sábado, 22 de junio de 2013

Adeus, Dolores Sierra

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Hoje Dolores Sierra me telefonou de Barcelona. Para romper. Eu quase pedi que não. Quem não vê cara não vê coração, mudando o lero, lei desta vida de sangues, gritos e fezes. 

Mandei recado, pedi que me ligasse, vou pagar a ligação. Eu respeitoso, a custo controlando o nervosismo, não podia ligar, poderia estar ocupada. A gente pensa nos problemas da pessoa, imagine ligar numa hora em que está cercada de bandidos e com desconfiança dos guardas que a protegem, São Paulo é fogo e ela não é uma moça atendente de padaria de luxo, mesmo estas meninas andam ali, patrão de olho. Ela corria risco de vida. 

Veio com o lero de sempre: não quero mais, nunca gemi contigo, os passeios de mão foi porque eu estava dando um tempo até vir o cara lindo de carro que eu gostava, foi um tempo bom que agora acho que foi ruim. E caprichou na insistência: não pense que tenho alguém, não tenho, só trabalho, mal tenho tempo de tomar banho. 

Certo, entendido. Nada perguntei, mas não me insulte a inteligência.

Entendi mesmo, e ao entender lembrei de uns vinte boleros.

Que deus que não existe me ajude, pois estou falido, sem ninguém, amigos sumiram há anos, cortam esquina, agora não por doença e sim pelas dívidas. Viajarei sozinho para longe, mas me deu uma coisa. Eu com fé perdida há muito tempo pela destemperança e egoísmo e ciúmes de gentes..., ah, sei lá, de gentes, não a pobre deusa azul que precisa de barba e promessas de... sei lá, viver, homem perto, grana nunquinhas, deus nos livre, ela não é assim.

Ela é de fé, sinceridade, não a encontrei se oferecendo por aí. Precisa respirar somente, vida ruim exaure as defesas da pessoa, tadinha, precisa ser feliz, seja lá o que signifique ser feliz.

Ao ensopar o travesseiro, envergonhado de mim mesmo dos soluços, gritos, meu Deus, os vizinhos..., de repente me lembrei. A gente supera horrores e depois esquece, em defesa inconsciente guardando aquela marca num cantinho do cérebro, aqui ninguém toca.

Lembrei-me, sim. 

Lembrei-me que ainda menino de 21, maltrapilho em ruas, bibliotecas e hospitais, os horrores, a luta para não entregar os pontos así no más, quantos desejos de namoros de longe, as moças dançando frenéticas as músicas da moda, norte-americanas, eu imaginava fossem inteligentes, puxa, que beleza, e não umas coquetes frívolas. Nunca me olharam. Ainda bem. E lembrei que sobrevivi e acabei em outras camas, lindas, queimando a minha vida em fumaças de cigarro com formas de mulher.

Dolores era diferente. Eu gostava dela, tanto, tanto. Gostava nada, gosto ainda. Eu queria me casar com ela. Mas a distância, o gavião calçudo... amoroso, sim, querida, te entendo, aí, meu irmão, me fodi do primeiro ao quinto.

Ela entregou os pontos ante a adversidade, e por exigência da febre pela distância. E mente, defesa Petrov comum. Entendo.

Nunca me amou, provado está, o que não é defeito, talvez tenha tentado comigo por falta de tu vou de a pé contigo mesmo. Não perdeu nada, pois de fato sou um boboca, sonhos, igualdade, passeatas, desmontando, lubrificando e montando a arma para matar em sonhos o congresso nacional, e ela lá, lubrificada e muito longe, a distância complica lubrificação, e eu apavorado, queria... mas a passagem é cara e o desgosto dos infantes egoístas é fatal.

Daí que dei de lembrar do passado, da mesma fumaça em forma de mulher. Daquele amanhecer, a moça me abraçando à janela da rua Santo Antônio, dizendo sabe guri, estou aqui porque tenho um menino, queria tanto que você fosse mais velho para me tirar, e eu respondendo no dia em que eu puder sair te levo.

Lembrei-me, sim, que foi na adversidade que me tornei caravana.

Um dia volto da longa e tortuosa viagem.

O bolero é de um elepê que uma das minhas irmãs perdeu enquanto eu morria. Meu querido disco da meninice, eu que colecionava antiquos originais que ninguém queria, servem pra nada, a moda é rock. 

Ora, meu, não pense, tome uma cerveja, anda arrumar a mala, tu disse que um dia volta.

Luciano 










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