendo melhor: o cara que sai com uma placa dessas não é leviano como são os dejetos, novamente com o perdão da palavra, que insinuam tal leviandade. Mais respeito, por favor, não julguem os outros por si mesmos.

E reitero, abri o voto para Randolfe Rodrigues. Não falei em partido ou opção perfeita. É a minha. Respeito a opção dos meus concidadãos. Agora, se em eventual segundo turno ficar a Dilma e aqueles, nem preciso dizer para que lado saio.



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jueves, 12 de junio de 2014

Tempos de bola

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Certa vez fomos jogar pelo time da Guarita, uma localidade famosa por ser área de proteção indígena, 23 mil hectares, da tribo Kaingang, no noroeste do Rio Grande do Sul. Aristides Fortes, Osni Vargas e eu, de Palmeira das Missões. De enxertos, para reforçar o time dos guaritenses. Osni deslocado lá pela ponta-esquerda e eu e Tide fazendo dupla no miolo da zaga. O Tide e o Osni fora de posição, mas numa boa, em conciliação, a moçada da terra até então titular não gostou muito de virar reserva de uns carinhas vindos de outro lugar. 

Fomos para conhecer um lindo recanto deste mundo, de um verde estonteante, maravilhoso, com seus riachos límpidos, e para ganhar.

Na primeira partida, de ida, o "nosso" time havia perdido em casa por 7 a 0. A guerra entre eles era fogo, a diretoria guaritense não se conformou, então fomos convidados e levados de Palmeira, tratados como reis pelo povo da Guarita, para o jogo de volta, lá não sei onde. Sacanagem dos caras da Guarita, buscar "boleiros" de fora, naquela de "agora eles nos pagam!".

Mas a sorte já andava bailando, o inimigo havia se adiantado na crueldade, a vingança antecipada, sem saberem o que o lado de cá estava tramando, sabiam que boa coisa não era. Estavam acertados com o juiz (que era deles, parente de dirigente ou algo assim, soubemos depois): era cair na área e pá, daria penalti. 


Entramos em campo com todos os olhos grudados em nós, os três rapazotes que não conheciam. Os atletas e dirigentes adversários ficaram furiosos, dava para ver de longe, mas frios, sabiam que o juiz era deles. E logo viram a que viemos. Ao final do primeiro tempo a gente ganhava de 4 x 0. 

O Osni, rápido e raçudo, arrumou muita confusão na área adversária. Mesmo Tide e eu demos de subir em escanteios, eu para saltar e ele para pegar o rebote, era um massacre, os outros sete, mais o goleiro, do time da Guarita, se empolgaram com a nossa presença, Tide e eu aqui atrás matando no peito, sérios, distribuindo. Na primeira bola desmoralizei o centroavante, dando-lhe um balãozinho de costas, quem mandou entrar corrido.

O Tide se adonou da meia-cancha, sua posição original, nem parecia quarto-zagueiro, orientando os companheiros para se deslocarem antes de passar, a turma foi aprendendo. 

O Osni botava fogo lá na frente, iam cinco em cima, pauleando, ele caía sem largar o porco, levantava, batiam de novo, para matar, levantava, fingia sair por aqui e ia pelo outro lado, se desvencilhava e conseguia: dava de bandeja para a turma fazer, no coração da área vazia. Tudo ia dando certo, todos jogando bem, iríamos meter de dez para cima neles, mas jogo muito peleado, os bichos não se entregavam fácil, e batiam até na sombra.

O jogo estava tão bom que resolvi testar algo que tinha vontade e nunca tinha feito: aparar de bicicleta um tiro de meta do adversário, devolvendo. A bola veio zunindo por cima e subi muito alto, a peguei de raspão, e caí de ponta cabeça lá de cima. Tide se assustou ao ver a queda, arregalou os olhos, correu e me disse, já aliviado, ao ver que não tinha quebrado o pescoço: "Qual é, Salazar, quer se matar?!". Não queria, não.

E nada de os caras conseguirem cair na nossa área em embate corporal, a gente chegava antes, tirava de letra. No início do segundo tempo o Tide prensou uma bola com o avante deles, dois metros fora da área, o cara vindo de sola e o Tide meio que tirando o pé (na catega, que tinha demais, mas firme, não era bobo), não precisava esforço para afastar, o outro perdeu o equilíbrio, caiu, e o juiz não teve dúvida, pá, penalti!

Um escândalo: Tide sofreu a falta, levou vantagem, fora da área, e o canalha deu penalti, na cara de todo mundo. Enquanto o Tide, braços abertos para o alto, fazia uma cara de o juiz enlouqueceu, eu corri em direção ao árbitro, reclamando da arbitrariedade, nem vi que um dos caras do nosso time, mais velho, bugre forte, atarracado, kaingang que era milico na Guarita, foi até a cerca, arrancou uma tábua e veio a mil para cima do senhor juiz, só vi quando ele desceu a lenha.


Acabou o jogo ali, fechou o tempo. Invasão de campo pelas torcidas, pau comendo. Eu queria entrar na festa, mas o Osni e um velho da Guarita me pegaram, me tirando da parte boa. O Tide alguém já tinha tirado.

Se fosse lá pelos lados dos vizinhos da Guarita, o juiz de Brasil x Croácia teria muita dificuldade em voltar vivo ao seu país.

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domingo, 8 de junio de 2014

Boa noite, Vila Isabel

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Sexta-feira

Nove da noite fui ali no Beco da Morte, no bar do Darci, comprar algumas cervejinhas, 48 acho que dá para hoje e amanhã. Tinha um negão me seguindo, deixei para lá, sei quem é, mal não vai me fazer, não é louco, ninguém é louco, ao menos enquanto eu tiver o 38 no bolso interno do paletó, no lado do coração.

Tem coisas que só acontecem na Cidade Baixa. Na dobrada para o escuro na Lobo da Costa topei com uma bruta cobra com um sapo na boca. Mamma mia. Sapo não, o pai dos sapos, sapão, não sei como entrou nessa fria, ele esperneando com uma perna pra fora, mas não adiantava mais. Deixei-os lá se divertindo, sou a favor dos animais.  Bem que a cobrona podia brincar com o negão, que congelou lá atrás ao assistir a cena. 

No boteco dei de cara com o Bruno Contralouco perdido para estes lados, me disse que estava rondando uma tianga por ali, mulher de um... Pára, Contra, não quero saber. Só ia dizer que o milico anda dobrando serviço com essa história de Copa, Sala, que coisa!, então a festinha vai sair de noite, de noite é muito melhor que de tarde.

Diz que ficou até às oito na sua gráfica lá na rua do Arvoredo, ultimamente o movimento esquentou com a politicalha encomendando santinhos, eles se antecipam, estão há meses em preparativos para entrar a mil no cu do povo em agosto. Saí às oito, disse, porque já tava me dando vontade de errar nas fotos dos caras, botando um jacaré no lugar.

Como sou a favor dos animais, fiquei indignado. Pera aí, meu, bota outra coisa, a cara deles já fica bem, diz tudo. Ele ainda argumentou, mas Sala, esses répteis comendo o povo como quem come sapo, enjoei!


Agora fui eu quem congelou. O Contra é perceptivo, espírita.

Ficamos de tomar uns tragos amanhã, no Beco do Oitavo, teremos cantorias no Botequim do Terguino. Grande Bruno, figuraço.

Voltei para casa, o Cara de Cadela me ajudou a trazer os frascos, 48 cascos pesa. Depois tomei umas seis, entrei no feicebuc, ouvi uns sambas do Antônio Augusto, e comecei a me sentir sozinho. Odeio ficar sozinho. Pensei em abrir o bacalhau que trouxe pela manhã do Mercado Público, mas não é do odor que sinto falta, sinto falta é delas.

Ó vocês, felizes da vida, que saem namorar e tomar uns merengues na sexta-feira, bolso com cinco de cem, que Deus os ajude nessa trama de felicidade e amor.

Eu aqui, snif, de plantão, como todas as noites, sofrendo solitário e imaginando os risos das ruas, dos bares, as músicas que pedem aos instrumentistas e cantores. Não, não estou doente, ou estou, se da cuca, para suportar tamanha humilhação.

Ocorre que minhas mulheres trabalham à noite, das 16 às 4 h da matina, doze horas na batalha, e fico eu encarregado de fazer comida e cuidar dos gatos. Tem nego do outro lado da rua me cuidando, detrás daquele poste, elas conferem. Até as vizinhas, que eram um desafogo para as horas de solidão, elas espantaram. A do oitavo andar uma polaca completamente alucinada, pelos ruivos em tudo, entre as pernas muitos, um tufo, ui, botava a sala em penumbra e dançava se contorcendo com música russa antes de me pegar. 

Pois é, depois de champanhes, delírios, me entreteram no quarto de cá, onde na cama rosa cabem seis delas, mais eu, enquanto as outras duas, Mariana de Rosário e a haitiana Sybille, quebravam a cara da polaca: uma garrafada no rosto, chutes e o empurrão escadaria abaixo. Não morreu mas ficou manca na queda, agora me olha de longe e sai em disparada, manquejando, olhos esbugalhados de medo.  Mulheres...

Bom, hoje consegui fazer oito pastéis para esperá-las. Na embalagem vinda da Romênia dizia que havia meio quilo, a olho vi que tinha uns vinte pastéis. Só saiu oito porque errei nos doze primeiros.

Refoguei o guisado da Mercearia Zaffurtari, tudo embolado, precisei esmagar com uma colher, finquei sal e pimenta, tomate picadinho, cebola e um saco de tempero verde, à parte cozinhei três ovos pra misturar depois, dentro dos pastéis.

Aí lembrei que elas mandaram fazer sequinhos e quase torrei a panela. Como se fosse eu a gostar de lambuseira... deixa pra lá. Derramei uma garrafa de azeite na panela pretona e comecei a função, me cuidando para não me queimar, mais queimado que ando com elas impossível. Gostei da atividade. Eu não sabia, mas tinha uma película de plástico envolvendo cada bendito pastel, fritei junto.

Reclamei na sacada, gritando aos vizinhos, cuidado aí, queimaram plástico, há horas queimam, otários! 

O que faz a bebida. Depois é que me flagrei.

Azar, com oito cada uma come metade. Disso não posso reclamar: metade sempre deixam pra mim.

No fim de semana elas estarão em casa, sábado e domingo, ufa, pelo menos isso. Semana que vem aquele negão vai sofrer um penalti, pra elas aprenderem que ao Sala ninguém prende nem observa.

Sábado

Uma linda noite em Porto Alegre. Saí às três da tarde, quando as mulheres ainda dormiam. Pela manhã ouvi Feitiço da Vila no rádio e saí com uma saudade da Vila Isabel por dentro, do Martinho, de todos aqueles loucos e loucas.

Comprei umas loterias e fiz uma fezinha no bicho da federal, depois dei uma passada no boteco do Darci ali do Beco da Morte. O pessoal queria que eu entrasse numa Vida a cem paus que armaram na mesa do fundo, mas não fui, tenho compromisso, hoje vou jantar fora e dançar com minha amadas. 

Conheço mesa de sinuca, fui profissa, depois de entrar pega fogo, o cara só sai no outro dia, os locos teimam em te deixar ir embora levando o deles. À meia-noite tu ganhou mil, quer sair e não pode, é de lei na malandragem, sair da jogatina ganhando, se os caras querem mais, de jeito nenhum, desmoraliza. Aí tu fica, até eles se pelarem, mas aí já é nove da manhã e perdeste as mulheres, passaram a noite te esperando, encrenca certa em casa, mesmo chegando com quatro mil.

Fiquei de papo com o Contralouco, que armado até os dentes passou na zona para comprar munição de 38. Tomamos umas dez repolhudas. Ele não parava de olhar para a porta, quando me contou que ontem deu zebra naquele seu assunto com a mulher do milico. Bem que o avisei, nisso de pular a cerca de campo alheio um dia a casa cai. Dei um endereço para ele se entocar na Vila Cefer, lá estará protegido até que a tormenta passe, e voltei pra casa.

Apartamento vazio. Na mesa da sala os gatos me olhando e um bilhete: "Salito, a patroa telefonou, com isso de Copa tem uma homarada lá, vamos ter que dobrar serviço. Tentamos te ligar mas tocou aqui, tu esqueceu o telefone em casa". Faltou papel para os beijos de batom, seguiu no verso. Ao lado uma pilha de notas de cem. Na mesa oito gatos, os delas, faltava o meu, o Gatolino, que como eu não gosta de andar em bando, sai muito papinho fútil.


Cadê meu miau?, perguntei. O apartamento às escuras, mas lá de algum lugar, longe, veio a resposta: miau.

Era só o que me faltava, eu e o gataréu, as gatas de verdade no serviço. Mais uma desilusão. Que destino bem ingrato. Ruíram todos os meus planos com as donas. Vou à sacada da frente e vejo o negão lá atrás do poste, no outro lado da rua, se fazendo de estou aqui por acaso. Elas foram mas deixaram o espião pra me cuidar, é hoje que ele vai sofrer um penalti.

Sento um pouco, com o coração aos pedaços de tanta tristeza. Depois sirvo uma losninha, bebo enquanto penso nos passos que darei esta noite. Para espairar boto rodar um samba dos camaradas Acyr, Chiquinho e Mauricio. Com uns caras que gosto muito: Almir e Zeca. Destino bem insensato mesmo.


Dou uma saidinha. Lá embaixo miro o negão se fazendo de salame, bem que me viu. Atravesso a rua, ele tenta sair de fininho mas digo volta aqui, meu amigo, é contigo mesmo. Ele pára. O que tu prefere: um tiro no joelho ou dizer que se distraiu com o acidente de carro ali na esquina? Que acidente?, diz ele, mas logo se tocou, quando eu disse: Bom, a escolha é tua, mas agora não me olhe mais, se olhar o tiro será na cara, o que prefere? Olhou para baixo e falou: não entendi o que senhor disse, eu estava só passando, mas prefiro me distrair com o acidente na rua, um estrondo, os passageiros se machucaram, um morreu, não vi o senhor sair. 

Bom rapaz, ligeiro de raciocínio.

Retornei e servi uma dose porreta de dyabla verde.

Será que ainda consigo uma passagem de última hora para o Rio de Janeiro? Pego o telefone. Ainda hoje, na verdade amanhã, meia noite e trinta descerá o avião, logo chegarei espalhando felicidade, chapéu atirado para trás, exclamando ao chegar no primeiro bar do bairro: Boa noite, Vila Isabel!

Domingo

(...)


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viernes, 6 de junio de 2014

Gatolino à venda

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Não sei quem anda dando mau exemplo ao Gatolino. Uma da madrugada e ele meta a miar: miosna, mioooósna. Brabo, em pé querendo subir até alcançar um vidro de conserva que tenho em cima do móvel dos livros, conserva de losna, com pinga. Vidrão, cabe dois litros. Talvez o verde que baila dentro o atraia.

Tá, vá lá, de pena do pobrezinho de vez em quando coloco uma dose no seu cocho.

Parece que adivinhou que não vai levar, neste instante olha para o meu copo e começa a miar: mieja, mieja, mieeeja... Controlo-me. Pára, meu, que mieja nada, vai comer a tua ração. Mieerda, mieerda... Sei que aquilo é uma merda, mas as mulheres decidiram, come e fica na tua. Amanhã te dou fígado cru, picadinho, escondido delas.

Com essa sede por miósna vai precisar mesmo de um fígado novo.

Não se pode mais nem tomar uma cervejinha em paz, ora, mieja, enquanto as minhas senhoras estão no trabalho.

Vendo o Gatolino, por um real. De quebra o comprador leva, como bônus de gratidão cento e um reais, o um e mais cenzão estalando.

Se alguma mulher o achar, ou ele voltar, o, ou a, adquirente precisa apenas dizer que fugiu, achou na rua e tal, eu fora, nego que tenha conhecimento dessa transação. Simples assim, pegar ou largar.


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Véio Armando

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Prezado Juca. 
Buenas, gaúcho amigo.

Tchê, sonhei duas noites seguidas com o véio Armando. Nas duas sobre certo sábado à tarde, nós dois lá perto da esquina da Santa Clara, pés estendidos em cadeiras num bar da Atlântica, lá fora, só de calção, tomando caipirinha e comendo salgadinhos, bem belos, quando assistimos a um atropelamento terrível, uma vovó levando o netinho nenê para encontrar os pais na areia, e pá, um furgão matou os dois, a velhinha atravessou errado. Meu, nunca esqueci aquilo, até hoje me dói. Paralisei de impotência, raiva, foi na nossa frente e nada pudemos fazer, o véio me puxou, vamos para a água, guri.
Encasquetei com os sonhos daquela tarde. Tu terias o e-mail ou o telefone do Véio? Se tiver me mande. Abraço, Sala.


Buenas, Sala!
Vai o e-mail do véio, não sei se ainda está valendo. Pelo que sei ele está bem. Abraço, Juca.


Buenas, tchê Véio
Se estiver valendo o seu email, espero que sim, para não gastar dedos copio o e-mail que mandei para o Juca.
Viu, eu sonhando?
Duvido que não lembres daquela triste passagem. Lembro também das boas, todas foram boas exceto essa. Mas aí me ocorreu: isso de sonhar... vai que o índio velho tenha me adoecido, ou algo assim. Vou procurar saber. O Juca me disse que ao que lhe consta o senhor (sempre tive problema nessa de chamar de tu ou senhor, releve) está firmaço, mas de todo modo vai este correio.
Saudades. Mande notícias. Sala.



Mas bah tchê, que contato maravilhoso, há tempos que eu não recebia uma mensagem tão legal, ainda mais lembrando das nossas aventuras em Copacabana. Mas cara, tu te lembra, nós com a cara cheia de caipira ainda jogamos futebol na praia e abandonamos o futebol na metade, e voltamos pra caipirinha, que é bem melhor e menos cansativo. Sala, hoje eu larguei ou a auditoria me largou, também já estou batendo nos 80 anos. Pois é, entre futebol, auditoria e caipira, sou mais a caipira.
Mas cara que saudades, e o Café Nice, pena que passou tão ligeiro. Tu piazito lá abraçado com o Jamelão.
Um tremendo abraço e faça sempre contato, ah eu ia me esquecendo, não me trata de senhor, isto é coisa pra velho, eu continuo sendo o “Veio Armando”, e isso de sonhar é alguma carioca querendo cair na tua cama.



Um beijo, Véio Armando querido, hoje dormirei melhor. Outros sonhos. O "piazito" tinha 28 anos, e o senhor, digo, tu, que já tinha uns 90, ahahaha. Acho que a carioca na minha cama quer sair sem nunca ter entrado. O mundo é assim, quem procura acha. Falaremos, agora tenho seu telefone. 
Sala.

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jueves, 5 de junio de 2014

Ingratidão

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INGRATIDÃO



Na minha família era assim: minha mãe, irmãs, depois esposa e filhas, assistiam filmes americanos, de guerra ou sentimentais. Comédias, de tão rasteiros. O personagem principal, em guerra ou apaixonado, bebia garrafas de uísque e saía, gritava de tristeza e solidão, errante, entrava em inferninhos, brigava a socos, matava até - algum mexicano malvado o provocava, o roteiro sempre igual, “sem querer”, porque estava triste, ele tinha um retrato da namorada no bolso. Negros, nos filmes deles, quando aparecia, eu já sabia: ia morrer. O personagem, de mil caras, era um herói, havia matado famílias coreanas, no derrubar a porta de tramela e lá vai granada, o máximo. Isso antes de correrem feito galinhas, Saigon em fogo, este último filme elas não viram, vieram outros esmigalhar suas cabecinhas. Mesmo sendo humanos, nos filmes que elas amavam só tinha galo. Nunca viram um galo, barbelas e penacho, mas achavam que sim.

Elas choravam de compaixão pelo sofrimento do herói, compreensivas, lindo o ator. Outras pessoas lindas se drogavam pesado, um fiasco atrás do outro, segundo as suas concepções, delas, suicídio à vista, e se suicidavam em cocaína, em esperma doente, sangue contaminado, isso a mim também doía, mas tudo era compreensível e desculpável, os sentimentos da pessoa a levaram àquilo, que pena, e corriam a comprar seus discos, quando cantores, artista morto é lindo. Fotos na parede, quando atrizes e atores. No meu aniversário, nem um abraço.

Maravilhoso era o agenciador de meninas para modelos. Querido era o dentista. Os estupradores donos de creches. Os médicos. Em todos meti uma arma engatilhada no rosto, se não elas estariam perdidas. Uns lixos humanos. O estuprador faleceu sem tocá-las.

Amavam Clinton, Xuxa, Maicon Jékson, Roberto Carlos, Menudos e Caetano Veloso. Médici, Collor e Marília Pera. Amavam todos, uma lista sem fim. A novela da Globo, os atores, as atrizes. O contrarregra, a bunda do Roberto Marinho da ditadura. Nem sonham que mijei no túmulo de alguns, madrugada alta, enquanto os guardas tomavam uísque.

E eu, retrato de alma, desarmado por opção, só lendo uns livrinhos, sem alarde, quase escondido. Eu que buscava lenha no inverno congelado, subindo aquele morro íngreme sem fim açoitado por ventania cortante, resvalando sob chuva, dois passos para a frente e um para trás, costas lanhadas em sangue pelos paus verdes no saco às costas. Eu que depois iria me limpar sozinho, enquanto elas se aqueciam ao fogo, esquecidas de mim, eu que mais tarde ouviria as reclamações da mãe, sobre meu pobre pai.

Eu que saí correndo do trabalho, só Deus sabe como consegui chegar a tempo, da Mauá ao Menino Deus, e levei minha menina ensopando minha roupa e minha alma e o táxi em sangue, dela mas meu, era meu, meu, meu, eu que na corrida de volta peguei uma gravata para mentir, e menti no Pronto Socorro que era fazendeiro rico, para que a operassem não importa o preço, eu ira matá-los se não, ah, iria sim, a equipe de filhos da puta era particular, só pagando na frente, emiti o cheque sem fundos. Eu que fui tão sincero depois ao falar com os canalhas: se ela morrer, vocês morrem todos, família junto, seus ladrões. Eu que era ainda um menino. Eu que paguei com vinte férias e vinte 13ºs adiantados aquele preço. Eu que matei um deles, para me defender, o anestesista, desbocado, sujo, que só pensava em dinheiro, violento, mil processos nas costas, eu que o Presídio Central tirou da cena de morte, ele lá, arma de fogo ainda na mão e com a jugular arrebentada pelo meu punhal, porque eu era amigo das horas ruins, de visitar presídios e asilos e tudo de ruim. As noites que fiquei acordado pensando naquilo depois, sofrendo em silêncio, enquanto elas me miravam daquele jeito...

Alguém tocou numa delas? Lá ia eu, sem aviso, noite fechada, conversar com o valente a quem no mês anterior juravam príncipe querido. No Rio Grande do Sul nunca foi difícil. Quando São Paulo ou Rio de Janeiro, tinha de ser de avião. A arma ia de caminhão, um dia antes. Era tocar a campainha, engatilhar e perguntar, com calma, seguro: me conta, seu, que conversa é essa de ameaçar minha irmã, ou minha filha? Os caras ficavam pior que o Maicon Jékson pálido em caixão de ouro de tolo. Salvo duas vezes em trinta nunca precisei atirar, os valentes se modificavam, desculpe, seu, pelo amor de Deus. Aos dois eu até respeitaria, não fossem drogados que reagiram, mandei-os para o inferno. Aos outros, sobreviventes, me dá nojo de lembrá-los ajoelhados, sem coragem de sequer erguer a cabeça e ver meu chapéu a meio-nariz, e mirar meus olhos de nojo de covardes como eles.

Eu errei em algumas, como ao sair de um apartamento desses e no susto, alguém parecia voar em mim, atirar. Era só um maluco que queria me cumprimentar por justiçar os aliciadores de modelos. Errei mas consertei: me atrasei para a fuga, o furgão lá embaixo já acelerado, e o levei para um hospital. Salvamo-nos todos.

Mas não sou santo, e declaro, ante o juízo Maior, que senti prazer num pecado. Pequei, mijando. É quase como um orgasmo, e o quase tem vantagem porque é perene na alma: fazer uma coisa boa sozinho. Nunca intimidar ou machucar as pessoas, o que é isso, Deus nos livre. Mas fazer uma coisa boa sozinho, e nunca contar para ninguém. O contentamento é maior se a gente nunca conta, é único, arde o peito de paixão. Nunca contar. A solas. Eu lá, pulando o muro do cemitério, quatro da matina, e enquanto os guardas eram entretidos com uma garrafa, paguei uma alemoa putianga, ela nunca soube o porquê, para se fazer de viúva chorosa que passava de madrugada, roupa preta mostrando tudo, para dar a garrafa de J&B para os guris milicos da guarda, e enquanto bebiam, ela mentiu que voltaria, eu com a maior calma mijei no túmulo do general torturador, bota mijada nisso, antes me preparei, tomei seis cervejas de 600, saí de lá pensando a cerveja deve ter molhado a caveira do bandido.

Essa foi a única maldade - será que foi maldade? - que fiz, e nunca contei a elas nem a ninguém. 

Eu, o filho, irmão e pai, que tudo dava, a todos socorria, que nem maconha experimentei, que para matar um semelhante só se em defesa delas, eu... ao menor desejo, se fosse ao bar da esquina beber com simples meio-amigos, conversar, ou namorar, aquela moreninha me olha..., acender as luzes de casa, aquele escuro era assustador, tentar viver... ah, não, eu era um criminoso, onde já se viu, seus olhares de desprezo me imobilizavam. Eu que não tive infância, recebia olhares severos se tentasse dançar sozinho em casa, a rumba comendo no apartamento de baixo. Se eu errasse, cometesse mesmo um errinho de nada, esquecer de tirar o lixo, de lutar pela comida, o que fariam comigo?

Soube depois. Queriam que eu morresse. Por quê?  O que fiz de tão ruim, se dei a vida por elas? Algo de ruim devo ter feito.

Por eu ler livrinhos de gregos enquanto elas amavam os datenas da época, ou desfiles de moda? Nunca impedi nem critiquei, eu só queria sair para não ver o escuro e suas predileções. E saí. 

Será que o ódio foi por isso, por eu ter-me distanciado, em sonhos de querer ser um rapaz culto, um pouco, ao menos? Não pode, isso não. Mas recordo que riram muito, zombeteiramente, quanto falei de Kant, eu tentando decifrar. 

Pior foi a mãe, quando dei um tempo nos antigos, saí da Filosofia, da Antropologia, da Geografia, Matemática, História, para mim é tudo a mesma coisa, conexão natural, e entrei no Direito... para mim foi como se estivesse lendo os anteriores, mesma coisa, terminei de ler um livrinho pequerrucho e fui tomado de emoção, corri para a sala e declarei o final: 

"Ocorrendo, destarte, empate na decisão, foi a sentença condenatória do Tribunal de primeira instância confirmada. E determinou-se que a execução da sentença tivesse lugar às 6 horas da manhã da sexta-feira, dia 2 de abril do ano 4.300, ocasião em que o verdugo público procederia com toda a diligência até que os acusados morressem na forca". ¹

Eu chorando, fosse hoje, quando passamos do carbono 14, o autor teria colocado 6 de abril, dia em que mataram o comunitário Jesus Cristo. O ar de desprezo, enquanto pegavam bolsas para sair, me imobilizou, fiquei lá na sala, livro na mão, tremendo por dentro, murmurando “os exploradores de cavernas”.

Aí buscaram moleques fora. Aguentei berros pela suspeita infundada de extraviar um gato, berros ao pai, eu, atrás o olhar mortiço do cúmplice, que odiava a si mesmo desviando ao seu semelhante, esse não importa, mais um, ela sim, dentro de minha casa, um elemento com quem nunca conversei, quereria me espancar? Era crime levantar a voz ao pai, mas aquilo foi pior, traição vil aos berros, com terceiros sem mundo assistindo. A vida cobra caro. O sujeito pegou gosto, gritou, todo macho, gritou comigo, devo ter feito equivalente a ter matado alguém, mas não recordo, nada fiz, para receber algo assim tão grave nem para receber nada de ruim, o que fiz foi viver para elas, ao preço de desperdiçar a minha vida.

Onze da noite e a sábia, só rindo, cantante sob chuva implacável, vento gemendo, numa noite de breu de uma segunda-feira, inverno, solita, cigarro na boca, erguendo a gola do casaco e apertando o passo, uma luzinha cá e outra lá adiante, ela soçobrando à ventania, dançando com um par desconhecido ao se deslocar decidida do Mercado Público para o Chalé da Praça XV, lá fica aberto até mais tarde, tem bebida, se alguém pedir eu canto, depois pedirei desculpas por ter chorado.

Os caras fazem boleros com nome de Insensatez, que você fez, coração mais sem cuidado, fez chorar de dor, o seu amor, um amor tão delicado..., cantado em espanhol é mais bonito, e o homem lá do fundo, 38 anos, 45 ou 60, solito no escuro do bar, coração em pedaços, pensa e morre em ingratidão e não sabe lidar com isso, uma surpresa horrível, a ingratidão, quando não espancamento moral e físico, o Super Homem se transformou no Pinguim, o Sargento Garcia prende o Tarzan, na sua cabecinha da tevê alienígena. Onde errei?

Filha é complicado. Calma, meu irmão, tudo passa, deixa chover, chuva lava esperma, rostos, tapas, silêncios, berços, fotos, velas de aniversário, sorrisos, sacrifícios, gestos, gritos, gatos, mentiras, fraquezas, lava febre em noite alta, lava a boneca que compraste deixando de pagar o condomínio em segredo só teu, lava tua arma com que a defendeste indo ao ataque, lava sangue, ossos, chuva tira o horror da flor da terra. Chuva lava lágrimas doídas, derramadas sentado na cama no escuro, sufoca os teus gritos de pranto, lava o sal que ardeu na alma, lava noites sem dormir. No fim a enxurrada de lágrimas leva tudo para o fundo, adubo.

Enquanto estamos aqui, sorríamos, de nada adianta fazer diferente. Olhe o céu, vai chover amanhã. Depois da chuva que tudo leva, um dia ela aparecerá, numa manhã radiosa: "Oi, pai, desculpe, vim porque tava com saudade do senhor. O senhor tinha razão, me perdoe”. Até lá já morri! Haja chuva, nunca virá! Eu errei, em viver só para ela, esqueci da minha vida! E agora isto... me forçando a pegar em armas.

Assim me torturei por doze anos.

Elas eu deixei, o outro não. Vou sumir, um dia volto para cobrar o pobre homem, sozinho em rua escura. Estou velho, com sequelas no fígado, câncer recidivo, talvez este agora me vença, sem dinheiro para um exame de sangue, dias contados, uso óculos, mas aí é que ela me horripila, a burrice, a maldade inconsequente, bruta, a falta de livros, a infeliz por quem capei os melhores dias da minha vida. 

Repugna-me o sangue, o meu, que empurrei para dentro daquele corpo. E ao fim e ao cabo, de quem será a culpa? Quem assumirá? 

Eu. Nas ruins eu vou na frente. É de lei.

Foi num desses dias que desapareci. Dormiram e me esgueirei, ganhei a rua e saí correndo espavorido. Já longe, muito longe, no caminho escuro dos trilhos que circundam a mata, parei, abri a carteira, febril, alucinado caí de joelhos na linha, pensei em ficar ali, ajoelhado, esperando o trem passar por cima de mim, mas o que fiz foi rasgar aos gritos doloridos de solidão expulsa as fotos delas, com ódio da horrível ingratidão. Foi a mais velha, foi a pequena, duas de cada, a da mãe. Depois rasguei os documentos, a carteira vazia joguei longe, dinheiro não tinha, eu estava doente e sem dinheiro. 

Como clandestino peguei um trem que passou, depois outro, e outro, e morri para elas. Porém a roda do mundo não roda como a gente quer, tranca quando queremos que ande, destranca quando já estamos quase conformados à paralisia. Milagres acontecem, e aconteceu o terceiro milagre da minha vida: sobrevivi. 

Tornei-me Marion José, mudando pouco a grafia do meu nome, ainda sem saber do Quincas Berro D'Água, nenhuma surpresa tive quando conheci os parentes do personagem, só chorei muito num quarto de pensão. 

Limpei-as, dei comida, beijei-as na dor, acalmei-as em seus desesperos, curei seus males, e elas seguem lá, querendo me matar, matar ao único ser honesto que conheceram. O filho, o irmão e o pai. 

Não vou voltar, morreram todas, exceto as parricidas. Para voltar seria só por um motivo: matar a um moço que levantou a voz comigo. Mas para quê? Para tornar-me, enfim, um criminoso? Sufoco a revolta, tomara que chova, a noite está linda, preciso de água do céu, minhas plantinhas gostam, eu também. Vou rejuvenescer. Nada tenho a cobrar, se me devem. Nada me devem, quito a conta. 

Pensam que estou morto, talvez lancem imprecações aos céus, na falta de uma lápide onde cuspir, me acusando de... não sei. Lamento não poder ajudá-las amanhã ou depois, já estarei em outra.

É noite e a chuva desce forte aqui em Rocha, sem vento, chuva reta, potes, cântaros, derramada, uma delícia, a canção da natureza que mais amo, os pingos me pegam nas pernas no avarandado, deve estar batendo água também em Montevideo. Penso em Ariana Comesaña, que nunca vi. 

Tiro a camisa, medo que acabe logo o concerto de pingos dessa orquestra de amor, e deito no gramado da frente da minha casinha, ao deitar já ensopado, ah, água do céu. O rádio diz que na Argentina é demais a inundação. Alguns pobres morrerão em La Plata.

Soledad Pastorutti começa a cantar, com Horacio Guarany, Nada tengo de ti. A chuva aumenta.

Que Deus me perdoe pela ausência. Que Deus me perdoe pelo que não sei.

Olhando o céu, a chuva quase me cegando, olhos bem abertos vejo o corisco. Temo por elas, tremo de medo. Que o raio caia em mim, agora, mire em mim, meu Deus! Cobre de mim o que me fizeram, liberte-as.

Temo que elas um dia se matem, ao colher.


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(A obra que ilustra o texto é de Nani Lucas, especial para o conto, como todas que bolou para o livro "Um amor em Porto Alegre")


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