sábado, 31 de agosto de 2013

Lixos e livros, n'A Charge do Dias

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Nicolau Gaiola hoje está animado no bar. Apresentou-nos o seu  primo Frederico Garcia IV, que, diferentemente do espanhol que o nome sugere, é um bruto alemaozão de 1,95m e uns 120 Kg, fala mansa, pachorrento ao caminhar. Andava perdido há cinco anos com uma tianga lá para os lados da Germânia, agora está de volta à Pátria. É médico. Ao ouvir a profissão o Gustavo quase caiu da cadeira: "Se vai falar mal dos cubanos pode ir beber lá no banheiro!". Para falar assim com um homem deste tamanho só mesmo o Gustavo, o ex-boxeador da turma. Bem, tem o Contralouco... Mas, seguindo: Frederico, sereno, falou um pouquinho de si, e soubemos que é nada disso, defende os estrangeiros. Já rodou mundo, em certo tempo metido no Médicos Sem Fronteiras. Um médico humanista, enfim, unzinho, foi o pensamento que rodou na cabeça dos boêmios e dos velhos céticos que estavam na mesa 1, a da janela.

Soubemos também que essa proteção dos anéis fantasiada de xenofobia está longe de ser unanimidade. "Unânimes talvez sejam os açougueiros eleitos para dirigir a classe, é como qualquer sindicato, são políticos, querem se reeleger, aí já viu, vão pelos que supõem ou sabem que são a maioria". Mesmo dizendo apoiar a vinda dos cubanos, foi imediatamente rebatizado para Freddy Garcia Lorpa pelo Clóvis Baixo. O Freddy levou na esportiva, dizendo que pior seria Freddy Krueger. Clóvis foi pego no contrapé, chegou a repensar o apelido, arguindo que possivelmente a profissão de médico tenha mais a ver com Freddy Krueger mesmo, porém decidiu não judiar tanto assim do novo membro da confraria. Enquanto os boêmios tomavam um copo de cerveja o Freddy tomava três, atribuindo a sede ao forno em que se transformou a cidade. Tomava um e dizia: Porto Alegre é foda, outra e Como que é vocês aguentam este calor. A turma se divertia, vai para Fortaleza, para ver...

Cá comigo, fiquei curioso por saber a opinião do Médicos Sem Fronteiras sobre a vinda de estrangeiros ao Brasil. Freddy disse que com a atucanação de mudança e tal não teve tempo de se atualizar sobre os últimos acontecimentos. Quando retornar à palafita vou procurar informações.

O "apresentou-nos" lá de cima e os modos seguintes é isso mesmo: hoje resolvi dar uma passada no palco dos acontecimentos, rever a moçada e me refrescar, de fato o dia está muito quente e abafado. À noite deve bater água. Com chuva ou não, já cheguei com o meu quilo de costela uruguaia, acertei em cheio: todos tinham levado a sua parte, vai ter churrasco no meio da rua com chuva ou sem chuva.

O Portuga conta que ontem Luciano Peregrino foi o último a sair, ajudou-o a fechar o botequim. Luciano está morando temporariamente, como diz, nas Escadarias da 24 de Maio, famoso logradouro que une o Centro à Cidade Baixa, próximo ao bar. Ao sair, o Portuga lhe pediu uma mão, saiu levando a última sacola de lixo para a lixeira ao sopé da 24. Boa noite, Portugalino, dirija devagar essa gaiota, e lá se foi o boêmio, levando bebidas para terminar a noite em casa. Chegar em casa de geladeira e cama vazia ninguém merece. 

Daqui em diante o próprio Luciano passou a narrar. Tentarei resumir. Chegou em casa e decidiu dar uns telefonemas com urgência, só então percebeu o tardar da hora. Tentou dez amigas e recebeu dez vozes de sono, "Aconteceu alguma coisa? Ah, te acalma, homem, ..., me liga amanhã, meu bem, tiau, clic". 

(Os pontinhos, chamados reticências, são assuntos entre amantes adultos, pulamos, né.)

No desespero de causa tentou uma que não via há dois anos, esta teria exclamado: "De novo só lembra de mim às três da matina! Não se flagra, cara?! Agora tou empernada, me liga depois da Copa, seu babaca!". Meninos... tal o sentimento do boêmio ao contar, foi insultado, agredido, que todos passamos a detestar a cidadã. "Vaca" foi a palavra mais doce que saiu da boca da turma. Jezebel do Cpers saiu em defesa da vaca, bem, não foi bem defesa, mas disse: "Se fosse comigo eu simplesmente desligava". Certo, disse Freddy Lorpa, rainha mantém o nível, mas essa era uma bovina, e a sua risada, ou trovoada, foi ouvida no Pólo oposto, o Baixo disse que acordou as famílias dos iglus e os bacalhaus do Mar do Norte. Até nisso parece com o outro.

- Hummm, por falar em bacalhau... fala, Luciano, provocou Marquito Açafrão.

Vai como disse Luciano, com uma vírgula a mais ou a menos:

"Chorei copiosamente por ter perdido aquela frígida, fod... não vou cansar a beleza dos amigos desfiando meu dicionário de palavrões com a letra "f", e resolvi tomar uma cerveja. Fui à cozinha, onde as deixei, abri a sacola e lá estava... o lixo do Portuga, cinco cascos de vinhos. Dei uma de Clóvis, botei na lixeira o saco de cervejas. Peguei o lixo e desci as escadarias que nunca terminavam, estranhei uma canseira assim, as escadas por vezes pareciam se mover. Já lá embaixo abri o container esperançoso: o saco de loiras estava intacto, sob umas basuras num cantinho. Ufa. Para subir de volta, pensei, levarei uma hora, mas volto bebendo, melhor que descer em seco é subir molhado. Começou a chover, comecei a cantar são coisas do momento, são chuvas de verão, e comecei a ficar ansioso, pescar não podia, estava sem vara.

Tive que entrar dentro daquilo, só então tirei o chapéu para os catadores de latas, são acrobatas, gente, não é mole, foi um drama, desaconselho bêbedos tentarem. Uma vez lá dentro, testículo esquerdo doendo - logo o esquerdo - pela esfregada no metal ao entrar na décima tentativa, respirei, ave, e a porra da tampa caiu com estrondo. Fiquei sentado no escuro. Somente então me dei conta de que tinha bebido demais MESMO. Resolvi tirar um soninho rápido, deixei-me cair para o lado e apaguei. Às sete da manhã acordei, abraçado a uma galinha podre, recuperado do trago, e saí num salto, vupt, quase vomitando, todo lambusado de uns troços fedorentos. Acabei de sair e quem vai passando, me olhando com cara de espanto? A amiga da ex-noivinha, em quem ando de olho e já estava assim-assim para ganhar. Aterrorizada, baixou a cabeça, engatou uma quarta e saiu picada olhando para o chão. Eu mereço".

Cheirou-se: "Tomei cinco banhos e ainda sinto o fedor".

Todos falaram. Eu fui breve, dizendo mais ou menos o mesmo que Aristarco de Serraria: "Dá nada, meu irmão, neste mundo tudo tem volta, tem seu tempo, deixa rolar, um dia tu conta isso para ela, até lá ela pode ter mudado e vai rir muito". 

Carlinhos Adeva exclama: "Outro filósofo pro bar, ahahah...".

O Contralouco chega agitado, me dá um abraço de esmagar, dizendo: "Viu, Salito, os filhos da puta da Câmara livraram a cara do deputado ladrão?". "Não, pedro bó, ele não viu, ninguém viu...", diz Jussara do Moscão. O Contra não se mixa: "E os 'bandidão' querendo jogar bomba na cabeça das crianças sírias?, me contaram agora há pouco, que droga, a bronca não é deles...". Jussara repete a sua fala anterior do pedro bó. Porém nesta última a turma se coçou, doidos para meter a colher. Controlaram-se, unânimes em que nos resta somente lamentar todo o conjunto dessa triste obra.

Apresentado ao Freddy, o Contralouco deu um discurso e fez uma festa, queria botar o alemão nos ombros e carregá-lo pelo Beco, dizendo-o parecido com alguém. Os papos ficaram cada vez melhores (o senhor foi muito falado, governador Tarso Genro, deixa estar), mas lembramos das charges. Nessas alturas somos trinta almas em mesas da calçada do Beco do Oitavo.

Durante as escolhas foi impossível evitar certos assuntos.

Por estarmos de visita, Freddy e eu fomos premiados pela coordenadora Leilinha com uma escolha a solas, escolhemos primeiro, hoje serão fora de concurso. Vão ao fim. 

Ungidos pelo voto popular, os seguintes artistas:

Frank. - Esses caras deveriam morar naquela lixeira, Luciano, disse Jezebel do Cpers.



Pedro. - Taí, de repente a vaca tava como esse cara, disse Clóvis Baixo. - Como ele de certa forma acho que todos nós estamos, isso broxa qualquer um, falou Carlinhos.



Genildo. Os amigos podem imaginar os comentários. O Contralouco queria ir em casa vestir sua roupa de Black Bloc.



Newton Silva. Todo mundo permaneceu em silêncio de velório de criança, aliás, neste tema há dias estão assim. Estamos.



E Renato. - Se eu estivesse lá, atolava um punhal no goela do cara, disse o Contralouco. A turma riu, Aristarco e eu não...



Leilinha Ferro escolheu a sua, também a solas, privilégio da coordenadora. 

S. Salvador.



Freddy Garcia IV, ou Lorpa, como quer o Baixo, ficou com o Morettini. Aqui Ain Cruz Alta me sussurrou algo que estou certo de que todos haviam pensado: - Parece que foi Deus, Mr. Hyde faleceu, e agora surge o Freddy, também médico e também alemaozão...



Na minha vez, fiquei com o Nani. Como já expressei tantas vezes, as paredes do botequim são cobertas de charges e caricaturas dos artistas do traço e do pensamento do Brasil. Aquelas tidas como obras-primas vão para a parede. O recorde de obras ali expostas é do Nani Lucas. 

Hoje escolhi ao Nani como escolheria em circunstâncias diversas, afinal não por culpa minha que as paredes estão repletas, mas aproveitei para informar aos boêmios que o gênio mineiro se dispôs a ilustrar um livro que estou preparando, apesar da falta de tempo e dos probleminhas com Mr. Febraban. O bar foi abaixo. Até capa já tem, um primor, da lavra da artista plástica Carmen Medeiros. Como mínimo gesto de gratidão eles terão os nomes na capa, dimensões e destaque idênticos aos do autor. Rimos todos quando o Portuga, só podia ser judeu novo, digo, cristão novo, sugeriu e abracei: pensando bem, com os seus nomes (deles, né) na capa talvez consigamos vender alguns ou muitos exemplares. Sobre as inquirições a respeito do livro, fica para outro dia, pois fui fuzilado por dezenas de perguntas. O Contralouco riu e perguntou se haverá putaria. Mesmo não sabendo exatamente o que pensava ele com essa palavra, confirmei, sim. Pero no mucho.


A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.

jueves, 29 de agosto de 2013

Cuba Libre, n'A Charge do Dias

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Com a chegada do grosso da turma, depois do Luciano se mandar para a noite, os boêmios interromperam os afazeres para a escolha das obras do dia. Ficaram com os seguintes artistas:

Alecrim.  



Alegraram-se com a aparição do mestre Santiago, que vez em quando dá as caras, a matar.



Denominaram a obra do Amorim de A Náusea.



Leilinha Ferro alegou estar em inferioridade, tem permitido que os empinantes escolham mais do que a conta. Hoje recupera-se, escolhendo três, para equilibrar as contas. Ninguém protestou, chefe é chefe. E a guria não perdoa, com os...

Amarildo. Perderam completamente o senso de ridículo, diz Nicolau, iguaizinhos ao Maluf.



Lute.



e Samuca.



A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.
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Eu tenho um sonho

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Abaixo, excelente artigo de Nick Bryant, para a BBC. O que vemos em comum com as manifestações que hoje se espalham por muitos países? Salta aos olhos, desde a primeira linha: a busca por justiça e igualdade. Os povos repudiam as "elites" de ladrões que dominam as sociedades, com as armas de sempre, religiões, mentiras ou tanques, com o falso moralismo que se dissipa em suas negociatas de escuros vãos de escada. 

No Brasil a ignorância do povo também corre a seu favor, através da tela azul da lavagem cerebral que sustenta o seu poderio, os desvalidos são seus cúmplices, apenas alguns jovens esclarecidos estão nas ruas. Desarmados. É tempo de a luz vermelha se acender em seus luxuosos gabinetes, por enquanto o risco é de perda de pequena parte de seus anéis, mas dia chegará que serão todos os dedos. Ninguém deseja mais que a presidente Dilma romper os grilhões da injustiça, o roubo disseminado entre essa casta de predadores, porém imobilizada por um Congresso repleto de canalhas, o fruto mais visível da ignorância popular. Percebe-se que atualmente a moçada tenta evitar líderes todo-poderosos, sabe que podem ser comprados, ou mortos, como aconteceu com Luther King, assassinado poucos anos depois, em atentado de autoria até hoje duvidosa (a quem serve?).

Natural vir-nos à mente algumas cidades brasileiras. O despreparo e a arrogância de prefeitos e governadores faz-nos pensar que não sabem como tudo começa. No Rio de Janeiro ou em São Paulo, por exemplo, o que acontecerá no dia em que um cassetete atingir a fronte de um jovem, matando-o, e a internet for tomada pelas imagens captadas por celular?

Martin Luther King e o violento protesto que nunca aconteceu


Por Nick Bryant

Em todo o país, uma onda de protestos havia se espalhado após semanas de disputas raciais em Birmingham, no Estado do Alabama, onde cães policiais feriram manifestantes e potentes jatos de água foram usados em crianças.

Entre maio e o fim de agosto de 1963, houve 1.340 manifestações em mais de 200 cidades. Algumas aconteceram em comunidades por muito tempo divididas por questões raciais. Outras nunca haviam tido episódios de violência.

A aleatoriedade dos tumultos fez com que fossem ainda mais assustadores para as autoridades.

Com 200 mil manifestantes prestes a se reunir na capital dos Estados Unidos, o governo tinha medo de que Washington testemunhasse o mesmo caos e desordem.

Para o reverendo Martin Luther King Jr., o líder não-declarado do movimento pelos direitos civis, os acontecimentos do início do verão americano haviam transformado a luta pela igualdade racial do que ele chamava de "protesto negro" em uma "revolução negra". Os Estados Unidos, segundo ele, tinham chegado a um "ponto de explosão".

Mas as vozes da ansiedade também se fizeram ouvir dentro da administração Kennedy.

"Assuntos que não se resolvam com justiça e equilíbrio, cedo ou tarde serão resolvidos pela força e pela violência", alertou o vice-presidente Lyndon Baines Johnson. O único conselheiro negro do presidente, Louis Martin, também alertou para uma possível confusão iminente.

"O ritmo acelerado da inquietação dos negros", disse ele a Kennedy, em particular, "pode provocar o estado mais crítico das relações raciais desde a Guerra Civil". Durante uma reunião tensa na Casa Branca em maio, o procurador-geral Robert Kennedy também alertou seu irmão mais velho do risco de que a situação saísse de controle.

Público acompanha discurso de Martin Luther King | Foto: Getty


"Os negros agora estão hostis e furiosos e eles ficarão furiosos com tudo. Não dá para conversar com eles", disse.

"Meus amigos dizem que (até) as empregadas domésticas e funcionários negros estão hostis."

Durante boa parte de seu governo, John F. Kennedy enxergou os direitos civis mais como um assunto político a ser administrado do que como uma questão moral a defender.

Pender para a última alternativa era arriscar a fragmentação do partido Democrata, que na época era um amálgama conturbado de liberais do norte, segregacionistas do sul e pragmáticos, como o presidente, que tentavam manejar as diferenças.

Kennedy, famoso por sua postura de distanciamento, tampouco tinha um compromisso emocional forte com a luta pela liberdade. Durante a maior parte do tempo, ele havia sido um observador da grande revolução social de sua época.

No verão de 1963, no entanto, ele percebeu que seu governo poderia vir a ser definido por sua resposta à crise racial. A inação não era mais uma opção. Como ele mesmo comentou durante um discurso televisivo em junho, as "chamas da frustração e da discórdia estão queimando em todas as cidades, ao norte e ao sul".

Controle

Para tirar os manifestantes das ruas, Kennedy havia finalmente apresentado um esperado projeto de lei que começaria a desfazer a segregação ─ sistema de apartheid racial que prevalecia na maior parte do sul dos Estados Unidos. Mas mesmo depois do pronunciamento à nação, e dado o aval da Casa Branca para a luta dos negros, os protestos e a violência continuaram. A possibilidade de uma enorme manifestação em Washington, portanto, provocava medo.

Quando o governo descobriu, em meados de junho, sobre os planos para a manifestação em Washington, sua primeira resposta foi pressionar líderes negros pedindo o cancelamento.

Em uma reunião na Casa Branca, Kennedy disse a Luther King e a outros líderes dos movimentos de direitos civis que não queria "um grande show no Capitólio" porque isso complicaria os esforços para transformar o projeto de direitos civis em lei. Quando as tentativas de persuasão falharam, o governo decidiu brigar pelo controle da manifestação.

Nesse momento, o presidente foi surpreendentemente determinado. "É provável que eles venham aqui e defequem no Monumento (de Washington) inteiro", disse Kennedy a assessores. "Tenho um projeto de lei sobre direitos civis para passar e vamos fazê-lo."

Para impedir que a manifestação se transformasse em um enorme tumulto, Kennedy ordenou uma mobilização do aparato de segurança do governo federal sem precedentes fora de períodos de guerra.

Para começar, o FBI (a polícia federal americana) aumentou sua já vasta operação de vigilância ao movimento dos direitos civis, que incluía escutas dos telefonemas de Luther King. O órgão instruiu cada um de seus agentes no país a fornecer informações de inteligência sobre a quantidade de ativistas negros que planejavam ir até Washington e se eles tinham alguma ligação com organizações comunistas.

Outro receio era o de que ativistas negros, que haviam rejeitado as táticas não-violentas de grupos de direitos civis mais moderados, tomassem conta da manifestação. Cerca de 150 agentes do FBI foram destacados para se misturarem à multidão, trabalhando em conjunto com agentes do serviço secreto.

Outros ficavam em pontos de observação dos telhados do Lincoln Memorial, da Union Station (principal estação ferroviária) e do Departamento do Comércio, com vista para o Passeio Nacional - espaço a céu aberto que fica entre o Capitólio e o Monumento de Washington. 

Na sede do FBI, que o então diretor J. Edgar Hoover temia ser atacada por manifestantes, a segurança também aumentou. Funcionários foram instruídos a sentar longe das janelas.

Semanas antes da manifestação, a perspectiva de violência também preocupou o departamento de polícia de Washington, que ficou em seu mais alto estado de alerta. O órgão preparou 72 possíveis cenários de desastre e uma resposta para cada um deles.

O fato de que três lados do Lincoln Memorial eram próximos da água facilitava a situação para a polícia. Mas cada esquina de Washington também foi protegida. Na colina do Capitólio, uma fila de policiais, distantes 1,5 metro uns dos outros, rodeava o Congresso.

Um policial ou um membro da guarda nacional estaria posicionado em cada canto do centro financeiro para garantir a segurança em caso de saques. Para reforçar a presença da polícia, centenas de oficiais extras foram trazidos de forças de áreas vizinhas, e foram especialmente treinados para lidar com os protestos.

Apesar da grande mobilização, cães de guarda permaneceram em seus canis. Várias imagens dos protestos de Birmingham em maio, nas quais fotógrafos de jovens manifestantes foram mostrados sendo atacados por cães agressivos, chocaram tanto os americanos brancos, que a presença dos animais poderia facilmente incitar uma má reação da multidão.

Por causa das muitas prisões esperadas para o dia, um time de juízes locais foi mantido nas salas das cortes da cidade. Na prisão do distrito de Columbia, 350 detentos foram evacuados para criar espaço para os possíveis manifestantes presos. Cirurgias que estavam agendadas na região metropolitana de Washington foram canceladas para que 350 leitos ficassem disponíveis para emergências durante os manifestos. O hospital geral da capital chegou ao ponto de decretar um "plano nacional de desastres".

Aparato militar

A vida em Washington foi completamente interrompida com a possibilidade de protestos. Repartições públicas fecharam e funcionários federais foram recomendados a ficar em casa. Também foi decretada uma "lei seca", não permitindo a venda de bebidas alcoólicas pela primeira vez desde do chamada "Prohibition" (Proibição) - decreto do governo americano que proibiu a venda de álcool entre os anos de 1919 a 1933, em um movimento para garantir a "saúde pública e moral" da população.

O receio de uma marcha possivelmente violenta também preocupava seus próprios organizadores. O movimento era liderado pelo carismático Bayard Rustin, que decidiu atuar bem de perto da organização para garantir que ele fosse um movimento pacífico.

Os organizadores concordaram em antecipar o horário de início da marcha para que os manifestantes não ficassem nas ruas depois de escurecer. Ainda mais difícil foi a decisão de mudar o local da concentração da marcha. O plano original para o protesto em massa nas escadarias do Congresso americano foi engavetado. Em vez disso, eles escolheram o Lincoln Memorial , uma área mais fácil de organizar as pessoas com menos tensão política.

Mesmo depois de quatro semanas de planejamento meticuloso, os oficiais da administração de Washington não puderam descartar o risco de violência. Assim, no dia da marcha, no distrito de Columbia, o presidente ordenou que fosse estabelecido um centro de operações militares - o maior da história dos EUA em tempos de paz. Logo no início da manhã do dia 28 de agosto, cinco bases militares montadas em áreas afastadas do centro da cidade já estavam com grande atividade, com veículos pesados de guerra e 4.000 soldados organizados na operação batizada de "Inside", pronta para atuar.

Para os fortes de Myer, Belvoir, Meade, além da base marinha de Quantico e da estação naval de Anascotia, foram trazidos 30 helicópteros com rápida capacidade de decolagem. No forte Bragg, na Carolina do Norte, 15 mil homens da força especial denominada STRICOM foram posicionados em sobreaviso, prontos para serem levadas à área dos confrontos pelo ar.

Se a violência se disseminasse, a rapidez com que as tropas chegassem a Washington seria essencial. Todas as proclamações presidenciais, ordens executivas e cartas de instrução militar foram preparadas antecipadamente. Se os protestos começassem, a Casa Branca emitiria uma proclamação presidencial exigindo que os manifestantes se dispersassem imediatamente.

Se a violência persistisse, o presidente assinaria uma ordem executiva autorizando o Pentágono (o departamento de segurança nacional dos EUA) a tomar "todas as medidas necessárias" para dispersar a multidão. Um memorando confidencial, demonstrava bem isso: "(A) intenção de utilizar a mínima força não deve prejudicar o fim da missão".

Em resposta ao possível deterioramento da situação, tropas utilizariam primeiramente rifles não carregados como forma de intimidação, com baionetas acopladas (parte cortante fixada às armas).

Se isso falhasse, gás lacrimogênio poderia ser utilizado, assim como rifles carregados com munição. A missão ganhou o nome de Operação Washington. Tão pesado era o arsenal militar, que um repórter observou à época que "a cidade foi transformada da capital da nação em tempo de paz para uma nação em guerra".

Dia 28 de agosto

Em toda a manhã do dia 28 de agosto, enquanto manifestos ganhavam forma do lado de fora de sua janela, o Presidente Kennedy permanecia seguro dentro da Casa Branca liderando uma reunião com estrategistas em política internacional para discutir a guerra do Vietnã. Antecipadamente à marcha, ele tinha resistido às exigências de Martin Luther King e demais líderes das chamadas "Big Six" (grandes seis) organizações de direito civil de recebê-los em audiência naquela manhã, já que ele não gostaria de ser identificado como um líder muito próximo das manifestações que poderiam se tornar violentas.

Seus conselheiros também estavam preocupados com a possibilidade de que os líderes negros chegassem à Casa Branca com uma lista de requisições nada razoáveis, impossíveis para o presidente realizar. Se eles deixassem o salão oval da casa presidencial sem um acordo, toda a demonstração nas ruas poderia mudar drasticamente. 

Para desapontamento dos organizadores da marcha, Kennedy decidiu ser contra a iniciativa de enviar aos manifestantes uma mensagem presidencial, temendo que isso pudesse provocar manifestações contra ele no "Mall" - área pública que circunda a Casa Branca. Em vez disso, ele concordou em receber uma delegação de líderes negros na Casa Branca somente depois que a marcha terminasse, com a esperança de que isso abrandasse a retórica contra ele.

Como precaução extra contra pronunciamentos inflamados - e também para prevenir os subversivos de tomar o controle do sistema de anúncio presidencial - um oficial da administração foi posicionado do lado direito do Lincoln Memorial com um interruptor para desligar o equipamento de som e também com uma vitrola de tocar discos. Se os manifestantes conseguissem tomar o palanque do microfone, o som seria cortado e a música "Ele tem o mundo todo em suas mãos", cantada por Mahalia Jackson, seria tocada no lugar.

O discurso histórico

Às 13h40, a asa oeste da Casa Branca acomodava uma pequena televisão no salão oval por meio da qual Kennedy começou a assistir King pouco antes de ele começar a falar. De pé e posicionado bem no meio da escadaria do mais magnificente púlpito que a América poderia oferecer, o orador pairou o olhar sobre o imenso "mar" de 200 mil manifestantes que se aglomeravam nos dois lados do espalho d'água até além dos limites do Mall, chegando ao Monumento Washington.

Milhares também formavam uma multidão nas áreas laterais do gramado, enquanto outros se mantinham na água da piscina com água até os joelhos para amenizar o calor. Outros ainda cantarolavam amontoados nas árvores expostas à brisa de fim de tarde. Eles não estavam apenas cantando, mas rezando, se abraçando, dando risadas e aplaudindo.

Com a imponente estátua de Abraham Lincoln pairando sobre ele, King então começou a falar para os manifestantes que sua presença à sombra simbólica do "grande emancipador" oferecia uma prova maravilhosa de que uma nova ordem estava se espalhando pelo país. Por muito tempo, ele reclamou do fato de os americanos negros serem exilados na sua própria terra, "paralisados pelas amarras da segregação e das correntes da discriminação".

Seria fatal para a nação "não vislumbrar a urgência do momento e subestimar a determinação do negro".

Sofrendo com o calor sufocante, a primeira reação dos manifestantes foi o silêncio. O discurso não estava indo bem.

"Fale para eles sobre o sonho, Martin", gritou Mahalia Jackson, se referindo ao já conhecido artifício de discurso utilizado por King muitas vezes. A mensagem não havia entrado no discurso planejado por ele, porque seus assessores insistiram em material novo. Mas King decidiu deixar de lado suas anotações e adentrou espontaneamente no refrão pelo qual ele será lembrado para sempre na história.

"Eu tenho um sonho de que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado de sua crença", gritou King com seu braço direito levantado para o céu. Rapidamente, ele já estava ganhando seu ritmo vigoroso pela coro emocionado da multidão. "Sonhe!", gritavam eles. "Sonhe!"

Com sua voz alcançando toda a extensão do Mall, King imaginou um futuro em que crianças poderiam "viver numa nação onde eles não seriam julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter". Foi assim que ele alcançou seu caloroso final.

King ainda pediu à multidão para sinalizar se estavam ouvindo bem.
Assistindo na Casa Branca, o presidente Kennedy estava imóvel. Como muitos americanos, esta foi a primeira vez que ele ouvira o discurso de um orador de 34 anos em sua totalidade - pela primeira vez ele avaliou seu método e ouviu sua cadência. "Ele é bom", disse Kennedy para um de seus assessores. "Ele é muito bom". Entretanto, o presidente parecia ter se impressionado mais pela qualidade da performance de King do que pelo poder de sua mensagem.

Mas a mensagem era vital. King fez um poderoso discurso pela mudança racial de forma não-violenta. E fez isso com tanta eloquência e poder que a mensagem reverberou não apenas no Mall de Washington, mas também na sala de estar dos americanos. Dias terríveis e violentos se seguiram. Ainda assim, mesmo com toda a preocupação com a segurança antes do manifesto, 28 de agosto de 1963 foi um dia incrivelmente belo.

Sem confrontos, a marcha provou-se um alívio para a polícia. Até o cair da tarde, houve apenas três prisões, todas envolvendo brancos. No evento, a única ameaça para a polícia não veio de um manifestante desordeiro, mas do frango distribuído mais cedo naquela manhã, que não havia sido refrigerado adequadamente. Pouco depois das 16h, o chefe da polícia emitiu sua mais importante ordem do dia: nenhum dos oficiais deveria, sob qualquer hipótese, tocar no frango que fora preparado para o jantar.

Aos pés do Lincoln Memorial, Martin Luther King e seus colegas foram colocados em uma caravana de limousines oficiais que bem devagar cruzaram por entre a multidão no trajeto até a a Casa Branca.

Kennedy então recebeu os líderes negros com cumprimentos e repetiu o sonoro refrão que elevou o movimento de direitos civis a um novo plano espiritual: "Eu tenho um sonho".

E assim, ele encaminhou todos ao salão oval.
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martes, 27 de agosto de 2013

Vão todos tomar no cu, n'A Charge do Dias

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Tarde cinzenta, fria e molhada na capital dos gaúchos. Os empinantes estiveram enfiados na sinuca desde às duas da tarde, quentinhos, jogando Vida com matada e bebericando. 

Para quem não sabe o que é a Vida, primeiro, lamentamos profundamente que o parceiro tenha perdido essa parte enquanto lia livros do Paulo Coelho ou de outros imbecis, que abusam do seu ínfimo..., nem é intelecto, é falta de "fragolino". Te flagra.

Esqueça isso, desculpe, mea culpa, mas a culpa não deve ser só minha, deve ser também do governo, dos teus deputados e senadores, afinal, se vocês comem merda ou andam de Mercedes comendo caviar, rindo dos vileiros, ô gente fina, dividem miséria, o cérebro é o mesmo, embora a barriga de uns se sintam melhores que outras. Afinal amam jornais e revistas de predadores, uns, o José Dirceu, outros, a Veja, a maioria. O que me move não é ideologia, parceiro, são meus olhos. O cenário está à vista de todos. Não vê quem não quer. O assalto, a empulhação, a falta de escolas para os teus filhos está à vista. A mentira, o engodo. A matança.

Os dos ladrões de grandes comissões de metrôs, os nossos diplomatas, filhos de canalhas, estudam em Harvard, como se aquela mentira tivesse o condão de tornar bons cérebros ruins.

Querem se libertar? O verbo no plural estende a questão, antes era só um leitor do Paulo Coelho ou aficionado da Globo Barbárie, agora senti que aumentou, sigo no plural, vai que sejam mesmo. Sugiro começarem por Aristarco, o de Samos, não o do bar, este Aristarco de Serraria, aludindo ao bairro onde morou em Porto Alegre, que vê tudo girar ao seu redor quando é desprezado ou não se acerta com este mundinho, ou simplesmente quando sonha, embora sejam poucas as diferenças que os separam, a maior a tecnologia, o nosso Aristarco possui armas de fogo, ainda que as deteste, e o de Samos tinha uma heliocêntrica. Os dois são inteligentes de nascença, e sofrem, o antigo acertou o tamanho da Lua há 2.177 anos, riram dele; o nosso enquanto gira sobre si mesmo sabe o tamanho do Futuro, e quem quer ouvi-lo? 

Mania de mudar de assunto... Ah.

Segundo, no jogo da Vida as bolas são de um a quinze, e se precisa atingir 80 pontos para vencer. Sorteia-se um papelucho enrolado com um número, de um a quinze, a cada um dos participantes. Nota-se aí que mais de quinze jogadores não pode, capiti? Se o amigo pegar o papel com o número 10, segredo só seu, precisará somar 70 pontos para ganhar o jogo, se alguém não ganhar primeiro. No quadro verde do botequim, as iniciais dos participantes, a cada um são atribuídas três vidas, representadas por três xis: XXX. Nada a ver com o grau da sífilis dos nossos deputados. A cada cesta que o amigo sofrer de estouro no canto, adeus uma Vida. Se alguém chegar aos 80 na soma do papel e das bolas que fizer, bate a Vida, matando todo mundo, se estiverem por uma. Complicou? Estou sem saco de explicar, mas é fácil. Mais tarde, se o sujeito "morrer", foram-se as três, mas se um ou outros sobreviverem, além do ganhador, ele pode reentrar com as vidas do que tiver menos, pagando o dobro, normalmente é uminha, mas a paixão pela vida faz com que pague e entre de novo, todos queremos viver, um sobressalto, uma morte, não nos assusta. No jogo, temos uma segunda chance, uma terceira, sabe-se lá quantas, a depender dos fados e da gente mesmo. A depender da habilidade com um taco, todos sabem pegar, ou da loucura do momento, numa dessas a gente pensa "Tenho 72, meu segredo é 1, vou atirar a sete de fiapo no fundo, daqui de longe, com força, se eu errar vai que caia de gato noutra caçapa, mas vou fazer e faço".

O jogo da Vida é para quem não tem medo de morrer. E gente que não tem medo de morrer não anda agredindo seus semelhantes. Não anda roubando desavergonhadamente, como no Planalto Central do Brasil. O jogo de Vida é outro, para seres de amor.

Se morrer e entrar novamente, paga o triplo, depois o quádruplo e assim vai. A parada acaba indo aos céus, começa-se com 20 reais por cabeça e quando se vê o acumulado está em 5 mil ou mais, se a luta for sofrida. Ganha mesmo quando o sujeito vencer e não restar ninguém com vida, ou seja, os demais só tinham uma, de modo que não há como reentrar. Verbo mudado, eu deveria ter pedido a um dos boêmios para explicar, o fariam mais facilmente, pois não entro em jogatina há muito tempo, me basta esta outra vida de carnes e sangues, lágrimas e ódio. Ódio porque não é certo crianças morrerem de fome, aqui ou na Etiópia, fronteiras não existem, é mentira que os bandidos impuseram.



Ah, se precisa de 80, e já tem na pedra 72 de bolas que encestou, todos os espertos saberão que precisa de 8, que é uma bola somada ao papel que só tu sabe, se este papel for 3, está pifado pela 5. Eles te cuidam, são maus, sabem que menor que 8 será, aí escondem de ti essas pequenas, para fazer a 5 só de bolaço, e bola é como mulher, só pára a feição dos outros, estes adoçantes, aquele papo de te amo querida e de olho no teu cu, o gosto delas, enfim alguém a quem mandar com fingimentos de unhas pintadas, aos seus bichos, seus homens, percepção que te desasa ao perceber o passado da tianga, vendo-a de longe, perto nunca. Paulo Coelho, a falsidade é mútua, pare de mentir a si mesmo. Bruxo?, mas crie vergonha, pare de causar dano aos miseráveis. O dinheiro você entende, já não chega? Que prazer é esse de sentir-se, tomando de analfabetos? Não sente vergonha? O Brasil está cheio de pessoas de amor, sem colar escritores de mil anos... Acha que pessoas cultas, se tivessem estômago, não enriqueceriam mentindo? Acha mesmo? Coitado. Nunca pegou num taco mano a mano, mas um dia verá a febre gelada nos olhos da bruxa que veio te buscar, com métodos rasteiros, idênticos aos teus. 

Ah, eu era muito moça. Mas fica lá longe, eu hein. Vai atrás. Nem morto. 

Amor?


Se fizer a bola 10 por acidente, ao abrir com força as bolas concentradas no canto ou no meio, toda vestida de azul, perde a vida. Marcha, soldado.

No rolar das bolas, andando em torno de uma mesa sem demonstrar quais queremos a partir de certo momento crucial, mirando aquele quadro verde com escritos em giz branco, aprende-se filosofia, covardia, matemática, psicologia, coragem, comete-se erros, arrependimentos, ganha-se amigos, respeito... uma Vida. Mas deixa assim. Vida com "matada" é mais complicada, outro dia explicamos.


Jogo encerrado, às cinco os boêmios vêm lá dos fundos e se instalam nas mesas centrais do botequim, para a escolha das obras do dia. O Contralouco conta o bolo de notas que faturou na Vida, para variar. Bateu três vezes seguidas, daí que durou pouco. É mágico com um taco na mão, a turma de amigos só joga para acompanhar, uma vidinha sem reentrada, os estranhos é que marcham forte, depois de bem temperados. Hoje havia somente dois estranhos, um saltou fora e não reentrou, e o outro era pouco para engordar o tejo, de modo que o boêmio ganhou logo para não judiar dos amigos.

Luciano Peregrino lê as notícias do notibuc: 

- Gente, o Sindicato dos Professores a esta hora deve ter invadido o Palácio do Governo ali na Duque. A Jezebel deve estar no meio.

- Os meganhas que ousem bater nela - falou sério o Contralouco, levantando os olhos da grana.

- Se baterem depois não é só contigo o enrosco, vão ter que se ver com todos nós. Eu ando querendo mesmo dar uns croques num filho da puta desses - falou o próprio Luciano.

- Ô gente pessimista, não vai dar nada, Jezebel tem mais de setenta anos, não vai se jogar a socos nos milicos, segue aí com as notícias - disse Carlinhos Adeva.

- Você parece que não conhece a Jezebel..., disse Tigran Gdanski.

- Mais um senador gatuno sendo investigado, apareceu um caminhão de grana nas contas dos seus parentes. Gente, vamos adotar a idéia do João da Noite: fazer um abaixo assinado propondo que se transforme o Congresso Nacional em presídio, dividido em pavilhões, de acordo com a periculosidade dos indivíduos. Quatro pavilhões para os ladrões, um para os assassinos, acho que a proporção é essa, 4 por 1. Que esse bordel seja trancado e a chave jogada fora, que comam ratos.

- Quanta maldade, tadinhos dos ratos, diz Marquito Açafrão. 

Perdeu de goleada, os boêmios trocam impressões e optam por propor o "paredón".

-  Não adianta, esse povinho covarde não assina, morre de medo, o jeito é passar fogo por conta própria, se cada um de nós pegar uns cinco..., diz Gustavo Moscão.

- Mas essa Dilma tá vulgar e arrogante... foi picada, agora se acha grande coisa. Aquilo que o João falou: se prestando a atacar um funcionário subalterno da embaixada em La Paz. Alguém precisa explicar pra ela que o povo da escuridão, bem conversadinho pelos ricaços, já amou o Collor e o Sarney..., segue Luciano.

- Ei, Dilma! Vai à merda!, grita o Contralouco a plenos pulmões.

- Fica xingando a pobre da Dilma..., e os Malufs, Serras, PTB, PR, a Veja, os predadores chamados grandes empresários por atolar sem cuspe no povinho, toda a extrema-direita, os nazistas, não vai nada?, disse Wilson Schu.

- Esses quero trancafiados, com a Dilma só estou discutindo, para abrir os seus olhos, amiguinha de mensaleiros comigo não forma, mas ainda estou lhe dando uma última chance, respondeu o Contralouco.

- Este cara só pode ser amiguinho de alguém... O Banco Nacional de Desenvolvimento entregou 6 bilhões do nosso para o Eike Batista...

- Ei, Eike Batista, vai tomar no cu!, berra de novo o Contralouco, alcançado pelos demais na altura do "vai tomar", o clamor chama a atenção das pessoas que passam na rua. Um velhinho, dobrado pela idade, enfia a cara na janela do bar e, com a voz fraquinha, repete a saudação.

Jussara do Moscão e Silvana Maresia, chegando ao bar, sorriem enquanto fecham os guarda-chuvas lá na porta. Estavam na Praça defronte ao Palácio do Governo. O Contralouco as olha com uma ruga de preocupação, a Jezebel não veio. Elas dizem que não viram a companheira.

Nicolau Gaiola faz o de sempre: aguenta um pouco e depois reclama das notícias do notibuc:

- Se continuarem com esses assuntos eu vou embora...

- Gente, há muitas charges boas, vamos ao que interessa. Algumas falam dos discípulos de Hipócrates, os médicos estrangeiros, e dos hipócritas daqui, hipócritas é pouco: egoístas, ladrões e desequilibrados, disse Luciano. Opa, só mais uma: - No Rio de Janeiro fecha o tempo, os milicos agredindo os manifestantes em frente à Assembléia...

- Ei, Lula, vai tomar no cu!, Fernando Henrique, vai tomar no cu!, Fortunati, vai tomar no cu!, Cabral, vai tomar no cu!, vão todos tomar no cu!, berra o Contralouco repentinamente. O velhinho novamente o acompanha lá da janela, empolgado, óculos caindo.

Todos olham espantados para o Contra.

- Não foi nada, pessoal, só me deu vontade de desopilar, esclarece risonho, e acrescenta: - Portuga, pode servir a todos, vinho tinto e dyabla verde, o trago é por minha conta, a Vida deu 400 paus! O senhor aí da janela, entre, meu vô, hoje vamos tomar todas, por favor, a porta é ali...

E caminhou para pegar o ancião à entrada.

- Pronto, vai matar o véio - murmurou Jussara.

- Para o meu querido convidado, um cafezinho, Portuga!, disse Bruno Contralouco, emocionado. 

O velho avô lembrou-o de alguém mais novo.


Ficaram com:

Ikenga. Outro clamor, agora puxado por Gustavo Moscão, mandando os que estão a pé tomarem naquele lugar.



Duke. De novo, mandando os médicos brasileiros.



Sponholz. Para não perder o embalo, mandaram o Pinto e o Morales também. Eta gente que se diverte.



Leilinha Ferro ficou com o Nani. Os personagens, homenageados anteriormente, o foram novamente.




A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.

A pátria envergonhada

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A ridícula, muito mais que tímida, atuação do chanceler brasileiro no caso Snowden (AQUI), ainda que, supõe-se, cumprindo ordens da Presidente, já havia exposto que algo ia muito mal. Talvez, entre outros, lhe faltasse um dos talentos do anterior, a conformação e entrega ao guia supremo. 

Quem ordenou o faz de conta na embaixada brasileira na Bolívia, se não a Presidente e/ou seus assessores diretos? Quem levou o diplomata Eduardo Sabóia ao gesto extremo de sair da Bolívia em fuga desesperada, se não o governo brasileiro? Não ousem agora trucidar o homem, ele implorou por uma providência (600 telegramas! Sem contar outras gestões que realizou), e foi premeditadamente ignorado. No mínimo, o Sr. Sabóia deveria ter sido removido de La Paz,  e ele alega ter chegado ao ponto de pedir remoção. Quem fugiu às suas responsabilidades não foi ele.

Que o cidadão asilado é o que há de pior na direita sul-americana até as pedras sabem, mas o asilo lhe foi concedido. Erraram lá atrás, ao acolhê-lo? Aguentem. Hoje a bem informada colunista da Folha diz algumas palavras, mas muita água ainda vai rolar dessa torneira estragada. Só não vale envergonhar ainda mais a pátria, devolvendo o homem.

A gota d'água

Por Eliane Cantanhêde

O chanceler Antonio Patriota não tinha para onde correr. Se dissesse que a operação para retirar o senador Roger Pinto da Bolívia tinha sido articulada pelo Itamaraty, teria de admitir que a ameaça de inquérito era só teatro. Ao alegar que o diplomata Eduardo Saboia tinha agido por conta e risco, admitiu que não tinha comando sobre a diplomacia.

A insubordinação de Saboia, porém, foi apenas a gota d'água, pois Patriota era um típico caso de pessoa desconfortável dentro da própria casa e do próprio cargo e que jamais chegou a ser assimilado e respeitado por Dilma como chanceler.

Apesar de primeiro de turma e de bastante respeitado intelectualmente, Patriota foi derrotado pela própria personalidade, excessivamente cautelosa, até um tanto medrosa, incompatível com o estilo duro, às vezes agressivo, de Dilma.

Ele foi escolha pessoal de Dilma, mas o casamento nunca engrenou e a política externa do novo governo jamais teve uma marca, atolada em perda de protagonismo, em notas oficiais amorfas, em manifestações desimportantes.

Foi-se a era excessivamente afirmativa e polêmica de Celso Amorim no governo Lula, veio a era demasiadamente em cima do muro e sem rumo de Patriota no governo Dilma.

A própria Bolívia é um festival de exemplos, ora inspecionando o avião oficial do ministro da Defesa do Brasil, ora jogando cães farejadores em outro avião oficial com parlamentares do Brasil, por fim negando-se a conceder o salvo-conduto --instituto previsto em tratados e respeitado pela tradição no continente-- ao senador asilado na embaixada brasileira. E qual foi a reação do Itamaraty? Sempre cedendo, indiferente.

A reação um tanto esdrúxula do diplomata Saboia não foi um gesto pequeno. Foi um enorme gesto de coragem que expôs toda a covardia da política externa, que ganha no novo ministro, Luiz Figueiredo, a expectativa de menos mesmice e mais ação.
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lunes, 26 de agosto de 2013

Bienvenidos, hermanos, n'A Charge do Dias

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A banda colorada do botequim (todos os boêmios, menos dois), enfastiada com a peneira que é a defesa do Internacional, começou os trabalhos com o envio de um abraço a Pablo Guiñazú, pelos seus 35 anos hoje completos. Alguns poucos acham que é o goleiro que é fraco, porém a maioria responsabiliza do número 1 ao 5 e o sujeito que os escala, este, estranhamente, um ex número 5 porradão, deveria sentir a carência. Os mais velhos passam a recordar Tovar, Caçapava, Batista, Falcão... Que triste sina. Alguém fala em Manga e Figueroa e Clóvis Baixo ameaça ir às lágrimas. Jezebel do Cpers pergunta se em Cuba não há centro-médios, bem que se poderia tentar importar um.

Luciano Peregrino os convoca a escolher as charges, estão em débito com este blog.

J. Bosco.



Sinovaldo.



Renato.



E Duke.




Leilinha Ferro ficou com o Morettini.



A coluna A Charge do Dias leva esse título pelo seu idealizador, o mestre Adolfo Dias Savchenko, que um belo dia se mandou para a Argentina, onde vive muito bem. Sucedeu-o na coordenação a jovem Leila Ferro, filha do Terguino, quando os boêmios amarelaram na hora de assumir o encargo. Antes eram dois butecos, o Beco do Oitavo e o Botequim do Terguino, que.., bem..., se fundiram  no ano passado (veja AQUI), face a dívidas com o sistema agiotário. O novo bar manteve o nome de um dos butecos: por sorteio ficou Botequim do Terguino, agora propriedade dos ex-endividados António Portuga e Terguino Ferro.

Falam "Pablo Catatumbo" e "Iván Márquez"

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Como em nossos belos jornais nunca se lê uma linha que não seja ditada pelos Estados Unidos, hoje falaremos espanhol de uma parte em diante.

Depois de 600.000 mil mortos em mais de 50 anos de luta na Colômbia, com os terroristas norte-americanos - os maiores consumidores de drogas e exportadores de armas do mundo - impondo sucessivos governos de extrema-direita em seu insano propósito de estabelecer na América do Sul o sistema que antecedeu a Revolução Cubana, hoje foram retomadas as negociações de paz iniciadas em Havana, em jogo cinco pontos: política agrária, participação política da guerrilha, drogas ilícitas, abandono das armas e indenização das vítimas. Na entrevista abaixo, de maio de 2013, Jorge Torres Victoria (também chamado de "Pablo Catatumbo", cuja cabeça vale 2,5 milhões de dólares para os terroristas) e Luciano Marín Arango ("Iván Márquez", recompensa de 5 milhões de dólares), falam a Marisol Gómez Giraldo. As palavras finais são contundentes.

Los líderes guerrilleros admiten que debe llegar el reconocimiento de las víctimas y el perdón.


Por: MARISOL GÓMEZ GIRALDO do El Tiempo

En esta conversación, los dos hombres fuertes de las Farc en los diálogos de paz de La Habana, ‘Pablo Catatumbo’ e ‘Iván Márquez’, dejaron salir un tema hasta ahora evitado públicamente por el grupo guerrillero: la necesidad de reconocer a las víctimas, de “lado y lado”, y pedir perdón.

A su debido tiempo, claro, se afanan a decir los dos. Y es ‘Catatumbo’ el que se arriesga a hablar de la manera en que entiende el tema esta guerrilla: no es a un pedido de perdón “unilateral” a lo que deben llevar estos diálogos, dice. (Lea también: Día clave para un histórico acuerdo sobre la tierra).

Lo afirma cuando les pregunto por el perdón que, a través de EL TIEMPO, les dio a las Farc Constanza Turbay Cote, la única sobreviviente de esta familia liberal del Caquetá, asesinada por el grupo guerrillero. Esto, en medio del debate entre el Procurador y el Fiscal por lo que debe o no perdonárseles a los jefes guerrilleros como resultado del proceso de paz.

‘Catatumbo’ –el hombre de los contactos que llevaron a los diálogos con el gobierno de Juan Manuel Santos– parece más dispuesto que ‘Márquez’ a dejarse ver por dentro, tanto en las respuestas formales como en la conversación informal.

‘Márquez’, el primero del Secretariado de las Farc en llegar a la negociación de paz, y quien al comienzo se oponía, parece evitar las palabras que dejen ver más allá del hombre político que es por esencia. Pero las deja salir sin prevenciones cuando la entrevista toma el rumbo de un diálogo informal.

¿Les dice algo el perdón de Constanza Turbay Cote a las Farc?

‘Márquez’ guarda silencio. ‘Catatumbo’ toma entonces la palabra: “A mí me parece un gesto de nobleza. Esta guerra nos ha tocado a todos. Por eso digo que cuando hablemos de victimarios, pongamos el rompecabezas en la mesa. El análisis unilateral en este tema olvida que todos somos víctimas del conflicto. La familia Turbay ha sido tocada y la nuestra también. Recuerde que una hermana mía fue asesinada por Carlos Castaño, un hermano murió en la guerrilla y yo fui torturado por el Ejército y por el Mas (Muerte a Secuestradores). ‘Iván’ (Márquez) tiene hermanos asesinados y cada uno en la delegación de las Farc tiene estas historias”.

En ese contexto, este proceso de paz tiene que pasar por un acto de contrición general. ¿Para cuándo ven las Farc ese momento?

“Dejemos que llegue a la mesa, pero este tema tiene que ser abordado, responde ‘Catatumbo’ antes de que ‘Márquez’ anote: “Todo tiene su tiempo” y “no debemos apresurarnos”.

‘Catatumbo’ vuelve al perdón de Constanza Turbay Cote para decir: “Ojalá todos tuviéramos esa actitud. Nosotros hemos dicho que no guardamos rencor personal contra ninguno. Por eso nos podemos sentar amablemente con dos generales que han sido duros en la confrontación”.

Se refiere a Jorge Enrique Mora Rangel, excomandante de las Fuerzas Militares, y Óscar Naranjo, exdirector de la Policía, que hacen parte de la delegación del Gobierno Nacional en los diálogos.

Ya que hablan de militares, ¿ven al final de este proceso también el perdón para los que han cometido ‘falsos positivos’?

‘Márquez’ insiste en que me adelanto a los temas. ‘Catatumbo’ vuelve a tomar la palabra: “Es que esta no es una confrontación alimentada por odios personales, es un problema político complejo, que no se resuelve con perdones. Si la paz se hiciera diciendo ‘yo pido perdón’, pues ya. Eso puede contribuir, pero no resuelve nada. Es un problema histórico y tiene que ser abordado desde esa óptica. De lo contrario, se llega a fines superficiales”.

Como ustedes me piden que no me adelante, vamos entonces a un tema que han mencionado esta semana, el de la participación política.

‘Márquez’ responde de inmediato que están listos: “Estamos preparados y comprometidos en llegar hasta la solución política del conflicto. Créanos cuando decimos eso. Y hacemos grandes esfuerzos por mantener la fe y la esperanza de la gente en que por fin vamos a tener la reconciliación”.

Pero la paz no es un acto de fe. Son los hechos los que cuentan...

“A la paz también hay que ponerle pasión, anhelo”, dice ‘Márquez’. ‘Catatumbo’ interviene para anotar: “Que nos dejen hacer política y verán que le explicamos al país todo esto”.

Precisamente, en el foro que hubo en Bogotá, movimientos y partidos coincidieron en pedir una reforma electoral que abra la participación política, pero ustedes insisten en una asamblea constituyente...

‘Márquez’: “Es la única fórmula que nos permitirá rodear de certezas el proceso de paz. Lo rodea también de legitimidad, la que le da el constituyente primario. El poder constituyente está por encima de los poderes internacionales que pretenden interferir en nuestros asuntos internos”.

¿Está pensando en la Corte Penal Internacional?

‘Márquez’: “A nosotros no nos desvela la Corte Penal Internacional”.

A ustedes solamente les da tranquilidad una asamblea constituyente, pero el presidente Santos no la considera y habla de refrendar los acuerdos con mecanismos como el referendo...

“Al final todos vamos a llegar a la constituyente”, afirma convencido ‘Iván Márquez’ y ‘Pablo Catatumbo’ lo respalda diciendo: “Por lomenos vamos a llegar a esa conclusión. Un referendo no es obligante, no da garantías de que los acuerdos de paz perduren. Una constituyente es un tratado”.

Pero no es tan segura como ustedes creen. La prueba es que la Constitución de 1991 ha sido cambiada varias veces.

‘Catatumbo’: “Porque en la Constitución del 91 no estuvo toda Colombia. Faltamos nosotros, tenga en cuenta ese detalle”.

De todas maneras la Constitución la cambian. Por ejemplo, el expresidente Álvaro Uribe logró modificarle un “articulito” para su reelección.

‘Catatumbo’: “¿Pero qué tal que la misma constituyente establezca unas normas pétreas? Algunas, no todas. Por eso le digo que no hay que adelantarse”.

El coco de los tiempos

A estas alturas del diálogo y para ratificar que, a pesar de las dudas del país sobre la voluntad de la guerrilla, “sí están comprometidas con la paz”, ‘Márquez’ cuenta que ellos están trabajando duro y durmiendo poco. “Para que vea: ¡Todos los días nos acostamos como a la una de la mañana y nos levantamos como a las 4!”, anota.

Fue ‘Márquez’ el que, desde su primer día en el proceso de paz, en Oslo, llegó diciendo que “la paz exprés solo conduce a precipicios”. Pero ‘Catatumbo’, el segundo del secretariado de las Farc en integrarse a la negociación, también pide tiempo para los diálogos.
Los dos jefes guerrilleros dicen no entender el afán del país por ver resultados del proceso de paz, que el domingo pasado completó seis meses sin un acuerdo en el primer punto de la agenda, tierras. Hoy, finalmente, habría un anuncio al respecto en Cuba (ver nota arriba).
‘Catatumbo’ se apura a explicar por qué, como afirma ‘Márquez’, no deben exigirles “la velocidad del Giro de Italia”.

“Cuando decimos que no a una paz exprés queremos decir que, si esto se arregla mal, seguiremos en lo mismo. Y eso no le sirve a Colombia. ¿Por qué hubo 47 guerras civiles en el siglo XIX? Porque se hacían arreglitos que no resolvían nada. Hay que hacer pedagogía para que la gente entienda esto. Por eso decimos que nos den tiempo”, añade ‘Catatumbo’.

Los dos ponen como ejemplos el proceso de paz de Guatemala (que duró 6 años), el de El Salvador (2 años y medio) y hasta el de Filipinas con la guerrilla musulmana (que lleva 15 años, con tres interrupciones graves). “Nosotros vamos a paso lento, pero firme y seguro”, remata ‘Márquez’, quien reclama, cada vez que puede, que el proceso de paz se haga con “la verdad pura y limpia”.

“Es la mejor manera de persuadir –argumenta–. ¿Para qué tanta estrategia y tanto artificio? Con las Farc no sirve eso. Que pongan la verdad sobre la mesa”. De pronto, ‘Márquez’ deja de comportarse como político y habla de su familia: “A mi mamá y a una hermana las secuestraron, en Neiva, gente de Inteligencia, y una hora y media después, en la vía a Flandes (Tolima), las montaron en un helicóptero, las llevaron a Urabá y se las entregaron a Carlos Castaño”. Fue para la época en que el jefe paramilitar secuestró también a la hermana de ‘Catatumbo’, que terminó muerta, y a un hermano de ‘Alfonso Cano’.

El jefe guerrillero también recoge los recuerdos sobre su hermano asesinado en Morelia (Caquetá): “Le sacaron los ojos, las uñas, y lo lanzaron por un puente”. Y termina diciendo: “Si vamos a hablar de víctimas, víctimas tenemos todos”.
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