viernes, 15 de julio de 2011

Alcides Gonçalves, por Aguinaldo Loyo Bechelli

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No dia 2 de abril deste ano, ainda consternados pelo quase silêncio dos gaúchos diante dos cem anos de Alcides Gonçalves, fechados em 2008 (na época nada de blog aqui na palafita), publicamos algo a respeito deste grande artista, com título de um samba de sua autoria, clique em Castigo.

Na época, neste abril, pedimos autorização para um boêmio e pensador paulista, contemporâneo do seu Alcides, para publicarmos um texto seu, redigido em homenagem ao centenário do seu amigo lá em 2008. Sim, um paulista lembrou e registrou com emoção para todo o Brasil ver e lembrar.

Bem, hoje, meses depois, finalmente Aguinaldo Loyo Bechelli recebeu o nosso recado/pedido. Tardou a receber devido a uma briguinha entre o Blogspot e o Wordpress, não se dão.


Aguinaldo é um guri muito famoso (poetas são eternos meninos, anjos, pois não?), cronista de costumes e poeta com ênfase na comédia humana, letrista, percussionista y... mucho más.

Então, agora devidamente autorizados, vai o texto do poeta y mucho más Aguinaldo Loyo Bechelli, memória viva daqueles tempos em que chegávamos amoitados no Adelaide's da Rua Marechal Floriano para  ouvir aqueles "velhos" maravilhosos, nós meio malitos de grana "conversando" uma única cerveja a durar a noite inteira. Ou no Batelão naquela única vez, nos meus 20 anos. Lá dentro, um menino querendo ver mais que os olhos da morena, lá fora os beatles e outros elétricos ruídos que feriam pior que apito da fábrica de tecidos. A seguir, o antológico depoimento, a carinhosa lembrança, a honra ao mérito. Chorei ao ler em 2008, choro agora de novo ao reler, pensando. Ah, viver... firme, sério, aos pedaços, rindo com amor.

Grato, Aguinaldo.

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PROCURA-SE: ALCIDES GONÇALVES

Compositor inspirado. Cantor e intérprete. Pianista. Violonista. Criatura simples, despretensiosa, despojada, porém extraordinária, Alcides Gonçalves é um dos notáveis nos clássicos da música popular brasileira, não notado como deveria ser. Obscurecido, para não dizer alijado, pela magnitude do consagrado Lupicínio Rodrigues e injusto procedimento das gravadoras, ao excluírem seu nome no selo dos discos. Jogo do contente: Alcides não está só nesse triste chega pra lá. É o caso de Humberto Teixeira em relação a Luiz Gonzaga. Guilherme de Brito apagado por Nelson Cavaquinho. E onde fica Grande Otelo no antológico samba Praça Onze? Todo mudo só cita Herivelto Martins. Há um catatau de casos. Kid Pepe, parceiro de Noel Rosa em O Orvalho Vem Caindo, não aparece. Talvez o mais injustiçado seja o compositor paulista Oswaldo Gogliano – o Vadico, parceiro de Noel Rosa em Conversa de Botequim, Feitiço da Vila, Feitio de Oração, Pra que Mentir.


Alcides Gonçalves não foi somente parceiro de Lupicínio – o Lupi. O primeiro passo para carreira profissional de Lupicínio foi dado em 1935 por Alcides, então cantor de muito sucesso na Rádio Farroupilha. Tinha 27 anos e Lupicínio 21. Com Lupi compôs TRISTE HISTÓRIA e conquistaram o primeiro prêmio em importante concurso, concorrendo com tradicionais compositores. Mamaram em dois contos de réis. E o mesmo Alcides abriu portas e janelas nas rádios do Rio de Janeiro para tocarem as músicas de Lupicínio, o que logo motivou a RCA Victor gravar TRISTE HISTÓRIA e PERGUNTE AOS MEUS TAMANCOS, da dupla gaúcha. Quanta maravilha Alcides compôs com Lupicínio! QUEM HÁ DE DIZER. MARIA ROSA. CADEIRA VAZIA. CASTIGO. JARDIM DA SAUDADE.
A ingratidão, a falta de ética, fez com que Alcides se afastasse do velho amigo e parceiro. Lupicínio teria sido omisso? Até onde a sua culpa em CADEIRA VAZIA, gravada na ODEON por Francisco Alves, não constar o nome de Alcides? Surpreende: na ocasião, Lupicinio Rodrigues era representante da SBACEM no Rio Grande do Sul, sociedade de direitos autorais. E CADEIRA VAZIA continuou a ser gravada sem o parceiro Alcides Gonçalves.

Para não deixar dúvidas quando ao valor criativo, Alcides foi
parceiro de outros consagrados compositores, entre eles Ataulfo Alves e Waldyr Azevedo. E na qualidade de cantor, ainda que não tivesse sido aplaudido na sua carreira solo, já estaria imortalizado por ter colocado a segunda voz em memoráveis gravações com o Rei da Voz – Francisco Alves.

Morando em São Paulo, eu ia constantemente a Porto Alegre. Participei de inesquecíveis tocatas com Jessé Silva, Plauto Cruz, Peri Cunha, Clio Paulo, Jorge Machado, Túlio Piva, Guilherme Braga, Lucio do Cavaquinho, Mario Barros, Paulo Sarmento, Mario Shimia, Lourdes Rodrigues, Cléa Ramos. E claro ! Alcides e Lupicínio na casa dele ou nos bares Batelão, Adelaide’s, Treviso.

Flavio Pinto Soares era ótimo anfitrião, boêmio sem sono, mas gago de compasso no surdo. Irreverência à parte, lembro que Flávio me comoveu quando acolheu Alcides em sua casa, muito doente e sem guarida. Em áureos tempos, hospedei em minha casa, alternadamente, Alcides e Lupicínio. Mas sempre que um deles vinha a São Paulo e precisava ficar em hotel, eu sentia orgulho em poder bancar o cicerone.

De certa feita, vésperas do aniversário de Alcides dei a ele um bandolim. Fomos escolher na tradicional Casa Del Vecchio. Eu sabia ser sonho dele ter aquele instrumento. Atendeu-nos o gerente, o saudoso amigo Evandro, exímio bandolinista. E tome música, lá mesmo. Alcides cantou e encantou acompanhado pelo “mitológico” Rago, Antonio, habitué da loja. Convém registrar esta preciosidade: um curioso que se deteve para ouvir, cumprimentou Alcides: “Olha, o senhor leva jeito. Pode se apresentar em qualquer programa de calouros... e ganhar.”

Fiz a letra da marcha-rancho ESFERA DA VIDA, na divina música de Alcides. Está no LP – Selo “Artista”, gravado com toda majestade da OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, em 1981, regida pelo maestro Alfred Holsberg. Alcides tinha 73 anos e eu 50.

As gravações tomaram três tardes, em grupos: uma parte sóbria e o resto de pileque. O grau alcoólico de percussionista, violonista,  cavaquinista, trombonista, bandolinista, flautista é aquele que todo mundo sabe, mas eu nunca tinha visto um tocador de violoncelo de porre, com arco e tudo. Alcides fez questão de arrastá-lo para casa do Flávio após a gravação. Lá, ele emborcou mais uns uisquinhos e para surpresa geral, com preciso sestro solou o choro Doce de Coco, de Jacob do Bandolim. Estava explicado.

Quem ia direto da casa para o estúdio não temeria bafômetro, mas os que partiam da casa do Flavio atracavam calibrados. Rolava piscinas de “groselha”. O maestro era chegado só num vinhozinho, de leve. Surgia inteiraço de souza, regia com competência e sensibilidade. Fez os arranjos, selecionou metais, cordas, percussão, regeu. Depois caprichou na mixagem. Eu, por exemplo, gravei pandeiro, surdo e caixa clara (também chamado de rufo ou tarol), instrumentos ideais para o gênero. Gostaria de ter cantado, mas não dava para concorrer com a bela voz de Alcides Gonçalves que tão bem interpretou ESFERA DA VIDA.

Flávio Pinto Soares, munheca de ouro, bancou a edição independente, já que todas as letras das músicas eram suas, menos a minha, que cai de pára-quedas no disco porque o maestro ouviu ESFERA DA VIDA na casa do Flávio e gostou muito. O poeta e contista Jorge Medauar disse que, sob medida e sensível profundidade, vesti com palavras a fascinante melodia de Alcides.

Cheguei a Flavio e Alcides através do encantado violonista Jessé Silva, meu co-compadre. (Sou padrinho do Eduardo, neto dele. Madrinha – Suzana, filha do Jessé). Jessé conheci em 1965 via seu tio, Peri Cunha (Eraldin Fontoura Cunha), bandolinista popular, clássico, de execuções eruditas.

Alcides, comedido no papo, era espirituoso. Perguntei a ele a idade do Johnson, Silva Orlando, negão parrudo, ex-pugilista, esbanjador de simpatia, velho pacaraio, cantor, voz de baixo profundo, dispensava microfone no seu dó de peito. Tinha a canção Old Man River no repertório. Johnson cantava os seculares Catulo da Paixão Cearense, Donga, Gastão Formente, J.Cascata, Sinhô, seus contemporâneos. E sabia tudo de Lupicínio, rivalizando com Jamelão. Diz que Johnson fez serenata pra Princesa Isabel. Quantos anos teria? Alcides respondeu: “Olha, a idade propriamente instalada não sei, mas tu conheces o imenso pé de jacarandá que cobre a praça principal? Pois! Quando Johnson já calçava 44, aquela árvore ainda era planta de vaso”.

Nesta louvável comemoração do Centenário de Alcides Gonçalves, a gente tem consciência de que os valores eternos jamais se explicam. É como compôs o mesmo Jorge Medauar: “Nunca se fazem versos aos monumentos, aos rochedos e penedos, que dominam o mar com a imponência de seu vulto.” Pego carona neste dizer, sinto que não dá para explicar Alcides Gonçalves. Criatura eterna, não lapidada pelo simples passar dos anos, dos dias, das horas, mas apenas e principalmente pelos momentos vividos.

Ele conservou em plenitude um jeito de ser em consonância com a música. E ao cantar, sem impostação, víamos cores, provávamos o sabor das palavras e a alma aparecia em luz musical. Como o beija-flor que paira, representou repouso e movimento ao mesmo tempo. Sua desprendida presença vinha revestida de uma auréola azulzinha. Sabia que ser simples não é o começo e sim o fim.

Eh! Não dá mesmo para explicar a cachoeira que impõe respeito ao deslizar nas pedras, rolam em tempo de valsa, com elegância para acariciar a mata, encantando a vegetação ao respingar gotas de orvalho.

Assim, há sinergia com o inesquecível Alcides, na sua bossa de ser, para que o mundo parecesse menos frio e a vida mais suportável. Fica então o nosso respeito, admiração e agradecimento ao amigo, companheiro, mensageiro cheio de graça, na mais difícil de todas as artes: Viver.

Obrigado, então, Alcides, saudoso irmãozinho, por sua marcante encarnação, dando exemplo para que esta humanidade amedrontada, mísera, insegura, angustiada, vacilante, volte a desfrutar da graça de ir e vir, sem perder o gosto de sorrir.

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