domingo, 21 de abril de 2013

Os Filhos da Puta (2)

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Itamar sonha novamente, turbilhão. No sonho o Cândido - e lá de pronto surge um monstro advertindo que Deus não o perdoará por sugerir candura, aquele notório, contrata o Grande Advogado por cinco milhões - que vá a merda quem perguntar de onde tirou tanto - e faz churrasco no domingo, acende com notas de cem o carvão bem relacionado em frigoríficos de atuais empreiteiros. Duas pedrinhas e folhas ou gravetinhos finos, otário, ou uma folha de jornal e gravetos, ou só gravetos. Estarão molhados os gravetos?, quem sabe acende mesmo sob chuva torrencial, mas que vida, nem as de cem o transformaram num bom assador, o cretino, só viu boi em desenho animado, antes foi flagrado berrando, de dentro do carrão especial, para um escravo paulista, na verdade um nordestino humilde: volta lá no açougue já, já!, seu desgraçado!, essas são pequenas, quero picanhas bem grandonas! Lá dentro do açougue, todo mundo vendo e ouvindo o canalha e seus impropérios. Desceu do automóvel e seguiu ofendendo. Descontou nas costas do pobre cidadão os berros que ouvia ao rastejar em palácio e no congresso, melhor conúbio nacional, é sempre assim. Surtiu efeito, os açougueiros capricharam em picanhas de três quilos cada uma e ele saiu com setenta quilos de coxão duro no porta-malas, exultante, eu sou o cara, por dentro o risinho de raposa, não mais vaca, ui vou agradar o chefe que me permitiu ser podre de rico. 

Na Capital dos filhos da puta picanha passa de um quilo, oigalê terra de bois grandes e velhos, guampa seca e osso carcomido; aqui, quando dá um quilo dá fraco. Mas compreende-se, lá picanha é proporcional. Boi foi touro, é capado, serve bem a comparação. Não levou as pontas finas, não percebeu que o açougueiro as tirou com raiva. O açougue deveria mas não explodiu em risos, a dor foi maior. Um sujeito desses, vestindo calças...

O moço do fundo do açougue chaireia a faca de matar boi, porco, ovelha, boi com a ponta da lâmina, um, dois dedos na entrada da veia, depois puxa rasgando de leve, o bicho em pé, não sente, o sangue esguicha, depois jorra mais manso, minutos intermináveis, falseia as pernas, vai desabando aos poucos, quem sabe essa faca um dia possa servir para castrar os novos ricos do poder, os antigos estão fora de alcance mas voltarão, enquanto aguardamos podemos ir treinando com os novos, está doido para sair do sério, e para tirar o pelo, começando por riscar a pata, por ora segue olhando magoado a prepotência de um asno em auto do governo. Na república só quem come carne são os ladrões - e o açougueiro, que guarda para si o pesçoco cortado, a incisão inchada -, o povinho segue lá abaixo do barranco do Nome da Rosa.

O seu Itamar pensa meu Deus tenho cada sonho de arrepiar. Logo pagando a conta do festim dos ridículos, incauto, sem saber o que se passava, às onze da manhã entra assoviando e pede 600 gramas de ponta da agulha, ou seja, a ponta inteira, nos bichos daquele lugar, sorrindo para o seu Dermindo, açougueiro-chefe, porém ao botar o pé dentro da carnicería arrependeu-se de ter saído de casa desarmado, o costume, nem lembra mais onde anda o trinta e oito. Sentiu o sopro do mal no recinto, calou-se. Mirou a porta de lá, o sujeito parado lá fora, arrogante. O moço de rosto de pedra da chaira também olha, a seguir mira firme para Itamar, ar de não se preocupe, seu, também sentimos o fedor, e caprichou ao tirar a ponta da agulha de um talho só, o melhor pedaço do boi, fora os caríssimos, sem despregar os olhos de sangue da placa branca que dali a pouco vai sumindo, bandeirinha do Brasil tremulando na frente, mandando abram alas, seus coitados, vão aprender a roubar, seus burros. O seu Itamar não se contém: se matar esse boi que saiu, a carne é ruim, os corvos repugnariam.

O consulpone dos vinte dinheiros em algum lugar ri coçando os bigodinhos de gato, coça outro lugar, cheira o dedo fedido, depois telefona para seus cupinchas instalados em poltronas caídas do céu, ufa, pelo menos frigoríficos e açougues se retiraram do sonho, agora amorcegam contratos via Banco de Desenvolvimento, BB e Caixa topam após telefonemas outros, os carnívoros da base de putaria precisam consultar a agência central, os agiotas múltis querem mais, não precisam obedecer, e outros segredos para repassar?, química bancária, passa para cá, madame, esta que ao ver o verme levar o dedo ao nariz sonha que teve também uma coceira, mas, tristeza, engano, foi aquele golinho de caipirinha feita pelo expert baiano inescrupuloso, fodam-se os escrúpulos e agora surge um passarinho, é noite de breu, a ambição trabalha no escuro

Amanhece, o lindo manto da noite, luzes e bares nas zonas dos abonados, lindo, dá lugar a um amanhecer de chuvoso outono, nada mudou. Itamar é feliz na periferia, possui na geladeira um buco para a sopa, estava meio vencido, tem que fazer hoje, mulher, é descarnado mas vamos chupar a gordura de dentro, se mexa, trouxe pão? Aumenta o volume aí, moleque, vão passar os gols, ta acabando o faustão. Plim-plim, faustão para presidente do assassínio em massa, o Brasil se alimenta de restos, dorme em berço esplêndido. Ouve-se um grito de criança, mas os palácios não ouvem, deles saiu a ordem para a polícia matar. Não contente a Opus Dei reduz para 16 a idade penal. Não sabem, os velhos insanos, que ao terrível agravo dia virá em que o desagravo será desproporcional, a vingança rastejando de fome pelo esgoto até os encontrarem em suas fartas mesas de comidas subtraídas, reconhecíveis que são. Explodamos os palácios deles, com eles dentro - pensam os meninos sem voz sem colégio sem comida sem roupa sem tênis sem nada sem conseguir colocar em palavras os pensamentinhos. A um olhar.  

Os pervertidos agem em silêncio, ninguém ouve meus gritos, só admitem investigação das suas feridas pela polícia que comandam. Um pau-mandado do Piauí coloca 33 bombas no Supremo. Extinguem o judiciário, querem a constituição polaca. O filho da puta mor arrota a sua sabedoria de mercador do golbery no mercado de cartas do Recife. Direita e esquerda se fundem num peido fragoroso, putrefato, atraindo todos os corvos do país.

O ar do Brasil se torna irrespirável. Quero acordar.

Itamar não acorda, a decepção o matou e ele ainda não sabe. Os meninos do Brasil saberão o que fazer.




A coluna é inspiração dos boêmios do Botequim do Terguino, que esclareceram, em Termo assinado no dia 15 de abril com o Sindicato das Trabalhadoras do Sexo, que isso não tem nada a ver com mãe nem com puta que mereça esse nome. Vide Os Filhos da Puta (AQUI). Hoje veio pela máquina de Luciano Peregrino. Créditos dados por ele ao Lorildo de Guajuviras.

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