miércoles, 31 de diciembre de 2014

O maior elogio

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Hoje fiz amizade com um monte de gente boa no facebook. Agora, pelas tantas, me referindo à Maria Lúcia, me escapou a expressão: "É das nossas!". Como as demais amigas e amigos.

Isso me fez lembrar de algo, uma história que gosto de contar, quando me sinto bem na foto, já contei muitas vezes, pois tem a ver com o maior elogio que recebi em toda a minha vida.

A Dora e mais um caminhão de jornalistas, todas mulheres de diversos órgãos de difusão (JB, Globo News, Band, etc.) e eu estávamos no bar Carpe Diem, em Brasília. Eu tinha vôo para Porto Alegre na noite do dia seguinte. 

Desde o meio-dia daquele sábado, eu de chapéu bogart a meio-nariz e brabo por alguma razão que não vem ao caso, tanto que os machos que entravam no bar eu mandava sentar no outro lado, de costas pra mim: não quero ver as suas caras. Eu armado era um perigo, o 38 longo me pesava no casaco, ainda bem que eles sentiram o drama.

Bom, fomos indo, declamamos Mário Quintana, teimei com as trinta onças em mesas emendadas que o Nei Lisboa dava de dez a zero naquele viado (o viado era o Caetano Veloso), caiu a tarde, anoiteceu, se não eram do seu Quintana ficaram sendo os límpidos versos: "Ó senhora minha, eu vos peço, permitais, que eu bote aquele com que mijo, naquela com que vós mijais", e dê-lhe chope e salgadinhos, eu não comi nada, tava de cantoria e de olho nas pernas da Carmen, que pernas!, e nos peitos e bocas de todas, lindas, amorosas, pensando é hoje que durmo com trinta, e à meia-noite o bar se entregou, quebramos o estoque.

Tava todo mundo bêbedo mesmo, vamos embora. Aí elas se reuniram e ficaram de fofoquinha no outro lado das mesas, eu aqui sem saber do que falavam, dava uma conferida na conta quilométrica com um olho (não me deixaram pagar nem um pila), o outro preso num abobado que lá de longe inventou de ficar de frente, a ordem era pra ficar de costas ou não olhar pra cá, pra mim e as trinta mulheres.

Terminaram a confabulação e a Carmen K., aquela escultura de linda, pediu a palavra para falar em nome de todas, putz, discurso a esta hora, pensei. Que nada, foi breve:

- Gaúcho, depois de horas de papo, poesia, contos, músicas, decidimos que tu tem casa e comida quando voltares a Brasília, nada de ir para hotel, pois...

TU É DAS NOSSAS! E explodiram em gritos e aplausos, ui, gritinhos femininos de prazer.

Não morri de emoção porque Deus é grande.

Jamais receberei elogio assim espontâneo, carinhoso: "Tu é das nossas!". Fiquei pensando que precisaria de uns noventa dias, três na casa de cada uma, voltaria para Porto Alegre tísico. Que voltaria nada, ficaria por lá mesmo, arranjaria uma casa grande onde todos poderíamos morar juntos.


Fiquei sonhando acordado, foi o que salvou a vida do abobado, que aplaudiu sério lá de longe, evitando olhar direto pra mim.

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martes, 30 de diciembre de 2014

Vou para Cuba

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Antes pedi com muita educação no facebook, no DÁ UM TEMPO, CAMARADA, para o pessoal esquecer eleições perdidas, hoje é Natal, aniversário de Jesus Cristo, como convencionamos. Mas não adianta, tem gente que só dando de punhal. Antes de excluir, sigo educado e conto meus planinhos imediatos, coisas simples, com grana mais ou menos segurada, pois ainda não peguei na Mega (pegarei em 31 de dezembro, ou não, os planos não mudarão).

Pretendo em janeiro subir até o Rio de Janeiro, morro de saudades do mar do Leme, como do boteco do Antônio ali no calçadão, vou para a água furar onda e na volta tem sorrisos e caipirinha pronta. Numa quarta-feira entrarei, roupa leve e chapéu, no bar Carioquês, ouvir e aplaudir saxofone, violino e violão, com Renato AroeiraCláudia Barcellos e Kiko Chavez

A baiana Rosália não mora mais na Tonelero, mas passarei em frente de onde morava e atirarei um beijo in memorian, ela faleceu em 2003 num acidente. Meu Deus, a Rosália quase me matou de tão bom, um vulcão que não sossegava no apagar da vela, e assinava suas cartas e bilhetes de amor com "lia", antes um desenho de mão própria ou uma foto de uma rosa, rosa mesmo, rosada.

Dar um abraço no Nani, a quem devo capa e ilustrações do meu último livro. Um abraço também em Marlene Robin, amiga da minha terra, um show de pessoa, doce, finíssima de cultura em qualquer área do conhecimento humano.

Passarei no hotel Bandeirantes (tomara ainda exista, acho que sim), da Barata Ribeiro quase com Santa Clara, e abraçarei a turma, companheiros de cervejadas e risos. Morei lá meio ano por ano por muitos anos. 

Sairei nas bandas de fim de tarde, latinha de cerveja na mão, no samba. Vou me grudar com alguma carioca, mineira ou capixaba, ou marciana, agora estou mais velho, quero para casar, não é apenas o corpo mas também diálogo e companhia.

Na maior parte do tempo não desgrudarei da mana Lourdinha, que mora no Leme (aí Maria Landi). Assistirei e aplaudirei Gabriel da Muda e Moacyr Luz E Samba Do Trabalhador, se der no jeito enxugarei algumas cervejas com eles.

Levarei um lero com a maluca da Sindia Santos, temos o que conversar, ela é amigona de primeira qualidade.

Tirarei fotinho com Camila Costa depois do seu show, um recuerdo. O mesmo outro dia com o pessoal do Sururu na Roda, com Nilze e Silvio. Assistirei ao Michael Arce e sua gaita de boca. O Michael Arce é jovem, mas é o amigo artista mais antigo que tenho, vem do extinto Orkut, por onde tivemos boas conversas, ele é sensacional.

Tanto por fazer no Rio, até lá lembrarei de pessoas que agora me fogem.

Também vou aproveitar para resolver uns quinze probleminhas de paternidade que tenho em Botafogo, Flamengo e na cidade de Itaguaí, ali depois de Santa Cruz, onde tenho só um. Assumo.

Depois de umas três semanas assim, vou para Cuba. Eu livre, libre! Se tiver me acertado com a marciana, carioca ou sei lá, ela irá junto.

Vou sim, tomar trago no Centro histórico, ouvir aquelas músicas maravilhosas e, se der no jeito, me empernar com uma cubana que dá duas de mim, vem, negra louca, assim.

No Galeão sei que encontrarei filas imensas de pessoas que vão curtir o Pateta, ou o Miquei (nem sei escrever isto) em Miami.

Passarei por eles sem olhar, respeitando as suas escolhas, com o pensamento firme na minha felicidade. 

Ah, Havana, enfim.



lunes, 29 de diciembre de 2014

Dormindo com a Teca e com a Guacyra

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Ontem, antes de sair pra rua, pedi pras "de maior" de idade não casarem na festa até eu chegar. Quem me dera uminha tivesse me ouvido.

Nequinhas, quando cheguei no xópin Olaria só tinha o garçom afeminado me olhando com zoinho número oito. Mandei-o tomar, bem, mandei-o comprar pitanga na venda da sua avó e aguentei firme, o papo em comemoração ao niver da Mareu estava bom, com Juliana MesomoAlex Moraes, Veruschka (mãe da aniversariante) e a própria Maria Eugênia De Abreu Ferreira

Mesa de cinco, champanhe rolando, aquele monte de mulher nas mesas em torno, todas nas mãos dos outros, de repente as esqueci, assunto não falta pra gente em ambiente assim tão bom entre amigos de longa data, Ju, Alex e Mareu ali por 25/26 anos, Verinha e eu com um pouco mais, digamos uns 33.

A meu pedido Alex falou sobre o que pretende em seu trabalho de conclusão de doutorado em Buenos Ayres, será um tema fixado no Uruguay, mas que abala todo o hemisfério. Ele falou dez ou quinze minutos - o gauchinho é bem falante, e poeta (um dos mais acessados deste blog) -, por mim ficaria o ouvindo até o amanhecer, dali saem riquezas mesmo que seja muito moço, que, vivo deste e mundos mis, sabe que anda se procurando, homem de valor se conhece desde criança. As gurias riam muito, o que faz o champanhe... pero também riquíssimas de tudo, alma primeiro. 

Ali pelas duas da matina trocamos de bar, acabamos num que só tinha negão armário, e umas armárias. Deixa assim. Noite feliz pelos meus, tanta conversa boa, confidências.

Às quatro voltei pra casa abatido, dormir sozinho é fogo, e dormi com a voz da Terezinha João, a Teca, ai me abrace, me aperte, rubia. Em sonhos agitados a ouvindo cantar. Sonhos que voltavam a meados de 1970.

Eu era apaixonado pela Teca, desde aqui do frio deste fim de mundo, saindo cedo de sapato furado sob chuva fina pela rua José do Patrocínio, congelado e com fome, meu Deus, que frio, e aquele vento cortante, vestindo uma blusa de mulher, da única alma que se dispôs a me emprestar um pano sem que eu pedisse, lãzinha que não segurava nada. Caminhando apressado para chegar cedo na fila de arranjar emprego imaginava a "russa", em vez de pensar holandesa pensava russa, culpa de livros, só rindo, né, ela bem bela lá na praia no calor de Recife, biquini, sorriso aberto, felicidade, lá na Boa Viagem sem tubarão que conheci muito, muito tempo depois.

E dormi com um clássico do cancioneiro popular revoando na cabeça. GUACIRA, de 1933, autoria dos espetaculares Joracy Camargo e Hekel Tavares. Desde os escritos originais é Guacira, embora muitos denominem Guacyra, não importa.

Joracy, letrista, cronista e dramaturgo (autor da peça teatral de domínio planetário "Deus Lhe Pague", entre tantas). Hekel, pianista, compositor, arranjador e regente.

Teca acompanhada do mestre Heraldo do Monte, no célebre LP que gravaram.

Dormi com elas, Teca e Guacyra, num sono agitado, despertei logo, aos gritos, suando, pois na verdade em sonhos eu estava...

Pensando em ti.

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domingo, 28 de diciembre de 2014

A Ovelha

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Nobres amigos deste gaúcho blog

Sei que no Ano Novo a tradição é esturricar um porcolino, de preferência um dos americanos: Cícero, Heitor ou Prático, já que pegar um americano porcão fardado é mais complicado, são horríveis, têm gosto ruim e... deixa pra lá.

Pero estou considerando mesmo é pendurar uma oveia na arve do fundo de casa, ela lá, linda, de cabeça pra baixo, a gente degola e apara o sangue na gamela, cosa más buena. O ritual é sagrado, com respeito ao animal, mas não espero que alguém de fora do pampa entenda.

Como falei outro dia quando a gauchada se foi para Marte, a oveinha querida ainda se mexendo e a gente risca os garrão com a faca e vai descendo, pra tirar o couro, depois estaqueia que dá um senhor pelego pro inverno.

Limpa o bicho, a cachorrada terá comida fresca, e o bom vai pro espeto sem sal grosso, a salgadura virá com um galho da mesma arve ensopado em salmoura, até guanxuma serve, com batidinhas no bichinho já dourando.

Aí minhas mulheres, exceto Mariana de Rosário, a índia da Serra do Caverá que me ajuda em tudo, esta já se escalando pra assar a cabeça da oveia enterrada, pera, isso tem que explicar ainda que por alto: corta a cabecinha da oveia, já peladinha, mas deixa com zóio e tudo, dá uma temperada ao gosto e enrola em folha de bananeira, hoje tem papel ourinho que não é igual mas serve, aí mete no buraco onde antes já tacou fogo pra esquentar, e cobre de terra. Aí acende um fogo de lenha em cima, pá, cabeça delícia ao cabo de algumas horas. 

Bueno, as outras muiés viram Mariana e eu de combinação, espiaram o que estou escrevendo e aí fedeu: me chamaram de sanguinário, bandido e outras coisas impublicáveis, menos de corno, que não são locas.

Tudo bem, tudo bem! Chega! Pronto, esqueço a oveia!

Fico com o Cícero mesmo, à moda portuguesa, esturricado com frutas, firmei o cabo da minha adaga missioneira e olhei pro porquitinho que andava bem feliz pelo pátio.
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viernes, 19 de diciembre de 2014

Gatolino é um mão de gato

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Tem algo errado aqui em casa. Saí às cinco da manhã buscar as mulheres no trabalho. Viemos em seis táxis, elas tomaram seu suco de couve com laranja, e casca de maçã, gengibre, uma guarapa. Tomei um pouco daquela droga. Depois comeram os sanduíches naturais que também deixei na mão. Mato-me trabalhando por elas, e ainda tenho que ficar fiscalizando aquela negra gostosa, gostosa nada, um terror de boa, que vem tirar o pó e lavar o chão do apartamento, de quatro com aquela bunda chacoalhando, roupinha diminuta e me olhando com ar de..., deixa pra lá. Homem sofre.

Dormiram, as tadinhas, cansadas de uma noite trabalhosa na boate. Botei um bolero no som e contei a grana que deixaram em cima da mesa da sala. Doze mil. Cada uma, em média, ganhou quinhentos paus. Uma miséria, mas pra fim de ano tá bom. Separo os mil e duzentos delas, os 10% de suas pequenas despesas, camisinha, batom, calcinha, e embolso o restinho que é meu, nosso, mas sou o responsável, depois vou depositar na poupança da CEF, em nossos nomes, 25 pessoas, mas que só eu posso tirar a grana, tá lá escrito na ficha, ninguém toca, só eu, sou de confiança. Na verdade ta só no meu nome, mas para não deixá-las nervosas outro dia eu trouxe umas fichas de papelaria e mandei que assinassem, dizendo que era da Caixa.

Tudo certinho até aqui.

Aí procuro a garrafa de uísque que ganhei de presente de uma amigona, de aniversário (meu Deus, preciso retribuir, me esqueço das pessoas que lembram de mim), um Ballantine's de cinema, uns 120 anos de idade, eu com água na boca. Nada. Achei a caixa linda que lhe servia de embalagem embaixo do sofá na salinha dos computadores.
Meia hora me batendo atrás e achei o casco atirado no piso da sacada, atrás da minha plantinha "Comigo Ninguém Pode" que carrego há anos, deixo tudo, roupas, cacos, mas ela nunca, vai junto. O casco vazio, claro.

Como as mulheres não bebem uísque concluo que foi o Gatolino que bebeu. Esse gatinho me paga: a Academia de Samba Praiana terá tamborim novo, natural, no carnaval. Ano passado ele se salvou por um triz, as mulheres entraram numa de que eu que fiz algo, e não ele, mas desta vez será diferente.

Peguei minha adaga missioneira e saí atrás dele, rosnando hoje te pego seu fiadaputa, vasculhei o apartamento, e quem acha? Sumiu, tu chama e nada, culpado é assim.

Que vida. Homem sofre. Vou tomar uma vodka com guaraná, é o que tem.

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jueves, 18 de diciembre de 2014

O atrevimento

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Eu cuido da minha vida. Nunca menti, depois que errei com uma moça, eu era muito novinho, não sabia o que fazer e estava em boca de rua. Passaram-se muitos anos, até que.

Todos ao meu redor, em 1999, falando que a mulher não era boa coisa. Sussurravam pelas costas dela, só porque a gente tinha se separado, que era vagaba, que dois meses depois arranjou um namorado zécu sem mundo que nem um pedaço de mim poderia ter.

Um dia estourei, reuni todo mundo, a pretexto de comemorar o meu aniversário, a casa cheia de amigos e amigas, e esclareci: "Quem morou em puteiro fui eu, quem é boêmio sou eu, o tarado sou eu, quem não tem hora pra chegar em casa sou eu, quem a orientou a arranjar um namorado singelo fui eu. De todos nós aqui, quem pegou em arma quando preciso fui eu. De todos aqui, eu optei por não ficar rico, pois só ladrão fica rico, odeio ladrões - alguns de vocês aqui, gerentalhas de bancos, auditores, comerciantes, industriais, sonegadores, se enquadram entre os que eu gostaria de matar de tanto nojo que sinto. 

Ela não queria a separação, chorou durante dias e noites a fio, mas não dava certo, cabeça de criação fechada demais, trauma, sei lá, e eu não queria ser prisioneiro da limitação alheia.

EU SOU O CULPADO, se é que há algum culpado que essas cabecinhas de barata procuram. Não há culpados, mas se tiver algum SOU EU! Prejudiquei alguém? Desrespeitei alguém, assediei as puritanas senhoras de alguém? Machuquei alguém? Não. Vão me prender por isso, pelo que não fiz?

Pronto. Agora se sumam da minha frente."

E acabou ali a festa de aniversário. Troquei tudo, adeus amigos de orelhas longas e visão curta. Burros não pelas suas escolhas, mas pelo atrevimento de julgar seus semelhantes, de vir com opinião formada sobre o que não conhecem.

Segui a minha vida, agora de coração leve, aquilo estava me pesando. Na mesma noite voltei pra casa com três mulheres, ai que felicidade, dormimos todos juntos, sem frescura, todos aos beijos. Não deve ter faltado um bolsonaro¹ para chamá-las, às três, de mulheres "fáceis", papo de robô que não conhece mulher.

Não existe mulher "fácil", camarada, quando se tem boa intenção, isso independe de escolaridade, vida em comum é outro mundo, como não existe homem "fácil". Somos seres humanos apenas, que se acertam ou não se acertam de amor e opções de vida. E não é a grito, muito menos as chamando de vagabundas, é que haverá entendimento.

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PS¹: bolsonaro - Referência a um deputado federal brasileiro famoso por ser homofóbico, racista, destemperado, defensor da cruel ditadura do Cone Sul.

jueves, 4 de diciembre de 2014

A dama de Copas que o Chitão me deu

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Seis da manhã e eu finalmente saí pifado no ligeirinho. Noite de terror, só perdi, o nego Chitão me olhava desconsolado do outro lado da mesa, saiu mal, e oito caras berrando e subindo a parada, sete deles de cumpa, imaginando que a gente não soubesse. Joguei tudo o que tinha, e olhei sério pro nego Chita, como quem diz azar, calça de veludo ou bunda de fora. Ele também foi com tudo, sabendo que estava perdido, mas para me ajudar.

Eu também de certa forma mancomunado com o Chitão, visto que eles mal disfarçavam o seu ajuste, levando a gente para bobo, mas só olhares para saber quem saiu bem ou mal, se descartamos por cima ou por baixo. Se ele ergue os olhos descarto um rei e ele bate. Mas nessa ele tinha saído com oito cartas loucas.

Ligeirinho é o pôquer brasileiro, para quem não sabe: oito cartas, vence com dois jogos feitos e um projeto. Os jogos podem ser trinca ou sequência, mas as duas restantes precisam ser sequência, ainda que com furo. Tipo um oito e um dez de espadas. Sem furo vale igual, um três e um quatro de paus mata.

Levantei as cartas e vi trinca de ases e sequência de copas da sete ao nove.

As duas fatais eram um par de valetes, copas e paus. Qualquer uma que caísse perto destas, do mesmo naipe, eu levaria aquele caminhão de dinheiro.

O quê, nega Zilda?
Me chamam de lá, depois continuo, vou trabalhar.
Pronto, levei meia hora mas acalmei a onça.

Continuando. Guri vivido, sabia que se eu saí pifado eles também, embaralharam mal contando com estatística, eu saindo bem contra oito (o Chita era meu, chegamos juntos) eles teriam mais chances de abrir antes. Levantei os olhos para o Chitão, mas não muito, torcendo para que ele entendesse que eu queria um nove (um de copas já queimado na minha mão), dez, dama ou rei de copas ou paus, ele deveria vir por cima ao descartar, mas nunca espadas e ouro. O seis de copas também serviria, pois me livraria o nove. Ele foi o único que saiu mal, e o provável é que viesse das mãos dele a morte ou a sorte, todos sabiam, pois soltou um palavrão ao abrir suas cartas.

Passei a mão no meu coração. Esperava paus, Chita me conhecia bem, coração é copas e pau-ferro.

Chitão pensou, pensou, uma eternidade, isso recém na segunda volta de compra e descarte... e atirou na mesa uma dama de copas, que casou com meu intrépido valete. O cara à minha direita gritou saí, ganhei!, quando então joguei minhas cartas na mesa: Saí eu, pela ordem, seu, pela direita. E levei aquele montão de cédulas.

Dividimos a grana lá fora, já longe. Iríamos festejar, ainda que sete da matina, mas antes cada um foi para a sua casa deixar o dinheiro, voltamos com pouco, e subimos para o cabaré da dona Bastiana. Eu de bobo, não comia ninguém, muito piá tímido, mas ouviria música olhando para as mulheres da vida, lindas, felizes com a gente pagando cerveja, elas com roupinhas leves que batiam milímetros acima dos bicos dos peitos.


-o-

jueves, 27 de noviembre de 2014

Fogão, fusca e fogos na alma

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Puta que me pariu, quase três da manhã, as mulheres chegarão dentro de duas horas e pouco. Esqueci de fazer comida. Haja comida para aquele bando. Vou lá.

Enfiei seis quilos de maminha e sete de linguiça calabresa no forninho do fogão. Cortei vinte tomates maduros, com cinco cebolas pra dar um gostinho. Faço para sobrar, afinal estamos com o diabo no bolso, ganhamos bem. O que gostam de linguiça no fogão... essas mulheres são um fogaréu.

Bia de Ipanema é quem conta dando risada, agora ri, o caso ficou no passado, antes não ria, da inveja da sua antiga vizinhança lá em Ipanema, quando ela comprou um fusca. Perseguiram a pobrezinha, falavam mal, chamavam de piranha pelas costas, de inveja do fusca novinho, até o dia em que ela me conheceu. Naquela vez dei uma dentro, quando disse: "Pare de reclamar, vai lá e diga tudo o que tiver vontade na cara deles, se limpe". Ela foi lá e abriu a boca, todos eles ouvindo naquele anoitecer, com voz entrecortada de soluços gritou tão alto que se ouvia no Cristal: "Pra comprar o fuca eu chupei linguiça que não era calabresa, que se juntar dá pra ir daqui ao Maranhão, eu não tinha pra onde correr, e vocês, que tanto ajudei, ficam me secando! Vou embora daqui com o Salito!".

E veio desasada chorando, eu lá na frente com as malas, larguei tudo, corri e a amparei: "Bem que fez, Beatriz, agora vamos embora daqui, daqui pra frente a gente vai ser feliz".

É isso, se hoje elas reclamarem de algo deixa comigo, vão ver o que é bom, lhes relembrarei algumas coisinhas, eu, hein.

Que nada, não vou relembrar coisas tristes, vamos é rir bastante. Arroz com laranja farei quando chegarem.

Eu já meio bebidinho, isso elas vão observar. Já sei, vou aplicar o mesmo de ontem, pra explicar que bebi por uma causa justa. Como dizer a elas que eu ando nervoso com uns caras, e que quando fico nervoso é um desastre, fico perigoso? Periga saírem atrás dos elementos.

Vou ver o santo do dia. Pera.

Não acredito, de novo, outra catarina.

Santa Catarina Labouré. Rirão de mim, hoje estou certo de que Mariana de Rosário, a índia da Serra do Caverá, vai desatar em gargalhada.

Azar, eu conto minha história, elas acreditem se quiserem: estou bebendo champanhe pra festejar minha santa predileta. Tenho muitas prediletas.


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domingo, 16 de noviembre de 2014

Correr pelada/o em Porto Alegre

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Homem sofre. Às nove e cinquenta estava lá na porta com o Gatolino no ombro, ambos pelados, e minhas mulheres pararam em frente. Juanita de Las Cuarenta me olhou desaforada, dizendo no seu portunhol:

- Onde o señor piensa que vai así?


- Ora, falei ontem, vou no Correr pelado, a largada é aqui na Redenção às dez, já tou meio atrasado, vou chegar em cima da hora.


Frida Von Allerborn se adiantou, a alemoa anda falando acariocada depois que passamos um mês de festa em Niterói:


- Vai não, malandro.

- Como não, agora pensam que mandam em mim? Licencinha que quero passar.

Quando disse licencinha já não estava no meu dinheiro, ora bolas, estão pensando o quê.

Mariana de Rosário chaveou a porta e pegou a chave. Aí me fudeu do primeiro ao quinto. Essa é fera, é a que mais cuida de mim, a índia da Serra do Caverá, mas não é de frescura de faquinha na bota, essa é de adaga, não brigo com ela de jeito nenhum, e é alucinada na cama. Bem, boas de cama todas são, não pego qualquer uma, são minhas mulheres. Depois dessa da Mariana todas abriram a boca me criticando. 


Puta que me pariu, brigar com 23 é foda, não dá.

Ainda argumentei: - Por que não se pelam e vamos todos juntos?


Jacira de Uruguaiana tomou a dianteira: - Porque não tamos a fim! Já chega a gente passar a noite inteira peladas lá no puteiro.


Desisti, tá, tá, tá, antes que viesse reclamação por eu ganhar noventa por cento do que elas ganham lá. Só falei: "Podem marcar aí, um dia vocês vão me pagar, suas putas de merda". Fiquei mesmo abatido.


A haitiana Sybille me enfiou um copo de uísque na mão, dizendo com seu estranho sotaque: - Bebe aí e fica na tua, mon amour.

"Ai que vida, prisionero...". Coisa feita o bolero tocando no rádio.

Agora estou na salinha de música e dos computadores, vou à sacada e miro lá embaixo, penso em fugir delas pulando daqui do quinto andar, mas é meio arriscado. Vou me esgueirar lá nos quartos e pegar uns lençóis, amarrando alguns eu desço. Antes terei que arranjar uma distração, para que elas não me vejam afanando os lençóis. Já sei, vou abrir o gás por dez minutos no fogão grande e depois atirar um pau de fósforo, bum, correm todas lá para os fundos. Quando se tocarem já estarei lá na Redença.

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domingo, 9 de noviembre de 2014

As peladas de Porto Alegre

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Notícia:

De fonte segura soubemos que todos os clubes de Naturismo (que os loucos insistem em chamar de campos de nudismo) estão se organizando para um grande desfile em Porto Alegre. Estima-se em 50 mil participantes nus. Sem contar as adesões espontâneas, pois a turma de festa da Cidade Baixa, do Menino Deus, do Arquipélago, Cefer, Sarandi, toda a zona Norte, Partenon, Ipanema, Tristeza, Cristal, de todos os lugares, não vai querer ficar fora dessa, aí sobe para 120 mil, por baixo. Mais Belém Novo, Viamão, Guaíba e adjacências, mais São Leopoldo, pá, 200 mil, no mínimo.

Será o Naturadaço! Para que essa imprensa malévola pare de incomodar pobres moças que saem passear, tomar banho de chuva, que delícia, como vieram ao mundo, isto é, ao natural, sem porcarias que doidos impuseram, os que amam burka obrigatória ou mesmo uma folhinha de pecados que só existem em suas mentes obscenas. Assim diz a propaganda naturista.

Ora, quem nunca viu mulher pelada, homem pelado, menina pelada, nenê pelado? Só os doentes da zero hora e da globo mesmo, que já planejam chamar o evento de Peladaço!

As otoridades, sensíveis aos reclamos da globo, dobraram o seu efetivo da tropa de choque, para atirar bala de borracha, gás venenoso, cassetete e o caralho a quatro, soco na cara também,  para dispersar os elementos e elementas de alta periculosidade, os criminosos do Naturadaço.

A Inteligência Milícola (IM) por enquanto se debate com um pequeno problema: se os inimigos estarão todos nus, desarmados à vista de todos, como poderão infiltrar um dos seus para tocar fogo ou dar um tiro, qualquer banditismo que justifique a repressão? Problema deles, mas o mais provável é que botem um milico pelado no meio, que acabará jogando um tijolo nos seus colegas de escudo, e aí está feito, o pau come em cima dos inocentes. 

Superada essa fase, a IM teria outro probleminha: e se os 200 mil pelados não gostarem de ser agredidos e vierem para cima? Meras conjecturas, eles é que são bons nisso, como ocorreu certa vez no Turbiniquistão em 2044: um pelado, dos deles, era robô mandalete, de repente explodiu no meio da multidão, seu cérebro de um terço de um neurônio molhou os desfilantes e todos morreram contaminados por ignorância. Pode ser.

Quem viver, verá.
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MAMÃE ME ENSINOU A REZAR ANTES DE DORMIR (27)

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E também ao acordar, nobre Senhor Jesus, querido Senhor Deus, ahn... todo mundo aí de cima. Desculpem por não ter rezado antes de dormir, é que eu tava desguampado de saudade daquela mulher do Rio de Janeiro, a contraprima da Sindia, que vive me botando chifres, e tomei um fogo daqueles, de faltar gente para ver, nem Van Gogh me pintava, não parava quieto, sabem como é, né, já andaram por aqui e entendem de dor de corno. Desprezei os discos da Chavela, de machorra ando cheio, e lasquei o velho Altemar para toda a cidade ouvir Veja só que tolice nós dois brigarmos tanto assim, corno é corno, fica acreditando que ela ainda o ama.

Não briguei com ninguém, opa, não senhores, sou controlado, segurei no moral, não matei nenhum político, nenhum concessionário de telefone nem de ônibus, o vizinho do sexto andar que gritou com Mariana faleceu ontem mesmo, nao se deixa pra amanhã o que se pode fazer hoje, mas não fui eu, só mandei, evitando deixar rabo. Os outros hei de pegar outro dia.

Apenas fiquei ouvindo música e aporrinhando as chinocas, de modo que sei que estou em paz com o Senhor, enfim, com vocês, que não sei direito quantos são.

O pileque foi tão grande - e assim explico porque não saiu rezaiada - que apaguei sobre a mesinha da sala, de barriga pra cima, com os gatos dormindo em cima de mim. Ai que dor, mesinha dura pra caralho, e embaixo tinha os cacos de um vaso de flores que alguém deve ter quebrado, a haitiana Sybille não vai gostar, gastou os tubos pra trazer o troço do Haiti, com taxas de importação e tudo três mil dólares, sai do dela, ganha bem na boate, chamo de boate mas é um puteiro, vocês sabem, dos dez por cento dela, o resto é meu, esta casa tem chefe, ora -, eu assinei a papelada, ela não pode porque está irregularmente no país, um vaso negrão, lindo, cacos que me furaram as costas.

As mulheres se chavearam dentro do quarto da cama de que me orgulho: 60 metros quadrados, me isolaram. Frida botou um cartaz na porta: "Fica na tua, Sala, estamos com medo de ti, crie juízo, onde já se viu, cinco armas de fogo, e o que foi aquilo, brincando com granada. Te amamos, mas amanhã".
Tolinhas, como se eu fosse tirar o pino.

Assim que ao acordar agora, três da tarde, ajoelhado elevo uma prece: Por favor, leve, ou levem, para o inferno todos os donos de banco, para mim inatingíveis, os vagabundos andam de helicóptero, quando no chão com cinco mil seguranças, não tenho condições financeiras de pegá-los. Perem um pouquinho: Mariana!, cansei de dizer pra não passar pelada pela janela, quer que eu mate outro vizinho?Anda fazer uma caipirinha pro teu amor, e cadê o resto do chinedo?! Onde andava? Ah: ou me arranjem uma bazuca para abater os helicópteros lá do alto de algum prédio da Av. Paulista. Enfim, permitam-me, ó imensa felicidade, matar aqueles filhos da puta.

Os gerentalhas que mamam o tico deles deixe pra mim, ou deixem, esses cagões pego de punhal. Uma enfiada na jugular e adeus tia chica,

Grato, com muito amor. Entreguem um abraço ao querido bêbado, viadão e guampudo Santo Onofre.

Em nome do Pai, da Mãe, da Tia, da Vó, do Vô, Bisavó, Bisavô, tri, etc.
Saravá.
Salito


PS: Peço permissão aos amigos aí de cima para comer a Tatiana, lá da fruteira da Getúlio Vargas, esposa do cara, a morena me deu nos nervos, me olha daquele jeito de estou doida para chupar picolé até o finzinho, saboreando a parte branca, coco com leite, ai meu Deus, digo, ai vocês. Muito nova, uns 29, mas cada peitão, uma boca, e que bunda... Obrigado, tinha certeza de que concordariam, hoje mesmo encaminharei as tratativas para o confronto.
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lunes, 20 de octubre de 2014

Pai, estou chegando agora

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O samba é assexuado, ai que samba, de homens para mulheres, de mulheres para homens, mulheres para mulheres, homens para homens. Almas para almas. Eu dormia numa rede cearense, lá perto da Praia do Futuro, e sonhei, me senti culpado. Fui culpado. Larguei tudo e vim para o Sul.

Cantei para o meu pai. Talvez o velho gostasse mais de um tango, ou de uma milonga, mas eu vinha da boemia... Ele entendeu... sei que sim, daquela vez em que lembro bem.

Da vez em que sozinho num entardecer de verão, quase sete da tarde ou noite, eu não achava o túmulo do pai, eu fui lá fazer não sei o quê, se ele estava morto. E não achava, não sabia o número, o escritório do cemitério já fechado. Chegado de viagem direto.

Mas queria achar, depois de cinco horas de ônibus, outras tantas antes de avião desde o Ceará, então me deu uma coisa, fechei os olhos e saí andando naquele cemitério cheio de percalços, um descidão, caí muitas vezes e fui indo, me machuquei numa queda pior, me arrastei, levantei, mas não abri os olhos. e segui feito bêbedo, bailando por entre cruzes, tropeçando, pedindo desculpas e cego voltando e as colocando em pé novamente, pelo tato, ao voltar e arrumar sentindo que os seres ali depositados ficaram meus amigos, sonho meu, como amigos, mas sentia que diziam vai em frente, nem precisa arrumar cruz velha, não mesmo, jamais, com as mãos e unhas cheias de terra eu arrumava.

Até que parei, é aqui, abri os olhos e estava na frente do seu tumulozinho. Nervoso depois contei às minhas irmãs e elas me olharam duvidosas, eu também estranharia, mas aconteceu, e sei que não sou bruxo, não quero ser, ninguém é. Mas aconteceu.

Hoje meu amigo Paulo Vicente entendeu o que falei, entenderia isso que falei acima se fosse meu amigo na época, porque ele tem o paizinho, e vai cuidar, abre mão de Porto Alegre pelo ser que, com a mãezinha que já partiu, o cuidou.

Almas. Suponho que Paulo pense algo semelhante.

Eu cantei em frente ao tumulozinho, e os funcionários do lugar não me estranharam quando vieram atraídos pela canção, ao contrário, vieram dar abraços, toques de mãos, mãos acariciando meus cabelos de passagem, não fique nervoso guri. Todos homens e mulheres feitas, de algum modo me entenderam. Então lembrei que o pai era um cara bom, simples, de dividir o pouco que tinha, e repeti a canção, agora dedicada a cruz do meu pai e a todas as cruzes que me trouxeram aqui, e pedi perdão de joelhos por não dizer seus nomes que não sabia.

Ninguém pensou que eu era louco, pai, como me achavam em outros lugares.

E desta vez os funcionários cantaram juntos, passava mais de duas horas que deveriam ter fechado o lugar, era nove e meia da noite.

Outro dia volto. Torno a lhe pedir desculpas pela incompreensão, eu era uma criança. Perdão. 

Estou chegando agora, pai, e não saio mais.

jueves, 16 de octubre de 2014

Amigos para siempre

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Hoje li que o reflexo das eleições no facebook é desastroso: é um tal de eu te excluo, tu me excluis, nós nos excluímos... O mesmo para o verbo "bloquear".

Não acho que a palavra "desastroso" seja adequada, pra mim é muito normal. Note-se que levo muito a sério a palavra "amigo", se o idealizador do espaço quisesse "conhecido" assim teria chamado aos viventes que adicionamos em nossas vidas.

Como começamos uma amizade? Alguém nos apresenta a alguém em um bar, num aniversário, em qualquer ambiente social, e começamos a conhecer a pessoa, e ela a nós, com nítida vontade de ser amigo, isto é, começo dando nota dez para a pessoa, que pode se manter ou diminuir à medida que a conheço.

Isso para desconhecidos, mas também para pessoas que não vejo há séculos, amigos de infância por exemplo. Amigos não, colegas de infância, que a lembrança da infância nos faz pensar em amigos. Amigos eram o Pato, Ivens e outros, que não por acaso eram petistas ou comunas de carteirinha, fundadores do PT os manos citados, eu era PCB na infância.

Aí que de repente me surpreendo com um amigo novo, ou de infância, defendendo a ditadura militar, por exemplo. Como ele não é analfabeto, obviamente que sabe o que se passava nos porões da Redentora. Francamente, meu amigo jamais será, daí que simplesmente o excluo do meu rol, nada mais normal. Sem raiva, naquela de fica na tua que eu fico na minha, camarada. Do mesmo modo que passaria a evitar aquele que me foi apresentado num bar ou num aniversário e no seguimento se mostrasse meu oposto, com características que desprezo.

Perdi uns cinquenta, aliás, perdi não, pois nunca os tive. Alguns, confesso, com o coração sangrando de decepção. Porém ganhei setenta.

E assim, ao fim e ao cabo, os que restarem e eu, após nos conhecermos, a cada dia mais, seremos amigos para sempre. Eles serão "dos meus", e eu serei "dos deles". Quando mencionar os seus nomes, ou eles mencionarem o meu, todos diremos com alegria e orgulho: "Esse é dos nossos!".

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Post Scriptum: Já contei isto em algum lugar, mas vem a propósito. O maior elogio que recebi na minha vida aconteceu no bar Carpe Diem, em Brasília. Estava eu e a Dora Kramer (Doramaria Tavares de Lima Kramer, a Dorucha que não é de esquerda, mais pra centro-direita, mas sempre me respeitou, sempre teve honestidade intelectual) e umas 20 mulheres de imprensa, JB, Globo News, Band, etc. 

Os machos eu mandava sentar longe, lá do outro lado do bar, eu de chapéu sou perigoso, e como ninguém queria levar um tiro, obedeciam. Uma festa: eu no meio do mulheril declamando Quintana (entre outras: "Ó, senhora minha, eu vos peço, permitais, que eu coloque aquele com que mijo, naquela com que vós mijais"), elas lá os seus, e cantando mpb, fomos do meio-dia de um sábado até a meia-noite, quebramos o boteco, tiveram que buscar mais barris de chope, foi quando provei às amigas e ao bar inteiro que Nei Lisboa dava de dez a zero no Caetano, ao cantar "Deixa o bicho". 

À meia-noite elas cochichavam antes de sair, e nomearam Carmen Kozak para falar em nome de todas. O discurso foi breve, Carmen se levantou, respirou fundo, disse o básico de prazer e tal pelo dia de hoje e exclamou o recado que os cochichos combinaram: "Sala, tu é das nossas!" O burraldo aqui ficou tão emocionado que esqueceu de convidá-las, todas juntas, para um motel.
PS2: Não briguei com ninguém, só sorrisos. Apenas os machos que mandei se sumirem, aqueles babacas. Na verdade não pensava em engrossar, mas o primeiro deles se chegou metido a engraçadinho, a maldade exposta, aí... Lembrei, ele em pé diante das mulheres, procurando cadeira pra puxar naquele mundão de mesas juntas: "Dora, esgotou o estoque de Brasília e está importando gaúcho?". Teve sorte de não levar o tiro ali mesmo, por abobado e porque sou calmo, a Dora era apenas amiga. Olhei sério pro sujeito e disse: "Vou contar até dez, se não sumir morre agora". E comecei: um, sete,...

Ele viu que eu era ruim de fazer contas, perigava do sete cair no dez, e se fugou.
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domingo, 12 de octubre de 2014

E a nave vai


Felizes somos nós, que as temos, em todas as formas, como sobrinhas, como adotadas, como supostamente próprias, do jeito que Deus quiser, desde que tenhamos amor pelas criaturas.

Dia de Criança é todos os dias.

Às minhas meus sentimentos passarão despercebidos, mas elas olharão e ouvirão um dia, pois a elas vai uma música, já nem sei se posso, afinal talvez não seja do dominador ingreis, ah, deixa pra lá, vou botar sim.

Salvo o início, vai meio fora de ordem de nascimento, sei mas agora não vejo razão alguma para me esforçar, lembrar, andei bebendo.

Carmen Matamoros, Maria Helena Mendonça, Regina Lemos, VivIane Moreira, Karina Martins, Dione de Jesus, Jucilene Quiroga, Sônia Sem Nome, Catarina dos Santos, Maria Sem Nome, Luciana Dal Vitta, Vilma Conceição, Zilda Rodrigues, Lunera Paraguas, Lunera Aflición, Julia de Rosário, Carolina Herrera, Natividad Ferreira, Silvia da Silveira, Libertad del Rio, meu deus, onde botei as certidões das outras meninas, deixei na outra caixa?

Todas com o sobrenome Luna. Se não fui o pai que deveria ter sido, jamais deixei faltar comida, tentei ensina-lás a viver, a dançar rindo com o paizinho o bolero La Barca, troquei suas roupinhas, passei paninho úmido nas partes, cresceram, falei para se cuidarem com malandrinhos malcriados, comprei livros, música boa, ah, Mozart, e botei a cara e o corpo por elas com os olhos arregalados quando preciso, de punhal ou pau de fogo na mão. Dei tudo, fiz o que pude. 

Todas, negras, morenas, malaias, brancas, me saíram e eu vi ao nascer, de olho azul. Gen recessivo, seu moço de olhos castanhos, me disse uma cientista quando uma duvidosa mulher - dos seus atos - foi atrás para saber: todas minhas, DNA. Que pouco me importava, eu criei, seriam minhas ainda que o exame dissesse outra coisa.

Tem gente que pensa que é, mas não é o cara, não se pode tudo, nossos filhos não são nossos, como disse o outro.

Alguém da família, volante que encarreguei, me disse que elas, todas, em suas diferentes vivendas, choram ao ouvir o bolero. Lembram de mim.

Mal sabem, as crianças, que foram elas que me salvaram a vida.


Obrigado, minhas filhas.

(Não acho fotos... opa, achei duas)

Natividad Ferreira, doce amor.


E Carolina Herrera, esta num desfile em Saigon, peguei de uma revista quando bati os olhos, epa, está é minha.


miércoles, 1 de octubre de 2014

Bruno Contralouco e as eleições, n'A Charge do Dias

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Terça à noitinha, dia 30 de setembro, depois de longo tempo sumido apareci no Botequim do Terguino, no Beco do Oitavo, para tomar umas cangibrinas e confraternizar com a turma. Uma beleza: Salito pra cá, Salito pra lá, abraços e beijicos das mulheres, abraços e tapas nas costas dos marmanjos, eta vida boa.

Conto como se lá estivesse agora, foi assim:

Ao chegar topo com Jezebel do Cpers, Ain Cruz Alta, Aristarco de Serraria, Clóvis Baixo, Chupim da Tristeza, Gustavo Moscão, Janjão do Bongô, Jucão da Maresia, Jussara do Moscão, Lorildo de Guajuviras, Lucas da Azenha, Luciano Peregrino, Marquito Açafrão, Mirtinha, Nicolau Gaiola, Silvana Maresia, Tigran Gdanski, Walter Schiru, Wilson Schu e Zilá do Chupim em mesas reunidas. Falta muita gente ainda. Wilson Schu me sussurra que Bruno Contralouco pela manhã teve problemas no Mercado Público, o pessoal aguarda pela chegada do advogado da confraria, o notável boêmio Carlinhos Adeva, para saber dos detalhes, pois parece que enjaularam o ídolo da gurizada do bairro.

Nestas alturas do campeonato claro que falavam das eleições. Aristarco de Serraria interrompeu a sua fala para os abraços da minha chegada, o tempo de arrastar uma cadeira, amenidades e tal, depois concluiu o seu raciocínio sobre a política de coalizão de pássaros, entre estes alguns urubus, com ratos. Belo raciocínio do filósofo das ruas. Tal a saudade do ambiente que meu primeiro liso de dyabla verde (o absinto caseiro, ou pinga em conserva com losna, ó leitores) entrou num tiro só, taiaiau.

Tigran Gdanski toma a palavra:

- Sabe, gente, depois que o Contralouco destruiu a tevê nova na semana passada, fiquei louco de curiosidade de olhar o horário político, mas ainda não tive peito para assistir, receio que me dê um treco, não tenho mais vinte anos, ninguém está livre de um AVC...".

Com os cenhos franzidos todos desaconselham cometer essa temeridade. Aí eu soube que além da antiga, quando arrebentou a coitada quebrando junto duas cadeiras do bar, o Contralouco destruiu a que a substituiu, esta das caras, uma enorme magricela chamada de Full HD, quando apareceu a fundamentalista - no dizer deles - Marina na tela. 

A turma já fez outra vaquinha e encomendou uma tevê maior ainda, de plasma ou algo assim, dividindo o preço por umas trinta ou quarenta almas não dói no bolso. O Contra disse que pagava sozinho, mas o pessoal não aceitou sob o argumento de que naquele dia ele fez o que todos queriam fazer. Combinaram que com a próxima não tem choro: somente será ligada para ver futebol, pois temem que apareça a Ana Amélia ou o Nazier na tela, aí já viu, o índio destrói de novo. Se bem que o sarcástico Clóvis Baixo pediu ao Contra para na próxima ir em casa - mora perto - pegar o 38 e dar uns tiros no aparelho, economizaria cadeiras.

Os camaradas seguem falando mal dos políticos. Tigran Gdanski pede a atenção e lê algo no jornal: a Bolsa de Valores tornou a cair diante das pesquisas a favor da Dilma. Então ele faz analogia com um dito certeiro e irrepreensível do Brizola, que falava que se a Globo é a favor, a gente é contra; se ela é contra, a gente é a favor, para dizer o mesmo quanto aos especuladores, picaretas e parasitas do mercado de capitais, isto é, os filhos da puta.

É cedo ainda, a noite avança, conversas paralelas, piadas, risos, mas percebo no ar a latente preocupação: todos sentem que o Contralouco obviamente teve problemas com os meganhas, isso é do seu jaez, como diria a boêmia Dulcinéia de Cervantes. Renovam as bebidas.

E trago não falta, como já expliquei em outra oportunidade. É um tal de "merengue", “veneno”, "repolhuda", "pré-sal", "fada verde" (o mesmo que dyabla verde), “rabo de galo”, “pau na coxa” (eca, coisa mais nojenta), "petróleo", “trigo velho” e por aí vai. Por exemplo, se o boêmio pede: "Salta um petróleo!", é uísque vagabo, o cara anda mal dos pilas. Se diz "Salta um pré-sal!", aí é mais embaixo, uísque mais caro. Petróleo e Pré-sal são invenções de Ivorix Getuliano Piazza, um italiano famoso como só, que volta e meia aparece para rever os amigos que um dia. O lendário boêmio parou com a bebida e baixou a bola depois que recebeu uma longa carta do seu figueiredo, entregue pelo médico, com graves ameaças de retaliação caso prosseguisse ingerindo litros e litros de groselha.

Lá pelas nove e meia da noite eis que enfim adentra no botequim o Bruno Contralouco, acompanhado de Carlinhos Adeva e do honorável João da Noite. O gaúcho entrou cantando: “É primavera, te amo...”. O pessoal quietinho em suas mesas, esperando o que o maluco iria dizer.

- Bah, não pensem que eu tava preso, o Carlinhos me tirou das garras da justa. Fiquei só quatro horas dentro daquela delegacia de merda, só não apareci aqui antes porque arranjei outra enfermeira do Pronto Socorro, a Daisy, ela me disse que o seu nome quer dizer Primavera em inglês, e é a primavera em pessoa, ela que me fez os curativos e depois fomos pra casa dela.

Bateu os olhos em mim, que estava meio encoberto pelo Janjão que é um armário, e correu para o meu lado me dar um abraço, dizendo:

- Bah, Salito, me disseram que tu tava empernado no Rio de Janeiro!

Gustavo Moscão, que como o Contra se irrita fácil, atropela a conversa, quer saber que diabos houve no Mercado Público pela manhã. Silêncio no bar, Bruno Contralouco emborca metade do seu pré-sal e começa a narrar a aventura. João da Noite e Carlinhos Adeva sorriem complacentes.

- Foi nada, aqueles babacas exageram as coisas. Eu fui jogar na Quina naquela lotérica da entrada e comprar charque na Banca Central, que acabei não comprando. Foi entrar no Largo Glênio Peres e voaram uns cem vagabundos em cima de mim, com papo furado e empurrando santinhos. Para o primeiro que quis me enfiar uma propaganda de um tal Onyx eu disse: “Vai tomar no teu cu”.

A Dra. Jezebel do Cpers chacoalha a cabeça e olha para o João da Noite com ar de quem diz: “O bicho segue o mesmo, não tem solução”. 

- Gostei da resposta que dei e fui distribuindo vai tomar no teu cu até o portão principal do Mercado, quando entrei na fila da lotérica. Tava pensando em quebrar a cara de alguns ali no Largo, preciso alcançar o Moscão, que já surrou uns cem cabos eleitorais desde julho, eu peguei só uns oitenta, mas eles eram muitos, e tinha milico pra todo lado. Cabo eleitoral grandudo, não os coitados que eles pagam para entregar papelzinho.

Gustavo Moscão fica todo pimpão por ter o seu feito lembrado, mas dá de ombros e acena com a mão, humildemente, a transmitir que foi cosa poca, acrescenta que até domingo pretende pegar mais uns vinte.

- Da fila da lotérica ouvi um discurso esganiçado muito vulgar de um elemento metido a interiorano, querendo poetizar um esperto mandalete da RBS para levar o povão no lero naquela de "semos igual a tu". Os berros do cara me incomodaram e gritei de lá: “Sai, puxa-saco de merda, vai dar pra quem te come!”. O cara ouviu e se enrolou, mas seguiu na lenga-lenga, acho que estavam gravando pra engambelar a massa no horário político, se é que pode passar maranduva. A fila andou e fiquei quieto, já tinha dito o que tinha que dizer. Pois não é que de repente os caras invadiram a lotérica, fotógrafos, filmadores, puxa-sacos e o próprio candidato? E o tal candidato vinha puxando assunto com os boca-moles como eu, um por um na fila. O cara da minha frente quase chupou o pau do sujeito, todo encantado, eta povinho bem desgraçado, aquilo terminou de me aborrecer. Quando veio em mim armei a maior cara feia que pude, o elemento me olhou, sentiu o drama, mas ainda ousou falar, político é foda: “O senhor já tem candidato?”. Fui cortês, não o mandei tomar no cu, afinal não veio me empurrando santinho, mas respondi: “Não é da tua conta, não te conheço, meu, que conversa é essa de vir tomando liberdades?”. O careca empalideceu e resolveu seguir seu caminho, sentiu que comigo só teria desgosto. Porém o puxa-saco esganiçado metido a declamador, que vinha na comitiva se fazendo de um popular, resolveu tomar as dores e disse: “Mas como tem gente mal-educada...”. Respondi tranquilo: “Mal-educado é o teu pai, filho da puta!”. Aí fechou o tempo. Enroscou o pelego quando meti o braço num milico, veio por trás e pensei que era um deles. Aí fudeu tudo, vieram uns dez e me algemaram. Enquanto me arrastavam para a viatura ainda tive tempo de gritar para aquele bando de abobados: “Vou de Olívio, otários, que não precisa se fingir de gaúcho!”.

A conversa segue, todos têm algo a perguntar ao herói, mentalmente me distancio. Pela janela vejo que cai uma chuva fina sobre o Beco do Oitavo. Propícia a recuerdos de uma morena... mas isto é impressão pessoal. Cícero do Pinho entra no Botequim se desculpando pela demora, logo desencapa o violão.

A noite de ontem acabou cedo, às três da manhã de hoje, pois muitos logo teriam que pegar no basquete. Na saideira como de praxe cantamos juntos “A volta do boêmio”. Ao final, quando chegamos no "É de mim que você gosta mais", o Bruno Contralouco emendou a mil: “É primavera, te amooooo”.


Sabendo-me de volta aos pagos, hoje os beberantes que não são chegados ao basquete, e não são poucos, se apressaram em mandar as charges que acabam de escolher. Arguindo que há muito a coluna sumiu, mandam quatro obras, três pelos cantineiros, mais a da coordenadora Leilinha Ferro, filha do Terguino. Aceito.

Aroeira, no Brasil Econômico. Nesta, informa Leilinha, os psicólogos de bar mandam dizer que está provado cientificamente que o sujeito que discrimina homossexuais tem lá suas razões, dentre estas uma bruta coceira num lugarzinho, mas como é um covarde preconceituoso sufoca o instinto e fica julgando e criticando quem não o é. 



Mariano.

Myrria, de A Crítica (Manaus).



E miss Leilinha Ferro, a luz que ilumina os olhos dos camaradas, provocou muitos risos aqui na palafita, com o S. Salvador, do Estado de Minas.

A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que..., bem..., se fundiram em 2012 (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.
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