jueves, 30 de enero de 2014

Enforcando Gilmar


Festa no botequim ontem à noite. Luciano Peregrino enviou fotos para o correio eletrônico de Leilinha. Ele bem belo, sentado em cadeirinha de praia no entardecer de uma praia catarinense. Com uma negra no colo, na primeira foto. Nas seguintes ambos em pé, ele e a negra, rindo, felizes, depois com os funcionários do hotel à beira-mar.

- Isso era o que eu temia, depois de dois anos com Dolores Sierra viciou em espanholas, olhem, imagine a mulher de saia, essa escultura, aumente aí... olhos verdes... -, disse Marquito Açafrão pedindo à Leila para expandir as fotografias.

- Nega tem até na Alemanha, vai saber onde achou, basta lembrar a outra, espanhola de nascimento, na verdade alemoa - disse Silvana Maresia, com a concordância de Jussara e Jezebel, que apostaram em alemoa no buquimequi sobre a etnia da próxima namorada do Luciano, que quando rompeu com Dolores de Barcelona saiu porta afora dizendo que ia sumir do mapa. 

Pedindo perdão aos trilhões de leitores explicamos novamente: não é possível publicar a foto, que é linda, o pôr-do-sol, a negra de olhos verdes, feliz, o sorriso do Luciano, o garçom alegre elevando uma taça, as bebidinhas, o imenso mar azul logo atrás, o Atlântico em seu melhor momento, como escreveu no recado... pela simples razão de que o nome, que chamamos de sobrenome, do Luciano não é peregrino. Peregrino é apelido, por passar a vida peregrinando pelas camas das mulheres dos políticos e "grandes" empresários, essa gente que não trepa e descarrega as energias prejudicando seus semelhantes, roubar é o meio que têm de despejar o leite retido, na tentativa de compensar a falta de amor sincero, nunca ajudam a ninguém sem descontar do imposto de renda. E são vingativos, se declinássemos o nome verdadeiro do companheiro o colocaríamos em perigo. Ufa, tem que explicar tudo.

- Com aquele pretume e o nome de Luena acho difícil ser alemoa - disse o negão Chupim da Tristeza, ao que sua mulher Zilá riu.

- Pára tudo. Vocês olharam para a negra? Olhem de novo. O brilho dos olhos. Depois olhem a cara dele, o brilho... Acho que desta vez se enforca - disse Lorildo de Guajuviras.

- Tomara, ninguém aguenta mais, o loco só deixa a gente nervosa, sinto medo de políticos, gente muito ruim... Tomara que se acerte, pela cara ela é gente fina - desabafou Jezebel.

- Quem vê cara não vê coração, vai saber, vai que seja divorciada com cinco filhos, o Luciano é campeão em arranjar bronca assim, não pode ver china no cio, bonita, que se aprochega - lembrou Wilson Schu. 

- Queria saber de onde o Luciano tirou grana para ir para essa maravilha de praia, sai os olhos da cara, antes de desaparecer ele disse que estava falido - lembrou Tigran Gdanski, o famoso Mão de Vaca.

Os boêmios trocaram impressões por longo tempo, foi o assunto do ano. Mas ao fim se conformaram, o Bruno Contralouco ganhou o buquimequi, este que estava quietinho, mas que acabou reclamando que mais seis foram por ele, não mereciam a grana.  

A Luena é angolana. De Lubango. Eta mundinho pequeno: da terra do nosso Miquirina Segundo, ex-guerrilheiro, sobrevivente e aqui afamiliado. 

Entra no boteco o Clóvis Baixo cantando alto: "Fui comer uma nega lá em Barrafunda, atraquei nas coxas e saiu na bunda...". A doutora Jezebel do Cpers arregala os olhos e o interrompe, exclamando: - Mas tu não bate bem, Baixo! Bagaceira, não vê que tem pessoas estranhas lá no fundo, um casal de namorados!". 

Clóvis sorri e diz: - Ah, tá, desculpe, linda senhora, ainda bem que o moço nem achou graça... 

O rapaz da mesa do fundo se finava de rir, a menina ria de cabeça abaixada. Só o jeito do Baixo já dá vontade de rir. 

Alguém assovia comprido lá fora e o Contralouco sai em disparada, quase derrubando a porta do botequim. O pessoal fica alarmado. Gustavo Moscão sai atrás.

Voltam em cinco minutos. Gustavo diz: - Não era nada, o Negrote se enganou. 

Negrote é o velhinho sem teto que cuida as costas do Contra, e avisa quando algum inimigo pinta no Beco do Oitavo.

Pelo rosto a turma sente a decepção do Contralouco. Ele toma meio liso de losninha, a dyabla, depois suspira, botando a raiva para fora, e diz: - O Negrote está muito velho, agora deu de se enganar!

O assovio aquele, fininho e longo, é para o caso de aparecer um pastor de religião de tomar grana dos coitados ou um gerente de banco. Compreende-se a decepção do Bruno Contralouco, que já quebrou a cara de uns cem desses. Não podemos nos meter em assuntos que outros homens resolvem, mas, cá entre nós, é um absurdo proibir pessoas como o Feliciano Galinha Louca ou o senhor gerente do Itaú de transitar pela via, que é pública. Bem, proibir o Contralouco nunca proibiu, mas eles que aguentem, ah, deixa para lá, não é da nossa conta.

E com essa o Contra saiu da mesa. Abaixo do balcão do bar pegou uma sacola grande. Foi para uma mesa do fundo, longe dos boêmios que estavam com cinco mesas juntas, e abriu, tirando um monte de cordas. E ficou lá, quieto, fazendo e desfazendo nós.

Anteontem Aristarco de Serraria, como aqui se disse, propôs enforcar nobres juízes e parlamentares, após ou junto à destruição do Conúbio Nacional em Brasília. O enforcamento sobrou para o Contra, que se escalou como verdugo. Boêmios em bar falam tudo de brincadeira, sei lá, bebem, ninguém lembrava mais do assunto.

O tadinho se pôs a treinar, um nó para o salão verde, a depender dos móveis, outro para o banheiro, outro para o senhor aquele do salão Alagoas, outro se for preciso no corredor. Cada nó tem que ser perfeito, para não judiar. E não parava de sair corda da sacola.

A turma seguiu de papo, bebidas, Jezebel cantou um samba, ai Agora é Cinza, tudo acabado e nada mais. O menino Mateus do Pinho solou Aio-iô, cantando baixinho ...eu nasci pra sofrer, foi oiá pra você, meu zoinho, fechou, iiiiiii, quando o zóio eu abri... quis gritar, quis fugir... 

Aplausos. 

Até que entra no botequim o diretor jurídico do Partido dos Boêmios, Carlinhos Adeva, e vê o Contralouco lá no fundo, sozinho, naquela enrolação, diz: - Bah, meu, essa aí já vi em filme.

O Contra levanta os olhos, inocente, e responde com doçura na voz: 

- Já tou bom em nó, meu Carlinhos, faço o carioca, o de âncora, cadeirinha de bombeiro, catau, boca de lobo e mais um monte, só não sei o górdio, mas este ninguém sabe. Mas o quente é este, o de forca, olhe, sete voltas em torno da própria corda, é humanitário, indolor, na queda o nó gira para cima e adeus à nuca do bandido, é para a praça pública. Com este vou pegar os grandudos. Os políticos e juízes me darão muito prazer, mas quero mesmo é pegar os donos de banco.

Os vinte boêmios e boêmias riem com espalhafato. Carlinhos, o deus que o protege em processos e em esclarecimentos em delegacias, fica parado vendo as mãos do Bruno se agitarem nas cordas grossas, fazendo e desmanchando o nó para a praça, as cordas dançando em velocidade.

Riem todos, mas Carlinhos não ri. Num dia o Contralouco tem 90 anos, no outro parece ter 12, o problema é que tem dias em que ninguém sabe com que idade está, também não se sabe quando brinca ou fala sério.

Mas, por amá-lo, Carlinhos conhece os perigos que rondam os seus olhos castanhos.

João da Noite, o Conciliador, futuro prefeito de Porto Alegre, faz falta.

(...)


*


.
.

miércoles, 29 de enero de 2014

Financiamento eleitoral antidemocrático

.
Por Dalmo de Abreu Dallari, no Jornal do Brasil de 29/jan/2014.


O Brasil é um Estado Democrático de Direito, no qual todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. Isso é o que dispõe a Constituição em seu artigo 1°, no qual também se consagra a cidadania como um dos fundamentos da República. Mais adiante, no artigo 14,  dispõe-se que a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos. Basta a lembrança desses dispositivos constitucionais para se ter por mais do que evidente que a participação em atos de governo ou a escolha dos governantes são atributos jurídicos exclusivos da cidadania. Segundo disposição constitucional, é função precípua do Supremo Tribunal Federal a guarda da Constituição, e dele se espera que exerça o direito-dever de garantir esses fundamentos da ordem constitucional, impedindo que qualquer um que não tenha a cidadania brasileira participe, de qualquer forma, da prática daqueles atos ou interfira na vontade dos cidadãos fazendo com que eles exerçam desta ou daquela forma os seus direitos de cidadania. 

É oportuna a lembrança dessas disposições constitucionais neste momento em que o Supremo Tribunal Federal já iniciou o julgamento, que deverá prosseguir nos próximos dias, de uma Ação Direita de Inconstitucionalidade, a ADI 4.650, por meio da qual a Ordem dos Advogados do Brasil pede a declaração de inconstitucionalidade da permissão legal de financiamento das práticas eleitorais pela iniciativa privada, constante do artigo 14 da Lei 9.504, de 1997 (Lei Eleitoral), e também de disposições do artigo 31 da Lei 9.096, de 1995 (Lei Orgânica dos Partidos), que autorizam a realização de doações de pessoas jurídicas a partidos políticos. A prática brasileira já comprovou que tais financiamentos têm sido causa de tremendas distorções, dando absoluta superioridade aos participantes do processo eleitoral beneficiados por elevadas contribuições financeiras das empresas, contrariando a garantia constitucional de igualdade e anulando a soberania popular. 

Para comprovação dessas distorções inconstitucionais, basta a revelação de alguns dados objetivos altamente expressivos. Na sustentação oral feita no início do julgamento, o presidente da Ordem dos Advogados, Marcus Vinicius Furtado Coelho, ressaltou a «forte influência econômica na política brasileira, onde mais de R$1 bilhão foi doado nos últimos dez anos por dez empresas, sendo cinco grandes construtoras. Outra revelação muito expressiva foi feita pelo «Estadão Dados», segundo o qual na ultima campanha eleitoral para prefeitos e vereadores a Construtora Andrade Gutierrez, que foi a maior financiadora privada, doou mais de R$ 23 milhões, aparecendo em segundo lugar a empresa OAS, que doou R$ 21 milhões, sendo ambas da área de construção civil e contratantes de obras públicas. 

No julgamento da ADI 4.650 já deram os seus votos quatro ministros, todos favoráveis ao pedido feito pela Ordem dos Advogados do Brasil para que seja declarada a inconstitucionalidade dos preceitos arguidos. São merecedoras de destaque algumas observações dos ministros do Supremo Tribunal Federal que participam do julgamento. Entre estas encontra-se a afirmação de que permitir o financiamento de campanhas por pessoas jurídicas é conceder às empresas, que não têm direito a voto, uma forma alternativa e eficaz de participar do processo. Ressaltou-se também que o exercício dos direitos políticos é incompatível com as contribuições políticas de pessoas jurídicas, havendo grande distância entre uma empresa defender causas políticas, como direitos humanos, e sua participação no processo político, investindo valores vultosos em campanhas, o que é  contrário à essência do regime democrático, pois implica a degeneração da representação pela influência do poder econômico. Ponderou-se, ainda, que a contribuição das empresas  para campanhas e partidos pode exercer uma influência negativa e perniciosa sobre os pleitos,  comprometendo a normalidade e legitimidade do processo eleitoral e a independência dos representantes.  

Ao que tudo indica, o pedido de declaração de inconstitucionalidade feito pela Ordem dos Advogados deverá ter decisão favorável na Suprema Corte, pois bastam mais dois votos reconhecendo a inconstitucionalidade para que essa posição seja vencedora. Como é mais do que óbvio, entre os que têm interesse direto e imediato na aplicação dos dispositivos legais questionados na ADI 4.650 estão parlamentares que exercem mandato no Congresso Nacional e que, a par disso, são dirigentes partidários. E eles jamais deram ou darão apoio a iniciativas moralizadoras do sistema eleitoral que afetem o seu interesse no recebimento daqueles financiamentos.

Foram dadas a público, recentemente, declarações de parlamentares afirmando que decidir-se sobre a constitucionalidade dos preceitos legais questionados o Supremo Tribunal Federal estará invadindo a esfera exclusiva do Poder Legislativo. Essa alegação é juridicamente absurda, pois a Constituição estabelece, no artigo 102, que compete precipuamente ao Supremo Tribunal a guarda da Constituição, dispondo expressamente, no inciso I desse artigo, que compete ao Supremo Tribunal Federal «processar e julgar, originariamente : a) a ação direta de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo federal. Assim, do ponto de vista jurídico-constitucional, a declaração de inconstitucionalidade daqueles dispositivos será absolutamente perfeita, e aqueles dispositivos legais perderão imediatamente a eficácia jurídica e não poderão mais ser aplicados. Tal decisão deverá ter aplicação imediata, para aperfeiçoamento das práticas políticas, em benefício da cidadania brasileira.

.

viernes, 24 de enero de 2014

O Brasil de Davos e de Mariel

.
Por Mauro Santayana


A presidente Dilma chegou ontem a Davos, na Suíça, para reunir-se, entre outras personalidades, com o presidente do país, Didier Burkhalter, o do grupo Saab (sócio brasileiro no projeto dos caças Gripen NG - Hakan Buskhe), o da Fifa, Joseph Blatter, e CEOs de grandes multinacionais, como a Unilever e a Novartis.

De lá, ela irá para Havana, Cuba, onde se encontrará com líderes do continente, na reunião da Celac (Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe), e participará, junto ao presidente Raul Castro, de uma cerimônia emblemática: a inauguração da primeira etapa do terminal de contêineres e da Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, junto ao porto do mesmo nome, financiado com dinheiro brasileiro e construído por empresas nacionais de engenharia, em associação com firmas locais, no valor aproximado de um bilhão de dólares.

O objetivo do Brasil, no Fórum Econômico de Davos, é esclarecer aos investidores que, com relação à economia, por aqui o diabo não está tão feio quanto aparenta ou querem fazer que pareça. Para isso, os representantes brasileiros deverão apresentar dados como a queda da inadimplência, o aumento da arrecadação e a manutenção, no ano que passou, do Investimento Estrangeiro Direto em um patamar acima de 60 bilhões de dólares por ano, quase o mesmo,  portanto, que o de 2012.

Já, em Cuba, o papel do Brasil será dar novo exemplo de seu “soft power” regional, exercido também por meio de grandes projetos de infraestrutura, voltados para melhorar as condições de vida de nossos vizinhos e parceiros, e integrar, pelo desenvolvimento, a América Latina.

O que paraguaios, bolivianos, peruanos, equatorianos e mexicanos vão ver, paralelamente à reunião da Celac, quando tomarem conhecimento da dimensão do projeto de Mariel — onde devem se instalar empresas brasileiras a partir do ano que vem, para montar produtos destinados às Américas e ao Pacífico, aproveitando a vizinhança do Canal do Panamá — não é muito diferente do que o Brasil já faz em seus respectivos países.

Basta lembrar o recém-inaugurado linhão elétrico de 500 kV entre Itaipu e Assunção, que permitirá, finalmente, a industrialização do Paraguai;  o gasoduto Bolivia-Brasil, que gera, com a exportação de gás, boa parte do PIB boliviano; os corredores ferroviários e rodoviários bioceânicos, em fase de implantação, que nos levarão ao Peru, Bolívia e Chile, e por meio deles ao Oceano Pacífico; as obras do metrô de Quito, no Equador, que também tem participação brasileira; ou o maior projeto petroquímico em construção no México, que está sendo tocado, em associação com empresas locais, pela Braskem.

Para muita gente, o Brasil de Mariel, que tem consciência de sua dimensão geopolítica na América Latina, é incompatível com o Brasil de Davos, que, muita gente também acredita, deveria se sujeitar aos Estados Unidos e à Europa, em troca de capitais, acordos e investimentos.

Essa visão limitada, tacanha — defendida tanto por alguns setores da oposição quanto por gente do próprio governo e da base aliada — já foi ultrapassada pelos fatos, e deveria ser abandonada em benefício de um projeto de nação à altura de nosso destino e possibilidades.

Quanto mais poder tem um país, mais razões ele tem para ser pragmático, múltiplo, universal, no trato com as outras nações. Não podemos fechar as portas para ninguém, nem deixar de ter contato  ou de fazer negócios com quem quer que seja, desde que essa relação se faça em igualdade de condições.


O que não deve impedir, nem limitar, nosso direito de  eleger, estrategicamente, prioridades e alianças, específicas, no âmbito internacional, que nos permitam alcançar mais rapidamente nossas metas de fortalecimento do Brasil e  de melhora das condições de vida da população brasileira.
.

martes, 21 de enero de 2014

Salve, Porto Alegre

.
Em 20 de janeiro de 1973 desembarquei assustado em Porto Alegre, à noite, com 50 dinheiros no bolso. Um muquifo de pensão, soube no dia seguinte, num beliche com mais oito no quarto, não saía por menos de 300 dinheiros por mês, sem bóia. Tinha o endereço do Clóvis Vieira dos Santos, andando uma hora e meia achei o endereço. O amigo trabalhava num supermercado, o Real, e estava em temporada na praia, quando a empresa reforçava o time de funcionários no litoral. Pronto: a primeira boca-de-rua. Não ia queimar os 50.

Tantos anos passados, tanta água que rolou, enchentes, que hoje acho que até que me saí bem, como tantos companheiros com quem mais tarde dividi misérias. Vivemos momentos que se fosse de outro modo não teriam tido o valor e a importância que tiveram em nossas vidas. 

E que vida, que boemia! Da boca-de-rua para prostíbulo morar de favor, de prostíbulo para república, de república para apartamento de poucos, de apartamento para pensão boa, casamento em alugado, dali para casa de shows e bailes. Sim, morei nos fundos de uma casa de espetáculos enorme, onde entravam centenas de homens e mulheres, na época quase gastei... bem, os pés de tanto dançar. Depois as noites do Brasil...

E desdizemos, nosotros, los sobrevivientes, pois muitos ficaram pelo caminho, a fábula de que o ambiente corrompe e de que todo homem tem preço (aqui uma alegoria do grande escritor que muitos tomam às cegas, desvirtuando-a, julgando os outros por si mesmos, mirando somente um aspecto de algo muito mais profundo, pois para salvar a vida de uma filha, filho, amada ou amigo faço coisa pior, terei preço, e doído, mas não pegar dinheiro sujo para "enricar", apodrecendo), e hoje ao menos temos casa para morar, além de cada história... não é, César Tassi, meu eterno Cesário Martinez?

E a cada dia estamos aí, recomeçando, novos.


Salve, Porto Alegre!
.

lunes, 20 de enero de 2014

Nilton, o cara

;
Saiu assim no Facebook, ontem, dia 19 de janeiro:


O aniversariante de hoje, que me honra com a sua amizade, é Nilton Vargas Rodrigues. Virtuose, outro milagre do sul do mundo, dadas as condições que normalmente temos, assim tão longe dos eternos gigolôs e bons de propaganda do "centro" de corrupção do País (nem todos, obviamente, o destino os destinatários sabem).
Nilton ao piano. Na flauta seu amigo e igualmente sensacional João Pedro Germano Pagliosa.

Valsa nº 30. Autoria de Renato Machado, também do sul do mundo.

Feliz aniversário, Nilton! Sei que agora já beberam quase todas. Vamos para as antepenúltimas, que são muitas!

Abrazo!

Salito.

domingo, 19 de enero de 2014

Tamborim novo na Academia de Samba Praiana

.
Dia destes cometo um gatocídio. O filho de gata de rua, o Gatolino, também conhecido por Gatogaio pela sua mania de andar no meu ombro feito papagaio de pirata, enquanto eu conversava com a mãe, sumiu. Depois de colocar a mãe para dormir, a minha velhinha, senhora de 90 anos, varri o apartamento atrás do ordinário, cada pedacinho, cada fresta, tem muitos lugares pra se esconder, mas olhei tudo, até o que seria quarto de empregada e é depósito de trastes, mexi e veio tudo abaixo, e nada. Embaixo de camas, dentro de sofás que ele arranhou, em cima dos móveis, no espacinho atrás da máquina de lavar, dentro de baldes no tanque, na estante com livros demais, sempre acha um esconderijo por ali, e nada.

Atrás de gata é que não foi, pois quando o encontrei, muito novinho, todo arrebentado na rua, sangrando e com fome, alguém já tinha cometido o crime. Sei que a castração é necessária, mas faço diferente: antes deixo dar uma aproveitada na vida, namorar uma meia-dúzia de gatonas, para somente depois disso tirar-lhe a alegria. Só se virou gay, aí saiu atrás de algum não castrado, se é que isso ainda existe.

O apê onde hoje estou não é grandão, 3 quartos (um pequeno, seria para som, biblioteca), sala, cozinha, sacada, etc. Aí senti o drama e saí me batendo pra rua, vai que se mandou, doido pra ser atropelado. Depois de uma hora e meia, desde 23:45h, apareceu, de cima de um roupeiro alto do quarto onde a mãe dorme (como chegou lá, sem apoio ao lado, só Deus sabe), de dentro de uma sacola aberta, bem belo, com miau de me dá comida.

Estou doando um gato, até pago algum pra quem topar levar o indivíduo metido a pássaro. Se ninguém quiser, ele que se cuide, o carnaval se aproxima e ando com saudade de couro de verdade, esses artificiais não tem som igual.
.

viernes, 10 de enero de 2014

Revistas científicas ou túmulos do saber?

.

Por trás do suposto rigor das publicações de "excelência" pode estar o epistemicídio - a tendência da Academia a sepultar pensamentos dissidentes. Mas há alternativas.


Por Alex Martins Moraes (matéria pescada no Outras Palavras)


O que a entrega do prêmio Nobel de medicina 2013 e a divulgação dos resultados da avaliação trienal do sistema de pós-graduação no Brasil têm em comum? Além de ambos os eventos terem ocorrido na primeira quinzena de dezembro, eles também convergem, por razões distintas, em outro sentido: representam uma boa oportunidade para repensar e criticar as modalidades vigentes de produção do conhecimento em nosso país.

O biólogo molecular estadunidense Randy Wayne Schekman, que recebeu o prêmio Nobel junto com seus pares James Rothman e Thomas Südhof, aproveitou a visibilidade pública proporcionada pela premiação para instaurar uma forte polêmica com algumas das publicações científicas mais importantes no campo das ciências biológicas. Em coluna publicada no The Guardian um dia antes da cerimônia do Nobel (versão em espanhol publicada pelo El País), Randy Schekman acusou as revistasNature, Science e Cell de prestarem um verdadeiro desserviço à ciência, difundindo práticas propriamente especulativas para garantirem seus mercados editoriais. Entre estas práticas, Schekman menciona a redução artificial da quantidade de artigos aceitos para publicação, a adoção de critérios sensacionalistas na seleção das colaborações e um total descompromisso com a qualificação do debate científico. Schekman conclui sua intervenção com o seguinte chamado à comunidade científica: “Da mesma forma que Wall Street precisa terminar com o domínio da cultura dos bônus, que fomenta certos riscos que são racionais para os indivíduos, mas prejudiciais para o sistema financeiro, a ciência deve se libertar da tirania das revistas de luxo. A consequência dessa escolha será uma pesquisa que sirva melhor aos interesses da ciência e da sociedade”.

Aparentemente refratária a esse tipo de crítica – que, aliás, vem se tornando cada vez mais comum em todas as áreas do conhecimento–, a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) confere um peso decisivo às publicações em revistas de alto impacto no momento de avaliar o desempenho e a qualidade dos cursos de pós-graduação brasileiros. Para a antropologia, área da qual provenho, a avaliação da CAPES atribui um peso de 40% sobre a nota final à produção intelectual dos docentes de cada instituição. Na prática isto significa que, para atingir os conceitos máximos de avaliação (6 e 7), um determinado programa de pós-graduação deve esperar que todos os seus professores de mestrado e doutorado efetuem – para citar diretamente o roteiro de avaliação da CAPES – “a publicação de resultados de pesquisa, sob a forma de artigos em periódicos científicos, livros e capítulos de livros qualificados, com destacada proporção e média por docente nos estratos A1, A2 e B1 do Qualis Periódicos”. Levando em conta a quantidade de artigos publicados pelos docentes permanentes dos programas de pós-graduação em antropologia mais produtivos no triênio 2010-2012, o “ideal” seria, em média, cerca de duas publicações por ano por docente em revistas indexadas – isto sem mencionar as demais publicações, como livros, capítulos de livros, audiovisuais, relatórios técnicos, etc.

A avaliação da CAPES na área antropologia/arqueologia não leva em conta o fator de impacto das publicações, dado que a maioria das revistas de ciências humanas não dispõe dos meios para quantificá-lo. Neste caso, a classificação dos periódicos nos estratos A1 e A2 exige, entre outras coisas, que eles figurem em indexadores internacionais. Já o estrato B1 requer que figurem em pelo menos dois indexadores, sejam eles internacionais ou não. Outras áreas, como a medicina, adotam diretamente uma classificação elaborada com base na mediana do fator de impacto das revistas, obtidos junto ao Journal Citation Reports (JCR) e calculados anualmente pelo ISI Web of Knowledge. Isto implica o condicionamento da avaliação da produção científica às dinâmicas do mercado editorial internacional, com todas as consequências aventadas por Randy Schekman em seu artigo no The Guardian. Pior ainda, ao aplicar classificações desta ordem, a CAPES enfraquece o próprio parque editorial nacional e favorece uma forma questionável de internacionalizar a produção científica, colocando as revistas mantidas por universidades públicas e entidades de classe em detrimento de periódicos estrangeiros, financiados, em sua maioria, pela iniciativa privada e aferrados aos cânones da propriedade intelectual.

No caso das ciências sociais e humanas, o produtivismo amparado pelas avaliações da CAPES se materializa numa miríade de efeitos preocupantes, alguns deles inesperados. Não me refiro apenas à precarização do trabalho de professores e estudantes ou à perda de organicidade da produção intelectual decorrente da ênfase obsessiva na escrita de artigos e de apresentações para congressos. Talvez o aspecto mais assustador e menos criticado de uma avaliação da pós-graduação inspirada pela ideologia produtivista seja que ela ampara o epistemicídio. O epistemicídio – noção desenvolvida, entre outros, por Boaventura de Sousa Santos – consiste na eliminação ou inferiorização ativa de algumas formas de conhecimento em favor de outras, consideradas mais desejáveis no marco de uma dada estratégia de poder. Por exemplo, a anulação de certos saberes locais, sua folclorização ou deslegitimação pública foi e é uma modalidade de epistemicídio aplicada sobre diversas populações ao longo das experiências coloniais na América, Áfria e Ásia. O produtivismo está a serviço do epistemicídio porque bloqueia ou dificulta seriamente e emergência de outras formas de construção e enunciação do conhecimento em um momento de relativa democratização das universidades públicas brasileiras. Em poucas palavras, o produtivismo compromete a diversidade das formas de fazer ciência e a própria criatividade humana no exato momento em que se converte em critério valorativo hegemônico para a distribuição dos recursos necessários à produção de conhecimento. Ao erigir-se como critério chave de avaliação da relevância da produção intelectual, ele impõe sistemas de hierarquização que só fazem reiterar privilégios epistêmicos de longa data e comutá-los, logicamente, em privilégios político-institucionais. Só as modalidades mais conservadoras e pouco imaginativas de fazer ciência se adaptam, sem grandes problemas, aos atuais imperativos de quantificação. Já os estudos guiados pela co-investigação prolongada e participativa, os amplos panoramas exploratórios, as práticas colaborativas e situadas de escrita científica, etc. não conseguem sobreviver a esses imperativos.

As ciências sociais e humanas hegemônicas, legitimadas pelo produtivismo, marginalizam – ou produzem como inexistentes – outras práticas de produção intelectual; elas impõem seu universalismo abstrato ao pluralismo real dos discursos e das práxis intelectuais vigentes na universidade e fora dela. As instituições encarregadas de produzir conhecimento humanístico manejam orçamentos que, sem serem os mais robustos do sistema universitário brasileiro, não podem, ainda assim, considerar-se insignificantes. Trata-se de orçamentos conformados com dinheiro público acumulado através da cobrança de impostos majoritariamente regressivos a populações empobrecidas. Estes recursos têm sido aplicados, frequentemente, no estímulo de uma dinâmica universitária tendente a afastar estudantes e professores da problematização dos dilemas reais suscitados pela vida democrática em nosso país. Na prática, os chamados “problemas de investigação” acabam sendo inventados nos corredores da academia – ou importados dos debates prestigiosos e “de ponta” do norte global – para serem “resolvidos” no “lado de fora empírico”, com as “pessoas comuns” e depois convertidos em digressões que atendem apenas à agenda editorial vigente no mercado das publicações acadêmicas. Como se não bastasse, o dinheiro público destinado à formação de jovens pesquisadores no exterior é por vezes “investido” na perpetuação da subalternidade epistêmica das academias do sul global mediante editais que reiteram regimes de legitimidade científica diretamente coloniais.

Com a hegemonia da quantificação na elaboração dos sistemas de avaliação científica, cada vez menos a universidade poderá ser concebida como espaço de estímulo ao florescimento de “ciências sociais de outra forma”, baseadas no sentido de responsabilidade e colaboração em pesquisa, no cultivo de vínculos duradouros e qualificados com comunidades e sujeitos e na articulação entre problemáticas investigativas e dilemas socialmente compartilhados. Nossos prestigiosos programas de pós-graduação mais se assemelham organismos autistas, imersos em transe profundo, alheios a qualquer preocupação com a importância social do conhecimento científico. O que parece dinamizar a produção de conhecimento é a própria vontade de produzir racionalizada e eficientemente. Grosso modo: produção pela produção. Eis o círculo virtuoso (ou seria círculo vicioso?) do saber.

O que fazer num cenário em que a quase totalidade da produção de conhecimento promovida pelas ciências sociais e humanas encontra-se submetida a um estandarte geral de avaliação caracterizado pela (in)determinação quantitativa de toda a qualidade? Michael Eisen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, que reagiu positivamente às criticas levantadas por Randy Schekman nas vésperas da entrega do Nobel, sugere a criação de sistemas alternativos de legitimação das práticas intelectuais. Para ele, todos os cientistas deveriam “atacar o uso das publicações para avaliar os pesquisadores, fazendo-o sempre que possível quando contratarem cientistas para o seu próprio laboratório ou departamento, quando revisarem as solicitações de financiamento ou julgarem os candidatos para uma vaga” (ver matéria no El País:). Mais próximos de nós, os estudantes de mestrado em Antropologia Social da UFRGS, que paralisaram suas atividades acadêmicas na primavera de 2011 para questionar o produtivismo e as genealogias institucionais estabelecidas também oferecem uma alternativa: “paremos para pensar”. Esta, que foi a consigna da sua greve, nos alenta com a perspectiva de que a desestabilização da engrenagem produtivista é possível através da conformação de uma ética e de uma prática intelectual alternativa. Ao comentar a greve dos estudantes de Porto Alegre, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos concluiu o seguinte: “O vosso movimento (…) é parte dessa sociologia das emergências, porque é gente que está em busca de uma renovação epistemológica, política e o faz entre si, em pequenos grupos. Certamente os meios de comunicação não noticiaram, certamente não foi útil para o currículo deles ou para o programa de estudos deles, mas estão a emergir outras realidades” (entrevista completa na Tinta Crítica).
Talvez estas práticas “dissidentes” sejam um caminho para explorar novas lealdades e alianças políticas que conduzam a vias alternativas de legitimação da produção intelectual. O desafio, portanto, é erigir espaços profissionais dignos e reconhecidos mais além das aparelhagens institucionais produtivistas, de forma a superar as tentativas de epistemicídio e abrir passagem à proliferação de práticas intelectuais indisciplinadas, ecumênicas e participativas. Assumindo tal postura, corremos o risco de perdermos, num primeiro momento, o aval dos números, dos mercados editoriais e da tecnocracia, mas ganhamos um valioso terreno para construir objetividade e provar a validade dos nossos postulados: a práxis humana. Neste terreno pode vicejar uma ciência sucessora, amparada em novas redes de diálogo em política; uma ciência aberta a programas de investigação nos quais a verdade reside, parafraseando novamente a Boaventura de Sousa Santos, naquele conhecimento “que nos guia conscientemente e com êxito na passagem de um estado de realidade para outro estado de realidade”.

A tarefa parece hercúlea e certamente nem todos os pesquisadores estarão interessados em aceitá-la. Uma coisa, no entanto, é certa: ao desenvolver investigações, emitir laudos de demarcação de terras indígenas, frequentar eventos acadêmicos, escrever textos, produzir imagens, enunciar discursos políticos, etc. os cientistas sociais incorporam e colocam em ato suas disciplinas. E é por esta mesma via que também estão em condições de colocá-las em questão, disputando seus efeitos e funções. Nós podemos, portanto, atuar no registro da reprodução, abastecendo o aparelho disciplinar herdado, ou podemos bloquear a atualização de certas dinâmicas produtivas, exercendo uma reflexão crítica e pragmática a respeito das ferramentas político-institucionais disponíveis à ação transformadora.

É antropólogo, realiza estudos de doutorado no Instituto de Altos
Estudios Sociales (Buenos Aires) e faz parte da Rede de Antropologia Crítica.
.

martes, 7 de enero de 2014

Bandoneón, Piazzolla e Gardel

.
Recebi de um amigo a narrativa a seguir. O acidente mencionado ao final ocorreu em 24 de junho de 1935. 
A ilustração é de Patricia Vidour.

Historia que merece ser conocida

Heinrich Band, alemán nacido en 1821, creó un instrumento portátil inspirado en la concertina, con la intención de proveer de música a las pequeñas iglesias que no podían comprar ni mantener órganos o siquiera armonios.

Jamás imaginó que su invento, al que con obviedad bautizó "Bandoneón", sería con el tiempo el símbolo máximo del tango. El bandoneón llegó a América del Sud a principios del siglo XX, portado por humildes expatriados europeos, y fue rápidamente adoptado por los prostibularios tangueros rioplatenses.

Un niño nacido en 1921 en Mar del Plata se alucinó con ese raro instrumento en Nueva York, donde su padre, Nonino, y su familia se habían radicado.

En el suburbio neoyorquino de Brooklyn , cerca de Little Italy y de Hoboken (...y de sus correspondientes gangsters), Astor Pantaleón Piazzolla convivía con todos los credos y razas inmigrantes. Cuando Nonino, ante la manifiesta capacidad de su hijo de diez años, le compró un bandoneón casi nuevo, estaba dando comienzo -sin saberlo- a una renovación tanguística fundamental.

Cerca de su casa, desde una pequeña sinagoga, requerían al pibe Piazzolla para que acompañara al jazán, el celebrante, cuando había un casamiento. Al finalizar la ceremonia, Astor tocaba solito con su bandoneón los freilaj klezmer tradicionales que había aprendido. El ritmo vivaz y la síncopa de esas 'tijeras' fueron quedando indelebles en su memoria. Esa misma memoria gracias a la cual, además de su español nativo, hablaba correctamente inglés, italiano y, por supuesto, un poco del ídish de sus vecinos y del francés créole de los negros jazzeros venidos de New Orleans.

En 1934 el padre de Astor se enteró de que estaba en New York su admirado Carlos Gardel. Talló en madera una pequeña estatuilla y se la envió con su hijo. El cantante, agradecido, ofreció al gurrumín Piazzolla actuar en la película que estaba filmando, "El día que me quieras": le dieron un pequeño papel de canillita.

Gardel, impresionado por la desenvoltura del jovencito, unida a su habilidad musical y su dominio de varios idiomas, le ofreció un contrato para que lo acompañara en la continuación de su gira por América.    

Don Nonino se opuso y - cosas del destino insondable - salvó así a su hijo del desastre aéreo de donde perdió la vida todo el grupo de artistas.
.


domingo, 5 de enero de 2014

Até logo, Astor Piazzolla

.
Há coisas que a memória apaga, na verdade nunca apaga, ela evita más lembranças. Mas de repente aflora, e hoje me veio uma de doer, provocada por uma postagem de uma amiga de Bagé (RS, Brasil) no Facebook.

Aconteceu em 1992, um ano terrível para mim. Perdi Gilberto “Pato” Martins, meu mano querido de infância e de toda a vida, de Palmeira das Missões-Porto Alegre, tive eu, com as minhas mãos, que enfiá-lo numa gaveta do Cemitério João 23, até mais ver. Também perdi Regina Clara Simões Lopes, de Pelotas-Rio de Janeiro, amiga querida, culta e carinhosa, que me incentivou com meus contos meio malucos, ao trocarmos tantas cartas, dezenas, sinceras. Ambos jovens demais para morrer. 

Depois me separei da mulher, tendo filhas pequenas, que até hoje me julgam mais ou menos mal por aquilo, enfim, uma tormenta que não acabava mais, até o fim do ano, quando publiquei num jornal de Pelotas (RS), cidade que eu mal conhecia e me tratou melhor que a cidade onde eu tinha vivido 20 anos, no dia 31 de dezembro, por obra de amigos queridos de Regina Clara, o desencanto com o ano que terminava, falando muito mal de alguém, ofendendo-o, já que a Deus, se existe, não devemos insultar, onde só na última linha se tomava conhecimento de quem se tratava, dizia: “Até nunca mais, 1992”. A dona memória tem lá suas razões para evitar lembrar aquele ano. 

Numa noite de inverno muito fria desse malfadado ano, chuvisco gelado, de sobretudo preto e chapéu entrei muito puto num bar lotado na esquina da Rua da Olaria (que rebatizaram de Lima e Silva) com Lopo Gonçalves, lá dentro uma meninada tocando e outra meninada bebendo e ouvindo. Não, não era na Olaria, era José do Patrocínio com Lopo. De tão puto carregava um peso longo por dentro do paletó, em cima do coração, volume disfarçado pelo sobretudo, um bruto 38 com bala no cão. Os problemas eram muitos, também havia bandidos querendo me queimar, bandidos ricos, os criminosos que mandam em tudo, e esses não são homens que te pegam de frente. A sinceridade nos faz passar por cada uma...

Mas naquele dia eu estava abatido por outra razão. Precisava tomar uns uísques, ouvindo música de qualidade, não os lixos de rádios e tevês.

Os músicos eram estudantes do Conservatório Palestrina. Era - não existe mais - um bar pequeno. Não tinha lugar, mas os proprietários me conheciam e me ajeitaram numa cadeirinha ao lado do grupo musical, a dose de uísque posta no chão, num cantinho do minúsculo palco. Dali a pouco, entre uma música e outra, o mocinho do violoncelo viu meus olhos cheios de lágrimas. O que foi, tchê, essa tristeza?

Então tive o desprazer de dar-lhes a notícia: Piazzolla tinha morrido.

Após o impacto inicial, o barzinho inteiro rolou em lágrimas, a começar pelos músicos, claro. Dos donos à moça esperta do outro lado não teve quem não chorasse, uns por contaminação, em mim rolavam, sem um gemido, estava ainda muito puto, mas melhor, com a moçada solidária junto. O menino do violino, nervoso, começou a remexer partituras, procurando obras que treinavam, para trazer à vida o artista morto. Amanhecemos com a piazada tocando Adiós Nonino.


Mal sabia eu que meus problemas estavam recém começando.

No vídeo com uma de suas composições mais famosas, antes citada.

.