domingo, 31 de julio de 2011

A Charge do Dias

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A partir de hoje o nosso camarada Adolfo Dias K. Savchenko (Bagé, 18/10/1960), artista plástico, passa a colaborar com o blog, escolhendo a charge do dia, dentre todas as charges diárias brasileiras, obtidas por todos os meios possíveis, até comprando jornal.

Adolfo contará com a ajuda de duas equipes de experts, na coleta e análise das obras. Uma, os entendidos do Bar do Terguino Ferro, ali do bairro Menino Deus. A outra do O Porto, do Beco do Oitavo, do Centro.

Mesmo se tratando de um numeroso grupo de especialistas em martelinhos e chopps, que sabem tudo o que ocorre em nossas fronteiras e além delas, obviamente que a escolha se dará por critérios subjetivos, o que, desde agora, nos desobriga de dar explicações.

O artista que tiver sua obra escolhida como "A Charge do Dias" de cada mês (escolha ao final do mês, obviamente), terá direito a palestrar nos butecos referidos, ganhar amigos e sair sem pagar a conta (nisto de conta, só na primeira vez).

Para abrir este departamento, hoje não foi difícil para o pessoal chegar a um consenso, mas só depois de alguns biriteiros levarem uma hora examinando a tela, até cair a ficha. Deu o gaúcho Santiago (Neltair Rebés Abreu - Santiago do Boqueirão, RS, 14/9/1950), com terrível advertência. De cara, leva como a do mês de julho. Apareça nos butecos, Santiago.


viernes, 29 de julio de 2011

Se gritar pega ladrão



Outro dia comentamos a estranheza de um jornalista espanhol à falta de reação dos brasileiros diante de tanta roubalheira. Certo, em todo lugar há roubalheira, bandidos e máfias. Há até países que assaltam as finanças e os recursos naturais dos outros impiedosamente, na maior cara de pau, pela força dos canhões, embora o Tio Sam tente ser o único assassino "legalizado" pela lei da força que impõe. Auxiliando os estrangeiros a achacar o nosso País, a tal "elite" brasileira. Traidores, elite de gatunagem.

Mas aqui no Brasil é demais. Uma minoria se apropriando de tudo, vergonhosamente, e nós, os otários, assistindo a tudo, amortecidos pela cachaça que nos dão na veia pela tevê dos próprios bandidos. Muitos atribuem a submissão à "herança" portuguesa, os nazistas à miscigenação, tem explicação para todos os gostos e delírios. E o tema segue dando o que pensar, principalmente agora, quando ventos de libertação ameaçam varrer do planeta fortunas obtidas ilicitamente.

Alguém vá remexer direitinho na construção de qualquer fortuna, incluindo a do tal Eike Maravilha da moda, será que vai encontrar somente "competência"? Mas que competência, cara-pálida, vai ver se não teve mãozinha e tal. São hijitos de papi com furtivas colaborações que deveriam envergonha-los, se homens fossem; ou criminosos mesmo, na base da violência. Bem, desde que o mundo é mundo as fortunas se constroem pela violência ou pelo furto, quando não por ambos, desmedidos.

O povão sabe, sim, e como! Seriam somente as "classes armadas" pela tal elite que nos desestimulam a reagir? Ou o investimento que eles fazem em analfabetismo e desinformação é que funciona (inclusive nas classes armadas)? Cremos um pouco de tudo, mas acima desse tudo a ignorância, a péssima educação, não por acaso.

Seria engraçado, não fosse triste: dezenas de milhões de pessoas sabem, "sentem", que são assaltadas pela "elite" e seus políticos, e nada é feito.

Em 1980 o portelense Ary do Cavaco (Ari Alves de Souza, Rio de Janeiro, RJ, 17/2/1942), com seu camarada partideiro Bebeto de São João (Carlos Alberto dos Santos, São João de Meriti, RJ, .../7/... - .../7/2010) compôs um samba que já deve possuir umas cinquenta gravações: Reunião de Bacana.

O povo brasileiro cantou junto o refrão, desafogando a raiva de modo pacífico: pinga e samba.

Pelo jeito, no governo atual - muito pior nos anteriores -, em qualquer reunião, seja ministerial ou de aspones menos aquinhoados, se gritar pega ladrão...

Não fica um.

Anísio Silva: Alguém me disse

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Hoje vamos buscar um som lá no ano de 1960, na dulcíssima voz de Anísio Silva (29/7/1920, Caitité, BA - 18/2/1989, Rio de Janeiro, RJ).

Esta gravação original de "Alguém me disse" (composição de Jair Amorim e Evaldo Gouveia), na voz do Anísio, no ano de 2000 mereceu do crítico Ricardo Cravo Albin a honraria de ser classificada como uma das 100 melhores do século XX.

Anísio Silva foi o primeiro artista brasileiro a ganhar um disco de ouro.

jueves, 28 de julio de 2011

Os ratos da Costa Azul

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Anna Ramalho diz no JB que foi informada de que o deputado Valdemar Costa Neto (PR), o ladravaz mais asqueroso do mundo, beneficiário do mensalão e dos desvios nos Transportes, e de tudo onde mete aquela mão de pintar catacumbas, "alugou um iate de 250 pés no valor de R$ 450 milhões para passear em Saint Tropez , na Côte d’Azur, e fazer baldeações só para jogatina em cassinos". Diz ainda que outros "envolvidos no escândalo do Ministério dos Transportes fazem parte da patota. Se gritarem 'homens ao mar', não vai sobrar um rato a bordo".

Esse o respeito que eles têm pelo povo e pela Justiça do Brasil.

Teria ele convidado os amigos do mensalão, e o seu camarada Antonio Boquinha de Mamar Ahm Paloti?

Pois é, enquanto se divertem, o Supremo Tribunal Federal examina o pedido do Procurador Geral da República, onde o Valdemar pode pegar de 3 até 31 anos de prisão. É pouco, esperemos que engrosse com os Transportes.

Os Reis dos reis

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Como todos sabemos, o gênio Magnus Carlsen - Noruega, 30/11/1990, 1º do mundo, rating 2.826 - não leva muita sorte com Baadur Jobava - Geórgia, 26/11/1983, rating 2.713 (na foto com a esposa).
Que Magnus em breve será o campeão mundial ninguém duvida (não será o próximo, no ano que vem, por ter-se recusado a participar do Torneio de Candidatos, cheirava mal), mas no confronto com Baadur está em desvantagem. Em cinco partidas, dois empates, duas vitórias de Baadur e uma de Carlsen.

A última vez que se enfrentaram foi nas Olímpíadas de Khanty-Mansysk, na Sibéria (RUS), em setembro de 2010, e lá Baadur Jobava aprontou de novo. Dele, nunca se sabe o que esperar. Possui um recorde fantástico: na história escrita do xadrez, desde mais de quinhentos anos, ninguém como ele venceu tantas partidas com sacrifício de peças, rios de sangue derramado. Hoje é "apenas" o 30º cérebro do planeta, pois do mesmo jeito que inventa loucuras maravilhosas, por vezes comete cada besteira...

No confronto de 2010 as coisas até que iam bem para Magnus, mas algo ele não viu no seu lance 28.

Baadur não hesitou, e com 29. Rxh7! incendiou a antiga aldeia de Samarov, fogo que se alastrou pelo mundo, ao vivo, corações aos pulos diante do feito espetacular.

Magnus poderia ter abandonado nesse momento, porém insistiu, coisa que não é de seu feitio, arrastando a peleia até o lance 64, quando quedou seu Rei diante da inexorável perda do Cavalo negro, única esperança do gênio Magnus na teimosa busca de empate.

O tabuleiro diz como foi a terrível batalha, lance a lance.

GENS UNA SUMUS!


A Partida:

1. d4 Nf6 2. c4 e6 3. Nc3 Bb4 4. a3 Bxc3+ 5. bxc3 Nc6 6. e4 Nxe4 7. Qg4 f5 8. Qxg7 Qf6 9. Qxf6 Nxf6 10. Nf3 b6 11. d5 Na5 12. Nd4 Kf7 13. dxe6+ dxe6 14. Bf4 Ba6 15. Nf3 Ne4 16. Ne5+ Kf6 17. f3 Nd6 18. O-O-O Rhd8 19. h4 Nf7 20. Nd7+ Kg7 21. Rh3 Kh8 22. Bg5 Nxg5 23. hxg5 Kg7 24. Rh6 Bxc4 25. Bxc4 Nxc4 26. Rdh1 Rh8 27. f4 c5 28. Rxe6 Rae8 29. Rxh7+ Rxh7 30. Rxe8 Kf7 31. Ra8 Rh1+ 32. Kc2 a5 33. Ra7 Nxa3+ 34. Kd2 Rh2 35. Nxb6+ Kg6 36. Rxa5 Rxg2+ 37. Kd1 Nb1 38. Rxc5 Nd2 39. Nd5 Ne4 40. Rc6+ Kf7 41. Ne3 Rg3 42. Ke2 Ke8 43. Re6+ Kf7 44. Re5 Nxc3+ 45. Kf2 Rh3 46. Rxf5+ Kg6 47. Rf6+ Kg7 48. Nf5+ Kg8 49. Kg2 Rd3 50. Rd6 Ne2 51. Rg6+ Kh8 52. Rh6+ Kg8 53. Ne7+ Kf7 54. Ng6 Kg7 55. Kf2 Nc3 56. Ne7 Ne4+ 57. Ke2 Ra3 58. Nf5+ Kg8 59. Re6 Nc3+ 60. Kf3 Nd5+ 61. Kg4 Ra1 62. Re5 Rg1+ 63. Kf3 Rf1+ 64. Kg2 1-0


A tolerância como crime (O retorno à tribo)

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Por Mauro Santayana

Li, com pavor, o documento A European Declaration of Independence — 2083, assinado por Anders Behring Brejvik, o exterminador de adolescentes de Oslo. O texto, em seu todo, é incongruente, repetitivo e capenga. Mas, em seu início, revela bom conhecimento histórico — sempre distorcido, é certo — e a leitura fundamental da filosofia política, sobretudo dos autores marxistas, com predileção pela Escola de Frankfurt, a que ele atribui a difusão do “marxismo cultural”. É difícil acreditar que Brejvik, aos 32 anos, dedicados em sua maior parte à caçada, ao fisioculturismo e aos jogos eletrônicos, seja portador do conhecimento ali exposto.

Não parece provável que ele tenha sido o único redator do documento, a não ser nas instruções para a preparação de explosivos, a partir de substâncias fertilizantes, e para o uso de armas. Trata-se, pelo que se deduz, de um documento coletivo ou, pelo menos, redigido com a participação de algum teórico do racismo de extrema-direita. No conjunto, no entanto, o texto faz lembrar outros documentos dos nazistas e fascistas — como é o caso de Mein Kampf. Ele, equivocadamente, nomeia Lukacs entre os fundadores da Escola de Frankfurt.

O pensador húngaro é autor de extraordinário ensaio sobre a insânia do nazismo, Die Zerstörung der Vernunft (A destruição da razão), publicado em 1954. Cita Erich Fromm, Horkheimer, Adorno e Marcuse, entre outros. O provável coautor do texto deve ter lido as obras marxistas que cita.

Como todos os documentos dessa natureza, redigidos a partir de uma visão maniqueísta do mundo, o manifesto de Brejvik é capaz de apodrecer a razão de muitas pessoas, desprovidas dos postulados básicos do Humanismo. Daí o terrível paradoxo no fato de ele se identificar como “fundamentalista cristão”. O cristianismo é o contrário do que ele prega. A mensagem do racismo é simples, e pode perverter os desavisados e, assim, a lógica histórica: todos os que são diferentes não pertencem à minha mesma natureza, logo, são inimigos que devo eliminar.

O segundo momento do racismo, que tem raízes na pré-história, é o da ocupação de espaço. A ideia do “espaço vital”, como revelam os livros elementares de antropologia, vem da disputa do território de caça pelas tribos primitivas. O “espaço europeu”, na visão desses racistas herdeiros da confusão mental de Gobineau e outros, está invadido pelo Islã.

Essa migração, como qualquer pessoa bem informada disso sabe, resulta não de um projeto de conquista — como poderia ter sido a dos muçulmanos que invadiram militarmente a Europa no século 8 — mas da exploração impiedosa pelos países europeus (e, mais recentemente, pelos Estados Unidos) dos recursos do Oriente Médio. Essa ânsia de saqueio do petróleo — e outros recursos — promoveu as guerras brutais contra os povos daquela região. É natural que busquem onde possam sobreviver.

O assassino de Oslo cita várias vezes o Brasil como exemplo do caos da miscigenação. Atribui, a essa promiscuidade “racial”, as desigualdades e a corrupção. Ele pode citar o seu próprio país como exemplo de coesão nacional e alguma igualdade social (da qual, como se sabe, estão excluídos os imigrantes), mas se esquece de que uma nação de grandes recursos naturais, de menos de 5 milhões de habitantes, equivalente a uma das capitais brasileiras, é quase tão fácil de governar como o rico principado de Mônaco. E, ao contrário do que insinua o texto, não são os mestiços, pobres em sua maioria, os principais corruptos, mas, sim, a elite branca, que descende dos colonizadores europeus.

É um erro considerar o massacre de Oslo como ato isolado de um psicopata. A psicopatia de homens como Brejvik tem origem na patologia da injustiça da civilização contemporânea. Como apontou Melanie Philipps, do Daily Mall, “Brejvik talvez seja um psicopata desequilibrado, mas o que emerge agora de seu ato atroz é o delírio de uma cultura ocidental que perdeu a sua razão”.

Outra opinião importante, essa de um sociólogo norueguês, que se dedica ao estudo dos problemas da guerra e da paz, Johan Gulgag, é a de que “é fácil 'psiquiatrizar' o ato de Brejvik, e não ver a gravidade das ideias” que devem ser combatidas agora e em todos os países da Europa, antes que seja tarde.

A democracia não pode ser tolerante com os que proclamam o genocídio como ato político, e o assassinato em massa como virtude. Hitler não enganou ninguém. Quando havia ainda tempo de fechar-lhe o caminho, países como a Grã-Bretanha e a França foram cúmplices tolerantes da anexação da Áustria e dos Sudetos. Essa atitude promoveu a ereção dos fornos crematórios de Auschwitz e a morte, em combate e no massacre à população civil, de cerca de 50 milhões de seres humanos.

Como alguém lembrou, os muçulmanos de hoje são os judeus, os ciganos, os eslavos e os comunistas de ontem. E os judeus de Tel Aviv não são mais os que resistiram ao assalto ao Gueto de Varsóvia.
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NE: Alguém já lembrou de perguntar ao Bolsonaro o que ele achou da Declaração Européia de Independência? Na Europa, notadamente na Itália de Berlusconi, muitos políticos de direita adoraram.


miércoles, 27 de julio de 2011

Nilze Carvalho e Marcos Sacramento

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Nilze Carvalho e Marcos Sacramento (este de niver hoje, 51).

Dilma: em nome da governabilidade...

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Fizemos umas continhas rápidas aqui na palafita e concluímos que a Dilminha, para limpar a sujeira acumulada, precisaria de um mandato inteirinho só para isso. Nada de reuniões, inaugurações ou viagens. De manhã à noite só ordenando demissões a bem do serviço público. Seria bom providenciar um tribunal exclusivo, ágil, para julgar e enjaular os meliantes, pois com a justiça que agora temos ninguém iria preso.

Como sabemos da impossibilidade, teremos de seguir convivendo com os patrunfos. Se tirar o grosso já estará bom, o restante fica para os próximos presidentes (toc, toc, toc).



martes, 26 de julio de 2011

Sim: Estação Primeira de Mangueira

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Viva o Brasil!

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Os chargistas do Brasil, sentimentais patriotas, sempre saltam à frente. Com o traço dissonante de um nazista do Paraná, o Spongolz (que pena, alemão), se colocam de peito aberto na defesa da Pátria, agora afundando na tecla em que batemos há anos.
Abaixo apenas uns poucos, pela ordem: Clériston (Folha de Pernambuco), em comovente retrato da alma brasileira, depois Bessinha (independente de jornais) no 1  a 0 para nós, Mariano (independente) com a Amy, Deus a tenha, a seguir Sinfrônio (Diário do Nordeste, Ceará) no belo pé na bunda do sujão, Humberto (do antiquíssimo Jornal do Commércio, de Pernambuco) com a força do olhar que reprova, e por último, de trator, o grande Paixão (Gazeta do Povo, PR).
(Estas e todas as charges diárias do nosso País podem ser encontradas AQUI, e a reprodução é proibida. Eu reproduzo porque duvido que os conterrâneos me processem, depois de ver o uso que delas faço).









À parte, amigo Nicolau, caro Olívio

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Um telefonema para o Rio de Janeiro e um milhão de autocríticas me convenceram a separar os desabafos. O Dr. Nicolau não quer nem vai matar ninguém. Destruiram ilusões, mas não lhe tiraram comida das crianças. Assim, o que escrevi antes vai aqui, saído de lá, em separado, para não comprometer o amigo, que só sei que é meu conterrâneo (nasci em trânsito, próximo à Palmeira das Missões) e o chamo de amigo por passarmos um pelo outro na rua e tocarmos o chapéu em respeitoso reconhecimento.


Uma parte eu vi, Nicolau. Certa vez me bateu à porta o Procurador Geral do Estado, via um amigo comum, para me pedir colaboração. Precisavam de um homem sério, disse-me. Perguntei porque não mandavam um dos quadros do Partido dos Trabalhadores (hoje dos Trabolas), na época uma esperança. Respondeu que não eram de confiança/competência tanta (isto é, para as boas, ser diretor, ganhar sem trabalhar, são ótimos; já para encarar as ruins, ter respeito e credibilidade, aí a minha porta serve), e a Dilminha precisava. Pedi um dia para pensar e no outro respondi que iria até de graça, se fosse para ajudar o meu estado, não a um partido político. E fui, morto na guerra sete vezes, um jesus às avessas, mas ainda iludido. Bem feito. Ante minha dolorida aversão a dinheiros mal havidos, inspirado nas palavras Daquele que passou antes em minúsculas, por referir a nosotros, pobres mortais que não voltam da tumba, e dada a personalidade e às promessas que fiz nos verdes anos, uma delas de jamais ser mandado por gatos políticos, convenceram-me, pelo bem do RS, e me lotaram no Gabinete do Governador, ganhando 5 mil e picos (eu estava como hoje estou e sempre estive, sem um pila no bolso, mas isso aqui é de teimosia, outra forma de mostrar a coragem que não é tanta, que eles fingem não notar, de repente nem notam mesmo, dada a sanguinária ambição, que é o horroroso medo de viver mal traduzido), o que eu ganharia por semana, se quisesse, ao olhar para as pretinhas amadas do vale de miséria que circunda Brasília.

Nunca vi o governador, depois de elegê-lo, mesmo tendo incontáveis amigos comuns. Amigos é força de expressão: conhecidos. Vi muito canalha o cercando, ele os escolheu, imagino indo na certa. Bem, na política é assim. De repente o bigode passou a ser amigo de todos, precisamos compreender, apostamos nisso, embora quem tenha gasto a grana para colocá-lo lá tenha sido Pato, Verinha e muitos outros, que como eu tiravam de uma roupinha para as crianças, um lanche melhor, para impulsioná-lo como nossa voz, voz dos pobres, voz da decência, voz do Brasil. O cara até passou a ter o direito de escolher, depois, se concorria a alguma coisa, o "lado pessoal" que tínhamos que respeitar. Antes, sem nome e sem grana, dizia que a gente é que mandava, era um quadro do partido. Era. Errou. Mas foi o melhor que tivemos até então, pero passou a churrasquear em casa de riquinhos lalaus, o deslumbrado. Acabou sendo espantado, enxotado, pelos seus chefes nas maquinações - com as quais jamais compactuaria, é um homem honesto, por isso o afastamento - do Ministério das Cidades, este um tumor maligno que a Dilminha terá que lidar cedo ou tarde, tomara cedo.

E vi coisas que prefiro contar em livro, um dia. Processamos uma múlti, resgatando 40 milhões, e isso foi um nada perto da obra toda que eles cometeram. Provei, contra tudo e todos, que as cisões da CEEE foram no vão da escada (com a cumplicidade da Junta Comercial), y otras cositas más. As gurias advogadas da PGE, relembro desmaiado de carinho, queriam o mesmo que eu, justiça, acreditaram (idem o Procurador, mui digno varão), entenderam o complexo esquema,  e tocaram fogo, cadeia para todos.

Deu em nada. Tive que contratar bandidos em Jacarepaguá (a que ponto me levaram), naquela de se me matarem, morrem. Isso só hoje conto, como poderia antes?, para preocupar os camaradas? A lei do machado. Não posso esquecer de colocar um lembrete ao final deste texto.

Mas quem terminou de arrebentar a CEEE foi outro, como bem disseste. Esse de antes, de que falas, não passa de um sujeito que em vez de envelhecer envileceu, sujando uma linda trajetória, se de verdade fosse. Como morei em prostíbulo, por necessidade, quando menino, jamais entenderei como o cara conseguiu se lambusar assim por uma xexeca (Brizola chamou a atenção dele, eu ouvi, mas ao referir xexeca disse outra palavra, B em vez de X, que não cai bem aqui no blog lido por crianças, no terrível tom de voz com que foi pronunciada: "misturando Bu com política, negrão!"). Aquele tom de voz gaudério do grande Leonel, percutindo nossas almas, ao perceber o desmerecimento das nossas mães e namoradas queridas.

Quem liquidou de vez a CEEE, a pá de cal, foi aquele outro moleque despreparado. E não foi sozinho, eram muitos. Hoje alguns fingem esquecer. O seu Simon dá discursos moralizantes no Congresso, ao tempo em que chama o Palocci de amigo. Mas o chefe de estado, colocado pela RBS, arrogante, enrustido, bigodinho de gato, que sumiu do mapa para evitar o desprezo público e a cadeia, foi escolhido por pessoas como o Simon. Destino: cadeia. Eu cuidei disso, auxiliado por bons companheiros, de metê-lo na cadeia. Os Trabolas mostraram a ele e guardaram as provas, desde que sumisse. 

Sumiu, foi ser diretor de empresas a quem deu a bunda (as nossas) usando o cargo. Com essa, sumi também, esperava que enviassem os quilos de provas ao ministério público, mas "esqueceram". Perdi cinco quilos, e passei a imitar o goleiro Manga, que a cada vez que via um gerente de banco gritava Ladrão! (um dia te conto essa, o seu Chico Anísio era o fiador): a cada vez que vejo um Trabola (não o povo trabalhador nem os estudantes, mas... eles), grito: Covarde! Lalau! Se algum parar para me olhar, prometi esbofetear. Nunca param. Se fazem de surdos.

E como acontece sempre nessas estórias, o pior estava por vir. E veio quando botei o pé na CRT, rosto em pedra, nem doce nem amargo: sereno, e óculos escuros, não tardariam a olhar meus olhos castanhos, e pedi para falar com os "donos". Quem deseja? Represento o Estado do Rio Grande do Sul, moça, me anuncie, por favor. 

Ladrão ali era pouco. Tal a vulgaridade, punguistas de feira, para tomar a graninha de quem ganha pouco, comedores de suicidas frequentadoras de bingo no salão paroquial, só falta o chapeuzinho com peninha verde atrás, malandros daqueles que a gente usa para mandar comprar cigarros e que só retorna de medo, asquerosos. Nojeira igual a CEEE, com o conluio de vendilhões gaúchos, riquinhos pelo roubo de séculos.

Não demorou muito e eu disse Não! e eles correram para a Dilma, então Secretária de Estado, ameaçando com toda a sorte de represálias econômicas por trás da conversa "amistosa", afinal as múltis fariam "doações" de campanha para muitos hijos de puta do PT. Amanhã ou depois darei os nomes dos cidadãos, são muitos. O vice-governador soube, e ficou bem quietinho, aquele merda. Eu estava torcendo para que ele abrisse a boca, mas esse sabe ser político, o raposão, hoje dirige petróleos, deve entender muito do assunto. Sei lá, a cada vez que vejo os vilaverdes falando me vem à cabeça uma estátua hipócrita, repetitiva, dá sono. Na semana seguinte à Assembléia Geral onde o Rio Grande do Sul votou contra a incorporação da CRT, voto vencido, uma das maiores empresas de advocacia da América dispensou os meus serviços, sob a sincera alegação de que era eu ou a multinacional sua cliente, que me marcou para matar de fome, visto que Jacarepaguá impedia a morte de outra maneira.

E foi caindo tudo, quando vi não tinha como comprar comida, minhas filhas vendo a decadência inexorável, de quebra arranjei um câncer agressivo, matador. Todos os "amigos" sumiram. Espantado, dei até de beber mais do que a boemia de nascença, fiquei nervoso, um ruído ocasional do apartamento de cima me fazia voar e pegar a arma no roupeiro.

Minha irmã carioca (Mangueira, onde é que estão seus tamborins, ó nega... viver só de cartaz não chega), ajudou-me a salvar a minha vida, das doenças e de tudo por consequência. Mas raiva não tem cura, e a memória não perdi quando me cortaram ao meio. Recebi algum auxílio de parentes, de um primo amado, meu retrato transversal, ou eu o dele, e de mulheres de quem não esperava, de quem poderia esperar nada veio. O restante não vale a pena contar, dói demais. 

Não esqueço do "amigo" escravo da múlti (por ter sido o primeiro o cito, pois não esqueço de nenhum), leviano, traiçoeiro, covarde, que vai me pagar, pois sobrevivi, renasci das cinzas e aqui estou. Aguarde-me, com a dúvida e o medo por saber que chegarei numa noite qualquer, mas sem saber quando. O advogadinho da Tozzini, é um morto em vida.

Voltando: ela, atenciosa, com aquela sua famosa mirada congelante, um forno por dentro, pediu para repetirem. Os coitados, eufóricos de tão burros, repetiram as queixas a respeito do auditor que não sorria, que não tinha ouvidos para as facilidades que ofereciam, honrarias, festas... Os javalis selvagens não acreditavam que tinham topado com um bicho honesto (e ligeiro, jogava cartas com as velhas do cabaré enquanto eles dormiam com um ursinho de pelúcia), dentro de um terno azul de três anos. Não deitei na cama da mãe dos filhos da puta porque eram feias de alma.

Ela então os mirou bem e desfechou: se aquele moço disse não, é NÃO! E encerrou a reunião.

Nesse meio tempo, sem sonhar o que poderia fazer a brasileira, tratei de terminar a minha parte: avisei o pelego chefe do Sindicato dos telefônicos que as demissões viriam em massa, era tudo mentira das múltis, vai por mim. Como eu imaginava, ele já estava comprado.

Ela mal me conhecia. Uma semana depois, foi lá em Assembléia pública, lotada de imprensa e de inimigos, no salão nobre da esquina da Borges de Medeiros com Salgado Filho, leu exatamente o que escrevi: NÃO! Os estrangeiros ficaram calados, tinham maioria dos votos dados pelo Antonio Britto. O pelego vendilhão dos funcionários calou mesmo quando ela exclamou que as provas estavam em cima da mesa, uma pilha que coloquei a pau neles. Esperei que dissesse quero ver, era só o que queríamos. Nada.

Saímos abraçados, ela e eu, com todo o mundo bandido contra a gente, mas felizes, tínhamos feito a coisa certa.

A Dilminha é séria. Valha-me Deus, espero que o filho da mãe do Lula, o erro dos erros da esquerda brasileira, não tenha mandado lhe tirar o cérebro e o coração. O Lula, sozinho, contra sua catrefa, que talvez tenha cometido a histórica façanha de colocar à frente do País alguém de fora do círculo vicioso, da quadrilha cujo comandante e maior velhaco foi ele, por não ter sabido esperar só mais um pouquinho e pelo que, ainda incrédulos, hoje sabemos. O Lula que um dia eu amei, mas que é apenas um homem de nenhuma cultura, um sem vergonha comum, que achou de errar logo quando não podia. Resta a Dilma, que quiçá o redima de tudo, oxalá.



PS: Que eu saiba o diretor-presidente (brasileiro) da Brasil Telecom daquela sujeira hoje está preso (se não foi solto pelo Gilmar Mendes), por ladrão, falso, e mais meio código penal nas costas, mas não custa aqui declarar, a ele e a toda a quadrilha, que o meu contrato em Jacarepaguá vence em 2.020, e vou renovar. E os cariocas cumprem o contrato, mesmo tendo de viajar ao exterior. Para seus palacetes em Santa Teresa com o dinheiro do povo, eu tenho uma palafita em Bujumbura.

lunes, 25 de julio de 2011

Nelson Sargento

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No dia dos 87 anos do incomparável Nelson Sargento (Nelson Mattos, Rio de Janeiro, 25/7/1924), de quem em outro momento já desfilamos aqui algumas de suas habilidades, como compositor, cantor, pesquisador de música popular, artista plástico e escritor, expressões do seu dom maior, o imenso coração, vai seu samba "Agoniza mas não morre", cuja primeira gravação é de 1978 (com Beth). Prova irrefutável do seu bom gosto é a morena Teresa Cristina, que o ajuda a dizer o seu clássico.
Saúde, seu Nelson! Viva!



domingo, 24 de julio de 2011

De maldades e lágrimas

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.A RAPOSA CUIDANDO DO GALINHEIRO?

Por Nicolau Lutz Netto


Entre duas correntes pedetistas que buscavam administrar a COMPANHIA ESTADUAL DE ENERGIA ELÉTRICA, no governo estadual que teve início em 1990, foi escolhido, na briga de marido (governador) e mulher (Deputada, depois Secretária da Educação) um grupo de empregados de carreira na empresa, entusiastas do suposto sucessor de Brizola, que quando governou o RS, de 1959 a 1963, estruturou e fez todo o plano de eletrificação do Estado, cumprido religiosamente pelos sucessivos governos da Dita-Dura.


Assim, em verdade, em verdade vos digo, que aquela Diretoria capacitada por técnicos com larga experiência na empresa, foi presidida por uma eminência parda, empregado da Petrobrás, que nunca havia exercido qualquer cargo de comando, que desconhecia a planta energética do Estado e desconhecia a estrutura de administração da CEEE e, como prêmio de consolação, implantaram também na Direção da Empresa um jovem radialista que entendia de rock and roll, promovia eventos musicais e nada sabia da Empresa.


Os gestores que assumiam a Empresa já sabiam que todo o quadro de pessoal, empregados da própria empresa, representavam menos de 60% dos trabalhadores e que 40% deste efetivo (engenheiros, arquitetos, administradores, economistas, eletrotécnicos, motoristas, pessoal de limpeza, vigilância, serventes e até eletricistas) eram contratados de "empreiteiras" e que a maioria "desaparecia" na extinção de seus "contratos de prestação de serviços" e a CEEE ficava obrigada, pela Justiça do Trabalho, a indenizar todas as verbas rescisórias e muitos encargos trabalhistas destes empregados de empreiteiras que apareciam em novos contratos com denominações diferentes, embora pertencentes aos mesmos "empreiteiros".


Tão logo a nova Diretoria deu início aos exames dos contratos e fazendo a constatação das empresas contratadas ao longo de governos anteriores, os novos administradores resolveram estancar o jorro de dinheiro que estava sendo pago em duplicidade (diretamente para a empreiteira - que sumia - e posteriormente para os empregados das mesmas que não eram corretamente por elas pagos) e, para sanear estas irregularidades que enriqueciam os "empreiteiros" (muitos ex-dirigentes da CEEE e que faziam financiamento de campanhas políticas) resolvendo extinguir com esta prática e preencher todas as vagas do Quadro de Pessoal com empregados próprios, um grupo de empreiteiros resolveu alegar que o Governo havia colocado a "Raposa para cuidar do Galinheiro" - fizeram a figura de que a Raposa eram os novos dirigentes, na maioria sindicalizados assim como sindicalizados era quase toda a totalidade dos empregados da CEEE e que o Galinheiro era a própria empresa.


Os empreiteiros foram para as emissoras de rádio, tv e jornais atacando esta diretoria, alarmando a população e o inseguro governo que queria ser popular, e, tais empreiteiros apenas defendendo os seus próprios interesses em continuarem explorando mão de obra de terceiros e construindo as principais obras da empresa, desestabilizaram a qualificada diretoria.


O casal governante, despreparado e que havia recebido doações de campanha, demitiu a diretoria da empresa pelo jornal, e, sem perceber o mal que fez para a CEEE, a cada dois meses o casal governante nomeava uma nova diretoria, desqualificando a empresa, retaliando seu patrimônio e desestruturando sua administração, pelo quem em menos de dez anos, um outro governo altamente vinculado com os colaboradores de campanha e, certamente, interessados em outros ganhos futuros, leiloaram a empresa com valor de sucata.


Este foi o fim da maior empresa simultaneamente produtora, transmissora e distribuidora de energia elétrica do Brasil, ao cabo de mais de setenta anos de pesados e profícuos investimentos públicos porque a mídia dizia que fora nomeada uma Diretoria Raposa, para cuidar do Galinheiro... A COBRA AINDA ESTÁ VIVA (empresas estrangeiras que estão colhendo os frutos), a Criança (CEEE) foi esquartejada, e a população paga uma das taxas mais caras do Brasil, com constantes apagões... o lucro disto tudo vai para os megaempresários estrangeiros que exploram tais serviços implantados pela população.



Essa a carta que recebi de um querido amigo, o Dr. Nicolau Lutz Netto, nobre advogado deste Porto dos Casais, natural de Palmeira das Missões, contando coisas ainda estranhas ao povo, o último a saber, do nosso estado. Pedi a ele para aqui reproduzir. Um pedacinho de uma história sobre a qual ele tem muitos volumes documentais e, mais que isso, tem latente imagens e situações que nos envergonham na sua calma e ardente memória. Como puderam...

Junto veio uma fábula:

Em algum lugar existiu um Lenhador que acordava às 6 da manhã e trabalhava o dia inteiro cortando lenha, e só parava tarde da noite.


Esse lenhador tinha um filho, lindo, de poucos meses; e uma raposa, sua amiga, tratada como bicho de estimação de sua total confiança.

Todos os dias o lenhador ia trabalhar e deixava a raposa cuidando de seu filho. Todas as noites ao retornar do trabalho, a raposa ficava feliz com sua chegada.

Os vizinhos do Lenhador alertavam que a Raposa era um bicho, um animal selvagem; e portanto, não era confiável quando ela sentisse fome ela comeria a criança.

O Lenhador sempre retrucando com os vizinhos falava que isso era uma grande bobagem. A raposa era sua amiga e jamais faria isso.

Os vizinhos insistiam: - "Lenhador abra os olhos ! A Raposa vai comer seu filho." "Quando ela sentir fome ela vai comer seu filho!


"Um dia o Lenhador muito exausto do trabalho e muito cansado desses comentários ao chegar em casa viu a Raposa sorrindo como sempre e sua boca totalmente ensangüentada.... o Lenhador suou frio e sem pensar duas vezes acertou o machado na cabeça da raposa...

Ao entrar no quarto desesperado encontrou seu filho no berço dormindo tranqüilamente e ao lado do berço uma cobra morta...

O Lenhador enterrou o Machado e a Raposa juntos. Neste lugar nasceu uma linda árvore que jamais seria cortada...

"Se você confia em alguém, não importa o que os outros pensem a respeito...siga sempre o seu caminho não se deixe influenciar... não vale a pena".

Pois é.



sábado, 23 de julio de 2011

De novo Seu Jaime, ao Contralouco, com prazer

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Encontramos o Contralouco (José Hermínio Barranco Azul) em Campo Grande (MS), cruzando num hotel às duas da matina. Não vai o nome do hotel porque era caro demais para o nada que oferecia. Ele a caminho de Ponta Porã.

No outro dia almoçamos com o Contra na Casa do Peixe. Entre tucunarés ao molho branco e pirarucus no espeto (ui), e cervejas, claro, ele reclamou: o vídeo do seu Jaime que colocamos outro dia não era o ideal, o velho tava meio chateado com os argentinos e tal.

Querido amigo Contralouco: são raros os vídeos com o seu Jaime.

Se precisar de algo em Ponta, procure Juanito Diaz Matabanquero, está por lá.

Mas vai um outro vídeo, dizendo como gostamos, infelizmente sem imagens em movimento. Mas a imagem dele a temos, viva na memória, gestos e olhos brilhando.




Sangue in blue

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Uma amiga, Silvana del Fuego Pereira, certa vez abriu um blog para o hoje titular (nem sempre) do Ainda Espantado, nome escolhido pelo menino espantado mesmo. Cada dia mais espantado, olhos arregalados ao ver a ganância sem sentido. Ficou um ano ou mais sem nada, o blog. Em julho do ano passado, o tal titular, de fogo, abriu com uma conversa abolerada, o escriba achando que o computador tinha data errada, tudo errado, como ele, espantado.

Pois hoje, preparado para ir até o amanhecer com boa música e uns tragos, festejo aquele momento de inauguração (Meu Deus, como passou rápido...) colocando o mesmo texto, visões e acontecimentos daquela noite.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SANGUE IN BLUE

Nesta madrugada, lá pelos lados da Auxiliadora, caí num buteco de teto baixo onde tinha um cara tocando saxofone num palco diminuto, emburacado em plano inferior. Porto Alegre tem cada coisa. Além de nós, uma clientela masculina de meia dúzia de gatos pingados e uma mulher que vez em quando ria nervosamente na mesa do fundo. O negro nem aí pra nada, ensimesmado no instrumento, solando Alabama naquele porão.

Eu, que vinha de um dia ruim, de uma semana ruim, de um mês ruim, de décadas ruim, não me sentia muito bem, tinha muita sede e entornava fácil uísque com vermute e angostura tripla.

Durante a tarde vomitei ao ouvir o maluf-ficha-limpa no rádio do carro. E ela não telefonou. Mas não perdi a compostura.

Paredes azuis, garçom azul, luz azul, toalhas azuis, cadeiras azuis, cinzeiros azuis, até o rabo da solitária que ri deve ser azul. Tudo em péssimo estado. Buteco Blues o nome do bar. Não fumante não entra. Oba, me ganhou. Gente que se precisa de duas palavras para definir, começando com negação...

Na mesa eu, Alex e Mareu, eles atolados em uísque caubói. Percebi o atoleiro quando ele disse que etimologicamente o tango pode ser uma onomatopéia que remete ao som dos tambores africanos, e ela replicou que o amor de pica é um negócio muito complicado e que tem que se fuder quem fez acordo com o Collor.

Pelas três da matina o nosso John Coltrane lá no buraco interrompe o seu Blue Train, se esforça tentando falar, desiste e acaba pedindo por gestos mais um copão de gin. O dourado do sax é a única cor diferente no anil onde nos aninhamos.

Dourado como os cabelos dela. Não telefonou.

Então dormi na mesa. Dormi não, apagada leve, só olhos fechados, leveza, o sax tenor se perdendo, longe...

A Bessie Smith pedia ao juiz para mandá-la para a cadeira elétrica, sangrento blues misturado ao sangrento acidente que a matou aos 43 anos. Sonho derivado de algo que li ou ouvi, mas o fato é que de dentro do bar eu estava lá, parado na rodovia e no julgamento.

Sem querer divaguei para "Send me to the eletric chair", agora na voz da Dinah Washington, aí sim testemunhei que ela matou mesmo a facadas o seu negro.

Um acorde mais alto, abro os olhos e Alex e Mareu riem, riem, riem... sei lá, um negócio da faculdade. Peço outro manhattan de três amarguinhas.

A Dinah Washington, esta sim lembro bem, a ouvi na rádio Belgrano pouco antes da sua morte. Moça nascida pobre demais no Alabama, dela tive um LP, raridade que alguém jogou fora, o encontrei jogado numa calçada, eu colecionava discos de pedra achados e ganhados, já que comprar estava fora de cogitação. Do Frankie Laine eu tinha dois, quebraram, ah, "Jalousie", un jour, dans la maison de notre amour une voyageuse est entrée, tango cigano que o sujeito inventou de botar na língua do Tio Sam, todo feliz pra esculhambar um ciúme triste pacas. O original da Rhapsody in Blue, com o Whiteman, eu tive de vender.

Chegadíssima numa garrafa, Dinah morreu no ano em que fugi de casa, em 63, ela aos 39 anos, depois de beber todas e tomar um balaio de soníferos. Parece que teve uma vida boa. Doida, claro, como todos. Dizem que casou de papel 8 vezes, acertou em parte ao se divorciar 7 vezes, teve uma pilha de amantes (Quincy Jones, eca, ela também papou, grande áfrica), e deixou um legado musical divino, obteve o título de “Queen of the Blues”, mas com muitos a chamando de Suprema do Jazz. Seu maior sucesso deve ter sido "What a difference a day makes", que não cito o nome do autor porque é um escandaloso plágio, desde menino denuncio e ninguém me ouve, do bolero Cuando vuelva a tu lado, da grande mexicana Maria Grever – esta não me esperou nascer pra ir embora, gravado com estrondoso sucesso por Los Panchos, acho que em 1964, pois na época se via muito milico alegrão, com solo de voz de Eydie Gormé ainda flor de mulher. Eydie, aliás, cujo nome verdadeiro é Edith Gormezano e nasceu no Bronx.

Taí, recordo blues populares, penso em clássicos, e lá vêm os boleros... pombas, eu colecionava mesmo era discos de boleros!

Do LP da Dinah eu gostava de todas as faixas. "Manhattan" (Isham Jones/Marty Syms) quase furei de tanto ouvir, lá pelos meus 10 anos. Sobreviveu a muitas mudanças de endereço, o meu disco, até que, em 1992, tomei um fogo e uma das mulheres da festa no meu apartamento (chamava-se Covil 2, o apartamento, o nome dela esqueci) afanou o meu precioso bem. Tinha bom gosto, a mundana, pois junto levou também um disco raro de "Los 3 Caballeros" e a Sinfonia Concertante 364 com o Menuhin no violino. Para que se tenha uma idéia da perda, o trio era composto por nada menos que Roberto Cantoral (autor de La Barca, Regálame esta Noche, El Reloj, entre outros boleros), Chamin Correa e Leonel Galvéz. Posso até vir a conseguir gravações deles, mas em vinil nunca mais.

Ah, os boleros. Um convite ansioso para se tomar mais uma, a estética etílica de maior chamamento popular. Não o bolero cubano, emocionado, apaixonado, e sim o lamentoso de fim de noite, culpando aquela maldita traiçoeira, daquela que partiu sabe-se lá para onde e por que, e o pior, com quem. Ânsia dos butequeiros que tremem ante esse bolero rítmico, dramático, daquelas notas que Los Panchos consagraram na guitarra de Alfredo Gil, dos violões lembrando ponteios de salsa. Dos cubanos talvez somente Bienvenido e La Lupe entraram nas notas do bolero rítmico. No Brasil, o estranho do continente, apenas Carlos Alberto e Altemar. Nos demais países muitos podem ser citados. Na Colômbia, Alci Acosta; no Peru Lucho Barrios. Na Venezuela até as crianças sabem quem é Felipe Pirela. Em Porto Rico... Epa, tem o Ecuador: Julio Jaramillo. Ah, o Julio.

Levanto os olhos e o drácula de azul está me estendendo a conta, estourou o Buteco Blues. Coloco a moçada num táxi, pego outro e me mando. Ao passar pela José do Patrô mando o cara parar, vou andar um pouco. Lá em casa tenho uma garrafa de jotabê e dois litros de jotapê. E discos... Podem esperar.



É bom relembrar Julio, dele também tive um disco roubado, isto é, um que me roubaram. Ah, o Julio, ganhei meu primeiro disco dele na noite em que dormi na zona pela primeira vez, na casa de um parente que era dono de cabaré, por obra de uma uruguaya baixinha que disse que um guri tan quietito merecia que o pusessem na cama. No seu quarto fui apresentado ao famoso guayaquileño, El Ruiseñor (rouxinol, para os dinamarqueses que me lêem) de América.

Julio morreu de cirrose em 1978, aos 43 anos. Inventaram parada cardíaca, mas foi de aguardente com cerveja mesmo, muito trago, mares de trago. Dizem alguns que empinava até álcool puro com grapette, mas isso não é verdade.

Então, borracho a dar com um pau, ainda assim dizem que era superado em borracharia pela sua outra característica boêmia: era muito, mas muito, mulherengo, parecia com alguém que conheci num passado longínquo: não podia ver mulher que se transformava, alucinado, e não sossegava o pito enquanto não fizesse lambuseiras inimagináveis com a dona.

Como costuma ocorrer com caras assim, consta que era muito bom de alma e coração, doce e querido, odiava gente sovina e detestava gente intrometida, metida a sabida ou faladeira. Com abstêmios simplesmente não falava. Dos nossos.

Ao morrer uma multidão de 200 mil pessoas não arredou pé da câmara ardente por 3 dias, e deu-se um escarcéu quando o esquife foi carregado pelo Cementerio General de Guayaquil, rolava aguardente, cerveja e pranto.

Todas as pessoas importantes presentes ao evento eram bebuns, boêmio(a)s, mulherengos, homengas, sofredores, enfim, gente da noite.

Na época, mesmo sendo novinho, só 25, fui nomeado representante dos velhos notívagos da Cidade Baixa, mas não pude comparecer às festividades da sua despedida porque tinha medo de avião e não tinha dinheiro para a passagem, então bebemos e cantamos a noite toda, como os outros lá no Ecuador, derramados em lágrimas. A data de seu nascimento é feriado da alma nacional, dia do Pasillo ecuatoriano.

(segue outro dia, esta dor de cabeça...)

viernes, 22 de julio de 2011

ELTON MEDEIROS

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Élton Antônio Medeiros, o menino criado em Brás de Pina, um dos maiores de amor e fé do mundo, compositor, cantor, escritor, instrumentista (que toca desde trombone, sax, percussões... um sem fim), notável em tudo, hoje completa 81 aninhos.

Este blog está cheio de referências ao grande artista brasileiro, hoje só o cumprimentamos pelo aniversário.

Saravá, irmão do Brasil!




(Pressentimento - Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho)

Este blog da palafita, que tantas coisas tristes espantado traz, magnatas em exposição, todos ladrões pelo básico bom senso, hoje pára emocionado para homenagear uma glória do Brasil.



Nesta festa Élton participa com um samba de sua autoria, O Sol Nascerá, composto meio a meio com Cartola.

miércoles, 20 de julio de 2011

Os filhos da puta

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Onde estaremos em 1º de agosto?

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Nosso amigo João Neumann nos chama a atenção para um artigo do jornal El País (España) de 7/7/2011, da lavra de Juan Arias, sobre a apatia (seria essa a palavra?) dos brasileiros diante da roubalheira y otras cositas más. Bem, aqui na palafita há quem deseje invadir os parlamentos com pedaços de pau, para ser quebrado a pau pelos gorilas que guardam as vossas excelências, mas ganhando o noticiário, na tentativa de acordar o povão. A questão que se coloca é onde estão os estudantes, os trabalhadores, os intelectuais? Onde está a chamada sociedade civil? Todos cooptados, como os malditos sindicatos vendidos à má política?
Alguns mineiros querem que o 1º de agosto seja o dia de pararmos tudo, invadirmos praças: a indignação. É só do que a presidente Dilma precisa para poder governar como gostaria. Nossas grandes redes de comunicações noticiarão o movimento? A internet bastará? A ver.

Diz João:

"Recebi hoje um artigo do jornal espanhol El País com um título que me chamou muito a atenção: 'Por que os brasileiros não reagem frente à corrupção de seus políticos?'. A análise, feita pelo jornalista Juan Arias, foi publicada na quinta-feira da semana passada (7), mas seu conteúdo não perdeu em nada a importância. Apesar de ser uma análise de um europeu, ou seja, de um cidadão de um país politicamente desenvolvido e relativamente estável, o mais importante é que é uma visão que aponta para o fato de que, em todo o mundo – em especial na África e no Oriente Médio, mas também na Ásia e em outras regiões -, os jovens e a sociedade estão se levantando contra seus governantes corruptos ou autoritários enquanto que aqui parece que ninguém se incomoda mais.

'Sociólogos se perguntam por quê nesse país, onde a impunidade dos políticos chegou a criar uma verdadeira cultura de que “todos são ladrões” e de que “ninguém vai preso”, não existe o fenômeno, hoje em voga em todo o mundo, do movimento dos indignados'.

Será que os jovens, em especial, não têm motivos para exigir um Brasil não apenas mais rico – ou pelo menos menos pobre -, mais desenvolvido e com maior força internacional, como também um Brasil menos corrupto em suas esferas políticas, mais justo, menos desigual – onde um secretário municipal ganha quase dez vezes mais que um professor e um deputado 100 vezes mais, ou em que um cidadão comum, depois de 30 anos de trabalho, se aposente com R$ 650 (€ 400) e um funcionário público com quase R$ 30.000 (€ 13.000)?

A pergunta é interessante. Segundo constatou o repórter espanhol, dois importantes ministros do governo Dilma Rousseff já caíram – Antonio Palocci, da Casa-Civil, e Alfredo Nascimento, dos Transportes. Um deles, Palocci, era simplesmente o ministro mais poderoso do governo, mas nem isso parece ter afetado minimamente a sociedade. Curiosamente, aponta Juan Arias, a pessoa que mais se irritou e combateu essas denúncias de corrupção até agora foi apenas a presidente Dilma Rousseff, que mostrou-se intolerante com o menor indício de corrupção. O artigo vai além na crítica aos brasileiros:

'As únicas causas que parecem ser capazes de atrair cerca de dois milhões de pessoas às ruas são as dos homossexuais, as dos seguidores das igrejas evangélicas na Marcha para Jesus e as que pedem a legalização da maconha'.

Há quem diga que a apatia dos jovens a serem protagonistas de uma renovação ética no país está ligada a uma propaganda muito bem desenhada que os haveria convencido de que hoje o Brasil é invejado por todo o mundo – e o é, só quem em outros aspectos. Outros atribuem ao fato de que os brasileiros são gente pacífica, pouco dados aos protestos, um povo que gosta de viver feliz com o pouco que tem e que trabalha para viver, mas não vive para trabalhar".

O artigo do Juan Arias:

¿Por qué los brasileños no reaccionan ante la corrupción de sus políticos?


El hecho de que en solo seis meses de Gobierno, la presidenta Dilma Rousseff haya tenido que pedir la dimisión a dos ministros de primera importancia, heredados del gabinete de su antecesor Luiz Inácio Lula da Silva, el de la Casa Civil o Presidencia, Antonio Palocci -una especie de primer ministro- y el de Transportes, Alfredo Nascimento, caídos ambos bajo los escombros de la corrupción política, ha hecho preguntarse a los sociólogos por qué en este país, donde la impunidad de los políticos corruptos ha llegado a crear una verdadera cultura de que "todos son ladrones" y que "nadie va a la cárcel", no exista el fenómeno, hoy en voga en el mundo, del movimiento de los indignados.

¿Es que los brasileños no saben reaccionar frente a la hipocresía y falta de ética de muchos de los que les gobiernan? ¿Es que no les importa que tantos políticos que les representan en el Gobierno, en el Congreso, en los Estados o en los municipios, sean descarados saboteadores del dinero público? se preguntan no pocos analistas y blogueros políticos.

Ni siquiera los jóvenes, trabajadores o estudiantes, han manifestado hasta ahora la más mínima reacción ante la corrupción de quienes les gobiernan. Curiosamente, la más irritada ante el atraco a las arcas públicas del Estado parece ser la presidenta Rousseff, que ha mostrado públicamente su disgusto por el "descontrol" actual en áreas de su Gobierno y ha echado ya literalmente de su Ejecutivo -y se dice que no ha acabado aún la purga- a dos ministros clave, con el agravante de que eran heredados de su sucesor, el popular expresidente Lula da Silva, que le había pedido que los mantuviera en su Gobierno.

La prensa brasileña alude a que Rousseff ha empezado -y el precio que tendrá que pagar será elevado- a deshacerse de una cierta "herencia maldita" de hábitos de corrupción que vienen del pasado. Y la gente de la calle ¿por qué no le hace eco resucitando también aquí el movimiento de los indignados? ¿Por qué no se movilizan las redes sociales? Brasil, que con motivo de la llamada marcha Directas ya (una campaña política llevada a cabo en Brasil durante los años 1984 y 1985 con la cual se reivindicaba el derecho a elegir al presidente del país por voto directo de los electores), se echó a la calle tras la dictadura militar para pedir elecciones, símbolo de la democracia, y también lo hizo para obligar al expresidente Fernando Collor de Mehlo (1990-1992) a dejar la Presidencia de la República ante las acusaciones de corrupción que pesaban sobre él, hoy está mudo ante la corrupción. Las únicas causas capaces de sacar a la calle hasta dos millones de personas son los homosexuales, los seguidores de las iglesias evangélicas en la fiesta de Jesús y los que piden la liberalización de la marihuana.

¿Será que los jóvenes, especialmente, no tienen motivos para exigir un Brasil no solo más rico cada día, o por lo menos menos pobre, más desarrollado, con mayor fuerza internacional, sino también un Brasil menos corrupto en sus esferas políticas, más justo, menos desigual, donde un concejal no gane hasta 10 veces más que un maestro y un diputado 100 veces más, o donde un ciudadano común después de 30 años de trabajo se jubile con 650 reales (400 euros) y un funcionario público con hasta 30.000 reales (13.000 euros).

Brasil será pronto la sexta potencia económica del mundo, pero sigue a la cola en la desigualdad social, en la defensa de los derechos humanos, donde la mujer aún no tiene el derecho de abortar, el paro de las personas de color es de hasta de un 20%, frente al 6% de los blancos, y la policía es una de las que causa más muertes en el mundo.

Hay quien achaca la apatía de los jóvenes a ser protagonistas de una renovación ética en el país, al hecho de que una propaganda bien diseñada les habría convencido de que Brasil es hoy envidiado por medio mundo, y lo es en otros aspectos. O que la salida de la pobreza de 30 millones de ciudadanos les habría hecho creer que todo va bien, sin entender que un ciudadano de clase media europea equivale aún hoy a un rico de aquí.

Otros atribuyen el hecho a que los brasileños son gente pacífica, poco dada a las protestas, a quienes les gusta vivir felices con lo mucho o poco que tienen y que trabajan para vivir en vez de vivir para trabajar. Todo ello es también cierto, pero no explica que en un mundo globalizado, donde hoy se conoce al instante todo lo que ocurre en el planeta, empezando por los movimientos de protesta de millones de jóvenes que piden democracia o la acusan de estar degenerada, los brasileños no luchen para que el país además de ser más rico sea también más justo, menos corrupto, más igualitario y menos violento a todos los niveles.

Ese Brasil que los honestos sueñan dejar como herencia a sus hijos y que - también es cierto - es aún un país donde sus gentes no han perdido el gusto de disfrutar de lo que tienen, sería un lugar aún mejor si surgiera un movimiento de indignados capaz de limpiarlo de las escorias de corrupción que abraza hoy a todas las esferas del poder.

















lunes, 18 de julio de 2011

Educação

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Abaixo, uma carta e um vídeo da Amanda Gurgel, a professorinha potiguar que está dando o que falar.

"Oi,

Nesta segunda (NE: 4/7/2011), o Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE) vai entregar o prêmio "Brasileiros de Valor 2011". O júri me escolheu, mas, depois de analisar um pouco, decidi recusar o prêmio.

Mandei essa carta aí embaixo para a organização, agradecendo e expondo os motivos pelos quais não iria receber a premiação. Minha luta é outra.

Espero que a carta sirva para debatermos a privatização do ensino e o papel de organizações e campanhas que se dizem 'amigas da escola'".

Amanda


Natal, 2 de julho de 2011

Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,

Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, “pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação”. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país. A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.


Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald's, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.


A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE. Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado. Assim como o movimento dos professores sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade.


Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.


Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.

Saudações,

Professora Amanda Gurgel




 

domingo, 17 de julio de 2011

Oigalê china lindaça!

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Bochincho, de e com Jaime Guilherme Caetano Braun (Timbaúva, hoje Bossoroca, RS, 30/1/1924 - Porto Alegre, 8/7/1999), o payador dos payadores.

viernes, 15 de julio de 2011

Alcides Gonçalves, por Aguinaldo Loyo Bechelli

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No dia 2 de abril deste ano, ainda consternados pelo quase silêncio dos gaúchos diante dos cem anos de Alcides Gonçalves, fechados em 2008 (na época nada de blog aqui na palafita), publicamos algo a respeito deste grande artista, com título de um samba de sua autoria, clique em Castigo.

Na época, neste abril, pedimos autorização para um boêmio e pensador paulista, contemporâneo do seu Alcides, para publicarmos um texto seu, redigido em homenagem ao centenário do seu amigo lá em 2008. Sim, um paulista lembrou e registrou com emoção para todo o Brasil ver e lembrar.

Bem, hoje, meses depois, finalmente Aguinaldo Loyo Bechelli recebeu o nosso recado/pedido. Tardou a receber devido a uma briguinha entre o Blogspot e o Wordpress, não se dão.


Aguinaldo é um guri muito famoso (poetas são eternos meninos, anjos, pois não?), cronista de costumes e poeta com ênfase na comédia humana, letrista, percussionista y... mucho más.

Então, agora devidamente autorizados, vai o texto do poeta y mucho más Aguinaldo Loyo Bechelli, memória viva daqueles tempos em que chegávamos amoitados no Adelaide's da Rua Marechal Floriano para  ouvir aqueles "velhos" maravilhosos, nós meio malitos de grana "conversando" uma única cerveja a durar a noite inteira. Ou no Batelão naquela única vez, nos meus 20 anos. Lá dentro, um menino querendo ver mais que os olhos da morena, lá fora os beatles e outros elétricos ruídos que feriam pior que apito da fábrica de tecidos.

A seguir, o antológico depoimento, a carinhosa lembrança, a honra ao mérito. Chorei ao ler em 2008, choro agora de novo ao reler, pensando. Ah, viver... firme, sério, aos pedaços, rindo com amor.

Grato, Aguinaldo.

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PROCURA-SE: ALCIDES GONÇALVES

Compositor inspirado. Cantor e intérprete. Pianista. Violonista. Criatura simples, despretensiosa, despojada, porém extraordinária, Alcides Gonçalves é um dos notáveis nos clássicos da música popular brasileira, não notado como deveria ser. Obscurecido, para não dizer alijado, pela magnitude do consagrado Lupicínio Rodrigues e injusto procedimento das gravadoras, ao excluírem seu nome no selo dos discos. Jogo do contente: Alcides não está só nesse triste chega pra lá. É o caso de Humberto Teixeira em relação a Luiz Gonzaga. Guilherme de Brito apagado por Nelson Cavaquinho. E onde fica Grande Otelo no antológico samba Praça Onze? Todo mudo só cita Herivelto Martins. Há um catatau de casos. Kid Pepe, parceiro de Noel Rosa em O Orvalho Vem Caindo, não aparece. Talvez o mais injustiçado seja o compositor paulista Oswaldo Gogliano – o Vadico, parceiro de Noel Rosa em Conversa de Botequim, Feitiço da Vila, Feitio de Oração, Pra que Mentir.


Alcides Gonçalves não foi somente parceiro de Lupicínio – o Lupi. O primeiro passo para carreira profissional de Lupicínio foi dado em 1935 por Alcides, então cantor de muito sucesso na Rádio Farroupilha. Tinha 27 anos e Lupicínio 21. Com Lupi compôs TRISTE HISTÓRIA e conquistaram o primeiro prêmio em importante concurso, concorrendo com tradicionais compositores. Mamaram em dois contos de réis. E o mesmo Alcides abriu portas e janelas nas rádios do Rio de Janeiro para tocarem as músicas de Lupicínio, o que logo motivou a RCA Victor gravar TRISTE HISTÓRIA e PERGUNTE AOS MEUS TAMANCOS, da dupla gaúcha.

Quanta maravilha Alcides compôs com Lupicínio! QUEM HÁ DE DIZER. MARIA ROSA. CADEIRA VAZIA. CASTIGO. JARDIM DA SAUDADE.

A ingratidão, a falta de ética, fez com que Alcides se afastasse do velho amigo e parceiro. Lupicínio teria sido omisso? Até onde a sua culpa em CADEIRA VAZIA, gravada na ODEON por Francisco Alves, não constar o nome de Alcides? Surpreende: na ocasião, Lupicinio Rodrigues era representante da SBACEM no Rio Grande do Sul, sociedade de direitos autorais. E CADEIRA VAZIA continuou a ser gravada sem o parceiro Alcides Gonçalves.

Para não deixar dúvidas quando ao valor criativo, Alcides foi
parceiro de outros consagrados compositores, entre eles Ataulfo Alves e Waldyr Azevedo. E na qualidade de cantor, ainda que não tivesse sido aplaudido na sua carreira solo, já estaria imortalizado por ter colocado a segunda voz em memoráveis gravações com o Rei da Voz – Francisco Alves.

Morando em São Paulo, eu ia constantemente a Porto Alegre. Participei de inesquecíveis tocatas com Jessé Silva, Plauto Cruz, Peri Cunha, Clio Paulo, Jorge Machado, Túlio Piva, Guilherme Braga, Lucio do Cavaquinho, Mario Barros, Paulo Sarmento, Mario Shimia, Lourdes Rodrigues, Cléa Ramos. E claro ! Alcides e Lupicínio na casa dele ou nos bares Batelão, Adelaide’s, Treviso.

Flavio Pinto Soares era ótimo anfitrião, boêmio sem sono, mas gago de compasso no surdo.

Irreverência à parte, lembro que Flávio me comoveu quando acolheu Alcides em sua casa, muito doente e sem guarida.

Em áureos tempos, hospedei em minha casa, alternadamente, Alcides e Lupicínio. Mas sempre que um deles vinha a São Paulo e precisava ficar em hotel, eu sentia orgulho em poder bancar o cicerone.

De certa feita, vésperas do aniversário de Alcides dei a ele um bandolim. Fomos escolher na tradicional Casa Del Vecchio. Eu sabia ser sonho dele ter aquele instrumento. Atendeu-nos o gerente, o saudoso amigo Evandro, exímio bandolinista. E tome música, lá mesmo. Alcides cantou e encantou acompanhado pelo “mitológico” Rago, Antonio, habitué da loja.

Convém registrar esta preciosidade: um curioso que se deteve para ouvir, cumprimentou Alcides: “Olha, o senhor leva jeito. Pode se apresentar em qualquer programa de calouros... e ganhar.”

Fiz a letra da marcha-rancho ESFERA DA VIDA, na divina música de Alcides. Está no LP – Selo “Artista”, gravado com toda majestade da OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, em 1981, regida pelo maestro Alfred Holsberg. Alcides tinha 73 anos e eu 50.

As gravações tomaram três tardes, em grupos: uma parte sóbria e o resto de pileque. O grau alcoólico de percussionista, violonista,  cavaquinista, trombonista, bandolinista, flautista é aquele que todo mundo sabe, mas eu nunca tinha visto um tocador de violoncelo de porre, com arco e tudo. Alcides fez questão de arrastá-lo para casa do Flávio após a gravação. Lá, ele emborcou mais uns uisquinhos e para surpresa geral, com preciso sestro solou o choro Doce de Coco, de Jacob do Bandolim. Estava explicado.

Quem ia direto da casa para o estúdio não temeria bafômetro, mas os que partiam da casa do Flavio atracavam calibrados. Rolava piscinas de “groselha”. O maestro era chegado só num vinhozinho, de leve. Surgia inteiraço de souza, regia com competência e sensibilidade. Fez os arranjos, selecionou metais, cordas, percussão, regeu. Depois caprichou na mixagem. Eu, por exemplo, gravei pandeiro, surdo e caixa clara (também chamado de rufo ou tarol), instrumentos ideais para o gênero. Gostaria de ter cantado, mas não dava para concorrer com a bela voz de Alcides Gonçalves que tão bem interpretou ESFERA DA VIDA.

Flávio Pinto Soares, munheca de ouro, bancou a edição independente, já que todas as letras das músicas eram suas, menos a minha, que cai de pára-quedas no disco porque o maestro ouviu ESFERA DA VIDA na casa do Flávio e gostou muito.

O poeta e contista Jorge Medauar disse que, sob medida e sensível profundidade, vesti com palavras a fascinante melodia de Alcides.

Cheguei a Flavio e Alcides através do encantado violonista Jessé Silva, meu co-compadre. (Sou padrinho do Eduardo, neto dele. Madrinha – Suzana, filha do Jessé). Jessé conheci em 1965 via seu tio, Peri Cunha (Eraldin Fontoura Cunha), bandolinista popular, clássico, de execuções eruditas.

Alcides, comedido no papo, era espirituoso. Perguntei a ele a idade do Johnson, Silva Orlando, negão parrudo, ex-pugilista, esbanjador de simpatia, velho pacaraio, cantor, voz de baixo profundo, dispensava microfone no seu dó de peito. Tinha a canção Old Man River no repertório. Johnson cantava os seculares Catulo da Paixão Cearense, Donga, Gastão Formente, J.Cascata, Sinhô, seus contemporâneos. E sabia tudo de Lupicínio, rivalizando com Jamelão. Diz que Johnson fez serenata pra Princesa Isabel. Quantos anos teria? Alcides respondeu: “Olha, a idade propriamente instalada não sei, mas tu conheces o imenso pé de jacarandá que cobre a praça principal? Pois! Quando Johnson já calçava 44, aquela árvore ainda era planta de vaso”.

Nesta louvável comemoração do Centenário de Alcides Gonçalves, a gente tem consciência de que os valores eternos jamais se explicam. É como compôs o mesmo Jorge Medauar: “Nunca se fazem versos aos monumentos, aos rochedos e penedos, que dominam o mar com a imponência de seu vulto.” Pego carona neste dizer, sinto que não dá para explicar Alcides Gonçalves. Criatura eterna, não lapidada pelo simples passar dos anos, dos dias, das horas, mas apenas e principalmente pelos momentos vividos.

Ele conservou em plenitude um jeito de ser em consonância com a música. E ao cantar, sem impostação, víamos cores, provávamos o sabor das palavras e a alma aparecia em luz musical.

Como o beija-flor que paira, representou repouso e movimento ao mesmo tempo. Sua desprendida presença vinha revestida de uma auréola azulzinha. Sabia que ser simples não é o começo e sim o fim.

Eh! Não dá mesmo para explicar a cachoeira que impõe respeito ao deslizar nas pedras, rolam em tempo de valsa, com elegância para acariciar a mata, encantando a vegetação ao respingar gotas de orvalho.

Assim, há sinergia com o inesquecível Alcides, na sua bossa de ser, para que o mundo parecesse menos frio e a vida mais suportável.

Fica então o nosso respeito, admiração e agradecimento ao amigo, companheiro, mensageiro cheio de graça, na mais difícil de todas as artes: Viver.

Obrigado, então, Alcides, saudoso irmãozinho, por sua marcante encarnação, dando exemplo para que esta humanidade amedrontada, mísera, insegura, angustiada, vacilante, volte a desfrutar da graça de ir e vir, sem perder o gosto de sorrir.