jueves, 30 de junio de 2011

Deus Lhe Pague

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O vídeo da postagem anterior, como sempre acontece quando vejo qualquer órgão de segurança em ação, me remeteu imediatamente para o mendigo de porta de igreja da peça teatral Deus Lhe Pague, obra-prima de Joracy Schafflor Camargo  (Rio de Janeiro, 18/10/1898 - 11/03/1973), jornalista, dramaturgo, cronista e professor, de 1932, até hoje encenada em todo o mundo. O primeiro grande ator a encarnar o mendigo foi o fantástico Procópio Ferreira (João Álvaro de Jesus Quental Ferreira, Rio de Janeiro, 8/7/1898 - 18/6/79), pai da Bibi, o Ator dos atores (na foto maior abaixo). O texto do Joracy foi levado às telas, imaginem, pela Argentina (Dios se lo pague, 1947, na última foto), aqui nada.

Aos amigos fuminhos, notem que a expressão "Só" (grifei em vermelho), à guisa de concordância, vem de longe.

Quanto ao vídeo, não me refiro à violência dos primatas, cuja bárbara ignorância causa espanto e repulsa, e por si só seria razão para que pegássemos em pedaços de pau e saíssemos à rua dar um fim nisso.

A culpa não é dos primatas. A culpa é dos chefes dos primatas. O poder político, mandalete de banqueiros, grandes ladrões de terras, "empreiteiros", globos da vida, et catrefa. Esses, razão por que eu daria tudo para crer em outro inferno, além deste paraíso feito inferno pela sua perversidade.

Remete para a famosa peça teatral pelo real significado dessas instituições.

Por que e a quem servem? 



DEUS LHE PAGUE
1ª parte.


Mendigo - Deus lhe pague.

(Olha para dentro da igreja, para os lados, para então, ajeitar melhor os jornais, a "bengala" e o chapéu, tomando posição cômoda e definitiva pra o "trabalho"... - Em seguida, entra Outro Mendigo - mesma idade, mesmos farrapos, mas de aparência pior, porque revela um grande abatimento físico. É mesmo esquálido e faminto - O Mendigo, distraidamente, à passagem do Outro, estende-lhe o chapéu:)

Mendigo - Ah! (Risonho) Desculpe... Não tinha reparado que o senhor é colega...

Outro - Ainda não fiz nada hoje, velhinho. Tenho cigarros. Aceita um?

Mendigo - São bons?

Outro - Hoje, até as pontas que consegui apanhar são de cigarros ordinários! (Tira do bolso uma latinha cheia de pontas de cigarros, abre e oferece).

Mendigo - Muito obrigado. Não fumo cigarros ordinários. Quer um charuto? (Tira-o do bolso).

Outro (Aceitando, espantado) - Olá!

Mendigo - É Havana! Tenho muitos! Custam 10$000 cada um.

Outro - Aceito, porque nunca tive jeito para roubar.

Mendigo - Nem eu.

Outro - Não foram roubados?

Mendigo - Foram comprados. Ainda não sou ladrão...

Outro - Desculpe. É que...

Mendigo - Não é preciso pedir desculpas. Não sou ladrão, mas podia sê-lo. É um direito que me assiste.

Outro - (Sentando-se na escada) - Acha?

Mendigo - Acho, mas sempre preferi trabalhar. Como trabalhar nem sempre é possível, resolvi pedir esmola, antes que fosse obrigado a roubar. Pedir dá menos trabalho.

Outro (Alarmado) - E é por isso que o senhor pede?

Mendigo - . O senhor conhece a história do mundo?

Outro - Não.

Mendigo - Antigamente, tudo era de todos. Ninguém era dono da terra e a água não pertencia a ninguém. Hoje, cada espaço de terra tem um dono e cada nascente de água pertence a alguém. Quem foi que deu?

Outro - Eu não fui...

Mendigo - Não foi ninguém. Os espertalhões, no princípio do mundo, apropriaram-se das coisas e inventaram a Justiça e a Polícia...

Outro - Pra que?

Mendigo - Para prender e processar os que vieram depois. Hoje, quem se apropriar das coisas, é processado pelo crime de apropriação indébita. Por que? Porque eles resolveram que as coisas pertencessem a eles...

Outro - Mas quem foi que deu?

Mendigo - Ninguém. Pergunte ao dono de uma faixa de terra na Avenida Atlântica se ele sabe explicar por que razão aquela faixa é dele...

Outro - Ora! É fácil. Ele dirá que comprou ao antigo dono.

Mendigo - E o antigo dono?

Outro - Comprou de outro.

Mendigo - E este outro?

Outro - Do primeiro dono.

Mendigo - E o primeiro dono, comprou de quem?

Outro - De ninguém. Tomou conta.

Mendigo - Com que direito?

Outro - Isso é que eu não sei.

Mendigo - Sem direito nenhum. Naquele tempo não havia leis. Depois que um pequeno grupo dividiu tudo entre si, é que se fizeram os Códigos. Então, passou a ser crime... para os outros, o que para eles era uma coisa natural...

Outro - Mas os que primeiro tomaram conta das terras eram fortes e podiam garantir a posse contra os fracos.

Mendigo - Isso era antigamente. Hoje os chamados donos não são fortes e continuam na posse do que não lhes pertence.

Outro - Garantidos pela polícia, pelas classes armadas...

Mendigo - Sim. Garantidos pelos que também não são donos de nada, mas que foram convencidos de que devem fazer respeitar uma divisão na qual não foram aquinhoados.

Outro - E o senhor pretende reformar o mundo?

Mendigo - Tinha pensado nisso, mas depois compreendi que a humanidade não precisa do meu sacrifício.

Outro - Por que?

Mendigo - Porque o número de infelizes avoluma-se assustadoramente...

Outro (Sorrindo) - E foi por isso que desistiu de reformar o mundo?

Mendigo - Foi. Abandonei a sociedade e resolvi pedir-lhe o que me pertence. Exigir é impertinência; pedir é um direito universalmente reconhecido. Dá prazer a quem se pede, não causa inveja. O senhor já reparou que ninguém é contra mendigo? Por que será? Porque o mendigo é o homem que desistiu de lutar contra os outros.

Outro - Os homens não precisam de nós...

Mendigo - Precisam, senhor... Como é o seu nome?

Outro - Barata.

Mendigo - Precisam, mas não dependem; e é por isso que nos olham com ternura.

Outro - Ora!... Quem é que precisa de um mendigo?

Mendigo - Todos! Eles precisam muito mais de nós, do que nós deles. O mendigo é, neste momento, uma necessidade social. Quando eles dizem: "Quem dá aos pobres, empresta a Deus", confessam que não dão aos pobres, mas emprestam a Deus... Não há generosidade na esmola: há interesse. Os pecadores dão, para aliviar seus pecados; os sofredores, para merecer as graças de Deus. Além disso, é com a miséria de um níquel que eles adiam a revolta dos miseráveis.

Outro - Mas quando agradecem a Deus, revelam o sentimento de gratidão.

Mendigo - Não há gratidão. Só agradece a Deus quem tem medo de perder a felicidade. Se os homens tivessem certeza de que seriam sempre felizes, Deus deixaria de existir, porque só existe no pensamento dos infelizes e dos temerosos da infelicidade. Quem dá esmola pensa que está comprando a felicidade, e os mendigos, para eles, são os únicos vendedores desse bem supremo.

Outro (Desanimado) - A felicidade é tão barata...

Mendigo - Engana-se. É caríssima. Barata é a ilusão. Com um tostãozinho, compra-se a melhor ilusão da vida, porque quando a gente diz: "Deus lhe pague...", o esmoler pensa que no dia seguinte vai tirar cem contos na loteria... Coitados! São tão ingênuos... Se dar esmola, um mísero tostão, à saída de um "cabaret", onde se gastaram milhares de tostões em vícios e corrupções, redimisse pecados e comprasse a felicidade, o mundo seria um paraíso! O sacrifício é que redime. Esmola não é sacrifício! É sobra. É resto. É a alegria de quem dá porque não precisa pedir.

Outro - O senhor é contra a esmola?

Mendigo - Sou a meu favor e contra os outros. A sociedade exige que eu peça. Eu peço. E foi pedindo que me vinguei dela.

Outro - Como assim?!

Mendigo - Porque, obrigado a pedir, fui obrigado a enriquecer!

Outro (em segredo) - O senhor é rico?!

Mendigo - Riquíssimo! Não tive outro remédio...

Outro - Há de me explicar como foi obrigado a ficar rico.

Mendigo - A sociedade é muito defeituosa, meu velho. Pela lógica, o mendigo deveria ser sempre pobre. Pelo menos, enquanto fosse mendigo. Entretanto, pobres, realmente pobres, são os ricos. Pobres de espírito, pobres de tranqüilidade, de fraternidade, e, às vezes, até de dinheiro!

Outro - Não estou entendendo nada...

(Um Senhor que entrara na igreja sai, visivelmente preocupado, agitado, indeciso. Outro estende-lhe a mão:) - Uma esmolinha pelo amor de Deus!... (O Senhor não dá).

Mendigo (Estendendo-lhe o chapéu) - Favoreça, em nome de Deus, a um pobre que tem fome!... (O Senhor dá e sai agitadíssimo - O Outro irrita-se)

Mendigo - Conhece esse sujeito?

Outro - Não.

Mendigo - É o Vieira de Castro, presidente do consórcio das fábricas de tecidos. Milionário. Tanto quando eu! Observou a aflição desse homem, procurando igrejas a esta hora da noite? Sabe o que significa um momento de contrição religiosa de um milionário?

Outro - Não.

Mendigo - Egoísmo. Luta entre eles! Miséria!... Pior do que a nossa!

Outro - Do que a minha?!...

Mendigo - Sim, porque a minha faria inveja ao homem mais rico do mundo... A minha miséria é a miséria mais confortável que há.

Outro - Mas não me explicou ainda como foi obrigado a fazer fortuna.

Mendigo - Pedindo e guardando. Fui obrigado a guardar, porque a sociedade me impedia de gastar. Esta roupa, que recebi como esmola, visto-a há 25 anos. Substituí-la por uma nova, seria desmoralizar a minha profissão.,. Logo, fui obrigado a economizar, pelo menos, o valor de dois ternos por ano... cinqüenta ternos. Vinte e cinco contos!

Outro - A 500$000 cada um?

Mendigo - É quanto me custam agora... Obrigado a comer os restos de comida que os outros me davam, calculo a minha economia, por baixo, em 6$000 diários... sem gorjetas.

Outro (Fazendo cálculos) - Cento e oitenta por mês...2 vezes nada, nada; 2 vezes 8, 16; 1 vez 1, 1; 6, 11 e vai, 2. Dois contos cento e sessenta por ano...

Mendigo - Em 25...

Outro - (Novos cálculos balbuciando e contando pelos dedos) ... Mais de 50 contos.

Mendigo - Acrescente agora outras despesas, como cinemas, teatros, esportes e certos luxos que me pareceram inconvenientes para um mendigo, e compreenderá como pode um mendigo enriquecer e um rico empobrecer.

Outro - Tem razão.

Mendigo - Nós vivemos acumulando as sobras da sociedade. E a sociedade pensa que as sobras não fazem falta... É a ilusão do lucro, porque não há lucro. O que há é uma necessidade menor no momento em que o dinheiro é maior. Quando a necessidade aumenta, o que era lucro passa a ser prejuízo. Se o senhor não tiver necessidade de comprar um automóvel, não sentirá falta do dinheiro que ele custa. Se o senhor não tiver nenhuma necessidade, o dinheiro que tiver no bolso será lucro. É sobra. Pouco se lhe dá deitá-la de fora. E nós, os mendigos, somos a lata de lixo da humanidade.

Outro - Mas o senhor é rico mesmo?

Mendigo - Sou. Mas não tenho culpa nenhuma disso...

Outro - E pretende continuar esmolando?

Mendigo - Até o fim da vida. Não me dá trabalho nenhum... Não pago imposto, não estou sujeito a incêndio nem a falência...

Outro - Mas, se vivesse dos rendimentos, também não precisaria trabalhar. Por que não emprega o seu dinheiro na indústria, no comércio ou na lavoura?

Mendigo - Para que, se não tenho necessidade de arriscar o meu capital?!

Outro - Em compensação, ganharia muito mais.

Mendigo - Puro engano. O lucro maior não é a maior quantidade de dinheiro que sobra. No comércio ou na indústria, quem ganha mais precisa gastar mais. No meu caso, dá-se o contrário: quanto mais ganhar, menos preciso e devo gastar, para ganhar mais e mais. E depois, o que faço não é ganhar; é cobrar o que a sociedade me deve. E cobro humildemente, suavemente, em prestações módicas.

Outro - Quanto lhe deve a sociedade?

Mendigo - Tanto quanto deveria caber a mim, se houvesse uma divisão "camarada".

Outro - Comigo essa gente tem sido muito caloteira...

Mendigo - É que o senhor não sabe corar... Como é que o senhor pede esmola?

Outro - Como todos: "Uma esmola pelo amor de Deus!"

Mendigo - Isso é passadismo!... Ninguém mais ouve esse pedido. Deus é uma palavra sem expressão. Quando se diz "Ai meu Deus" - é como se estivesse dizendo: "Ora bolas!". O senhor nunca ouviu um ateu dizer: "Graças a Deus sou ateu"?

Outro - Já.

Mendigo - Pois então? Hoje, poucos compreendem o valor dessa expressão. Fale em fome. Fome é mais impressionante. Há mais de 30.000.000 de famintos no mundo! Mas fale em fome, sempre onde não haja pão ou comida.

Outro - Para quê?

Mendigo - Para que eles lhe dêem dinheiro. O senhor, com certeza, tem mendigado a domicílio...

Outro - Realmente, sempre vivi percorrendo casas de família.

Mendigo - É um mal. Quem mendiga a domicílio não faz carreira. Só dão pratos de comida e restos de pão. Adote o meu sistema. Especializei-me em transeuntes e portas de igrejas em dia de missa de defunto rico. Leia os jornais. Pelos anúncios, calculo a féria do dia.
(....)

Segurança para quem?

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sábado, 25 de junio de 2011

Vishy Anand: um Rei na República Tcheca

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Este mês de junho será sempre lembrado na República Tcheca como o mês da quase revolução ao contrário, com a deposição de um fantoche e a entronização de um Rei. O povo lamentará eternamente os fuzilamentos e os grandes festejos que não ocorreram. O sonho do renascimento do antigo Reino da Boêmia, desta vez sem conflitos religiosos, sem austríacos e húngaros para atrapalhar, embalou corações e mentes. Pensamos em ir fazendo as malas, na cabeça rodando um pensamento maravilhoso: um reino de agnósticos.

O campeão mundial de xadrez, Viswanathan Anand, foi ao país dos teatros de marionetes como o convidado mais ilustre, para abrilhantar o combate entre David Navara e Sergei Movsesian, dois notáveis enxadristas que há muito romperam a terrível barreira dos 2.700.

Navara – tcheco, 26 anos, rating 2.702 – e Movsesian – armênio, 32 anos, rating 2.705, já estiveram em posições mais elevadas no ranking, atualmente são “apenas” o 39º e o 35º melhores cérebros do planeta, respectivamente.

Para se ter uma idéia, o mais alto rating brasileiro é 2.634 (Vescovi). Vishy Anand é o 1º, com 2.817, dois pontinhos acima do prodígio Magnus Carlsen.

A capital, Praga, enfeitou-se toda, até os pináculos dos prédios, para receber o já lendário indiano. Rádios e televisões não tinham outro assunto, queriam desfile em carro aberto para movimentar o noticiário. Anand, sempre reservado, educado, atendeu a todos com excelente humor, mas nada de desfile.

O presidente da república Vaclav Klaus, político que é, não perdeu a oportunidade e correu a recepcioná-lo, todo fresco.

Os amigos manjam políticos, não é? Dão qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, por um minuto de exposição pública. Imaginem a tontura que deu no sujeito tendo ao seu alcance uma celebridade dessa envergadura.

Mesmo sabendo que Vaclav é filho (renegado) espiritual da D. Stanislava Perkoski (muito falada no google graças a este modesto blog), mais conhecida como Polaca, aquela senhora dona de certa casa, digamos, de diversões, na cidade de Palmeira das Lições, no interior do Rio Grande do Sul, que não por acaso vem a ser mãe espiritual de todos os políticos brasileiros, a maioria também renegados, mesmo sabendo disso, como dizíamos, Anand não pôde se furtar ao encontro, tem o protocolo, essas firulas a que até um Rei é obrigado, de modo que sorriu e se deixou fotografar. 

Esse Vaclav é um sujeito que não crê em aquecimento global, porém não é só isso: além de ladrão de canetas, consta que se avançou na grana do..., deixa pra lá, vai que ele peça a nossa extradição para ser julgado pelos seus cupinchas da sua justiça, o que o nosso governo se apressaria em providenciar.

Vaclav não deixou por menos: transferiu a Presidência para Vishy Anand, por alguns dias. O soberano não aceitou, mas tomou posse como Rei, Vishy I,  no dia 13 pela manhã. A população daria tudo para que fosse de verdade, pois não votou no indivíduo, lá é por delegação (Vaclav, do Centrão, foi eleito pelo parlamento de 282 políticos, pela diferença de dois votos), e sabemos o que acontece depois de delegarmos poderes a essa turma. Na primeira foto, o escritório de Vaclav, que Anand achou indigno de sua nobreza, e na seguinte o local que escolheu para governar, o Castelo de Praga.






Na noite do dia 12 aconteceu a festa de recepção ao evento, onde a estrela maior, evidentemente, foi o campeão. Alguns singelos discursos, champanhe rolando, círculo de príncipes (os políticos não foram convidados), melodias de deuses, com música de câmara do Antoninho Dvořák, noite amena, ah, que luxo. Na festa Vishy aproveitou para levar um lero com Anatoly Karpov, um dos reis de todos os tempos.


Nessa tarde o Rei concedeu uma Simultânea, enfrentando a 26 contrincantes, entre estes alguns excelentes enxadristas. Era para ser 30, mas 4 amarelaram.

Deu autógrafos e achou um tempinho para passear feito um plebeu pelo centro antigo, acompanhado do organizador do evento Pavel Matocha, conhecido como “Bom Cabelo” (segunda foto abaixo). Anand assombrou-se com o consumo de cerveja pelos seus vassalos, comentou com o Bom Cabelo: "Credo, mas essa gente bebe, hein, me lembra o meu amigo João". Ao lembrar-se, pelo nosso correspondente enviou abraço ao João da Noite,  e ao velho abstêmio Sultan Khan, seu antigo professor. E a todos nós.
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Alguns amigos, capitaneados por João da Noite, planejam mudar-se para lá, descobriram que na região da Boêmia se fabrica as melhores cervejas artesanais do mundo. E as mulheres, ah, aquelas eslavas: loiras, altas, andando com salto 15 fininho pelas ruas de pedra, que adoram pintar os cabelos de castanho e marrom, carnudas, seios fartos, roupas coladíssimas, tesudas, ui..., e, bem, não mudemos de assunto.

No dia seguinte houve o sorteio da ordem (quem sai de brancas na primeira partida) do embate. Coube a Anand o sorteio e a realização do primeiro movimento, com o peão do bispo da dama a c4, escolhido por Movsesian, condutor das brancas. A guerra teve início. No vídeo após a foto, cenas do primeiro dia. É muito fácil de entender tudinho porque os caras falam devagar.




No sexto dia de combates David Navara emergiu do campo de batalha - um mar de sangue - como o vencedor, com uma vitória e cinco empates. A Siciliana é a abertura mais praticada na trajetória de ambos, e foi ela que lhe deu a vitória: na quarta partida Movsesian, com as negras (que eram marrons), saiu pela variante que mais conhece, a Taimanov. Navara preferiu uma linha diferenciada em relação a combates anteriores, e a partida seguiu como Fedorov-Safarli (S. Petersburgo, 2010, 0-1) até 11. ... Qxc5. O duelo foi decidido quando Movsesian cometeu um erro no lance 34 e teve que abandonar no 41, a oito do xeque-mate.

A quarta partida: Brancas: David Navara. Negras: Sergei Movsesian. 1.e4 c5 2.Nf3 e6 3.d4 cxd4 4.Nxd4 Nc6 5.Nc3 Qc7 6.Be3 a6 7.Bd3 Nf6 8.0-0 Nxd4 9.Bxd4 Bc5 10.Be2 e5 11.Bxc5 Qxc5 12.Qd3 b5 13.a4 b4 14.Nd5 Nxd5 15.Qxd5 Qxd5 16.exd5 d6 17.f4 f6 18.a5 Ke7 19.fxe5 fxe5 20.c3 Bb7 21.c4 Bc8 22.Rad1 Rf8 23.Rxf8 Kxf8 24.c5 dxc5 25.d6 Be6 26.Rc1 Ke8 27.Rxc5 Kd7 28.Bf3 Rf8 29.Rc7+ Kxd6 30.Rc6+ Ke7 31.Rxa6 Bc4 32.Rb6 e4 33.Rxb4 Bd3 34.Be2 Rc8 35.Bxd3 exd3 36.Kf2 Rc5 37.a6 Re5 38.a7 d2 39.Rb7+ Ke6 40.a8Q d1Q 41.Qc8+ 1-0

Falamos que o campeão mundial jogou uma Simultânea contra 26 tabuleiros. Vejamos como foi.

Para quem não sabe, isso funciona assim: faz-se um quadrado ou retângulo de mesas e os adversários jogam sentados, o artista fica em pé no meio, andando de um tabuleiro ao outro. Foto abaixo. Os adversários, no caso, têm 26 vezes mais tempo para pensar, e pensar só na sua partida, sem o embaraço de tantas na cabeça. A única compensação ao campeão é o fato de jogar todas as partidas com as peças brancas, a tal de "vantagem teórica", que as estatísticas não deixam dúvida de que existe, o impossível é comprová-la cientificamente.


Vishy ganhou 25. Entre os 25 alguns políticos, inclusive o prefeito de Praga, banqueiros e grandes empresários, estes salteadores perderam em poucos movimentos. A surpresa estava no 3º tabuleiro, com Petr Boleslav, um tcheco de 37 anos, editor de um site de xadrez, com o rating de 2.127. A partida está no tabuleiro à esquerda do blog, acima. Uma Defesa Índia do Rei, Fianchetto, variante Karlsbad.

Petr confessou que o seu estado de nervos era tal (supomos nos primeiros 20 movimentos) que mal conseguia calcular dois lances à frente, apavorado, sentindo Vishy fazer a volta pelos outros tabuleiros e vir se aproximando do seu...

“Fui seguindo por instinto, tentando em vão elaborar um plano para enfrentar o exército branco”.

Falando sobre aqueles momentos, Petr disse que custou a crer no lance 22. Rce1, de Anand. De fato, ali caiu a casa. Com 24. Qc2 o seu coração disparou, batendo mais alto que o relógio astronômico de Praga.

“Quando joguei 27. ... Bxe5 senti algum tipo de mudança no ar. Timidamente olhei para o campeão do mundo. Ele em pé na frente do tabuleiro, mas não olhava para o tabuleiro: ele calmamente me olhava nos olhos. Eu tinha um bom palpite, mas ainda não me atrevia a acreditar. Só acreditei quando ele sorriu e me estendeu a mão”.


Obviamente que Anand poderia se dedicar à partida com mais vigor, a partir de 28. Rd1, e forçar um erro do oponente, ou um lance fraco, mas aí não seria Viswanathan Anand. Ao contrário, tratou-o como a um igual, rendendo-se ao ver uma posição em que ele, Anand, jamais admitiria o empate. Abandonou como abandonaria frente a outro grande campeão. O Rei agiu certo naquelas alturas, protegendo a dignidade de sua coroa: Petr não deveria errar.

Meninos, pra quê! Subitamente Anand havia se transformado em persona non grata, um perigo em potencial. No dia seguinte os políticos se reuniram às pressas no parlamento, a fofoca correndo solta. Complôs, promessas de retaliação. Sabem como eles fazem, não é? Ficam falando aos sussurros uns nos ouvidos dos outros, depois adotam pose de pessoas sérias, iguaizinhos às piores funcionárias da D. Polaca.  Ora, que Rei é esse?, onde já se viu ser condescendente com os súditos. É golpe. Na sua ignorância, ânsia por dinheiro, a politicalha, que nada sabe de democracia, sabe menos ainda sobre monarquia.

Naturalmente, à vista do público agiram de modo diferente. Diante de câmeras e lentes, Vaclav sorria e abraçava a Petr Boleslav, o glorioso homem do povo. Imaginem um gato, ou o Palocci, sorrindo.

Como essa história de fundar uma monarquia na República Tcheca foi uma brincadeira (a temperatura e o Minuano cortando aconselha a gente a ficar em casa, quentinho, tomando vinho e escrevendo besteiras), tudo acabou na mais santa paz. A assessoria de imprensa de Vishy I comunicou que ele não poderia permanecer em definitivo, um Rei do Mundo não pode ter locais favoritos. Os políticos se acalmaram.

Pelo sim, pelo não, Anand tratou de dar logo no pé, à francesa. Ele e sua corte seguiram em seu périplo pelo mundo, sem divulgar a agenda do último dia para evitar que certo político grudasse no seu pé, acima referido, até o aeroporto.

Os amigos deram sumiço nas fotos onde o filho renegado da Polaca aparecia.

Torcemos para que um dia Viswanathan Anand venha ao Brasil. Disposto a ficar.

Y así pasan los dias.

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Fotos: Vladimír Jagr
Vídeo: Praha1
A partida: Brancas: Anand, Vishy. Negras: Boleslav, Petr - Praga, 12/6/2011.
1. c4 Nf6 2. Nc3 g6 3. g3 Bg7 4. Bg2 d6 5. Nf3 O-O 6. O-O a6 7. d4 Nc6 8. d5 Na5 9. b3 Rb8 10. Bb2 c5 11. dxc6 bxc6 12. Qd2 Bg4 13. Rac1 Re8 14. Nd4 Bd7 15. e4 c5 16. Nde2 Nc6 17. Nd5 e5 18. f4 Nxd5 19. cxd5 Nd4 20. Nxd4 exd4 21. Kh1 Qb6 22. Rce1 c4 23. Bc1 c3 24. Qc2 Bb5 25. Rf3 f5 26. e5 dxe5 27. fxe5 Bxe5 0-1
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Oblivión

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Piazzolla compôs em 1982 para Conjunto de Câmara. A peça logo tornou-se famosa no mundo, como trilha sonora do filme Enrico IV, de Marco Bellocchio. Tem sido registrada em muitas versões, reescrita para clarinete, cello, saxofone, oboé e orquestra.

Dizer que é linda e melancólica não diz tudo.

É triste, triste, triste... A alegria de viver que nos escapa, com toda a beleza que há ao nosso redor, quando somos esquecidos.

Às 4 da matina é terrivelmente triste.

Aqui com o violinista Gidon Kremer. 



O álbum Hommage a Piazzolla, tendo como solista Gidon Kremer, foi indicado ao Grammy 1997. Em Oblivión interagem os seguintes músicos, cada um virtuose em seu instrumento: Gidon Kremer (violino, Letônia), Per Arne Glorvigen (bandoneón, Noruega), Vadim Sakharov (piano, Rússia) e Alois Posch (contrabaixo, Áustria).
  

miércoles, 22 de junio de 2011

Peñarol, a morir!

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Dale dale carbonero!

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De Israel a Sao Paulo, todo por un amor: PEÑAROL


Por Diego Loaiza, hoje no Futbolred



Dos días y medio de viaje pasaron para que Fabián Klein llegara a ver al club de sus amores.

En pleno Sao Paulo, sede del partido final de la Copa Santander Libertadores 2011, FUTBOLRED tuvo contacto con un aficionado uruguayo que se trasladó desde el país donde reside actualmente, en el Medio Oriente, hasta Montevideo por un sueño, ver a Peñarol coronarse campeón del torneo continental por sexta vez en su historia.

El amor por el fútbol todo lo puede y así lo indica el testimonio de un seguidor del equipo aurinegro que tiene 28 años, vive hace seis años y medio en Israel y espera presenciar por primera vez un nuevo título de Libertadores del cuadro 'manya'.

"Trabajo allá, vivo allá hace seis años y medio, empecé un trabajo nuevo hace un mes y les dije, me disculpan pero me mandaron el pasaje, les tuve que decir que me mandaron el pasaje como para mostrarles que no tenía de otra, me tengo que ir, en dos semanas vuelvo, hasta la vista y allí empezó esta locura. Viajes, escalas, esperas, cenizas volcánicas", aseguró Fabián Klein, en las afueras del Hotel Tivoli de Sao Paulo donde está hospedado el equipo que mueve tanta pasión en él.

Como buen hincha, no lo detuvo nada. Viajó dos días y medio para ver el 0-0 de la ida en Montevideo y hoy está en Brasil, con un boleta en la mano para entrar al estadio Pacaembú y ver a su club levantar un nuevo trofeo.

"Viajé de Israel a Frankfurt, en Frankfurt estuve nueves horas de escala, hay doce horas de viaje hasta Sao Paulo. Allí once horas trancado en el aeropuerto, de Sao Paulo a Porto Alegre en avión con toda la hinchada del Santos y yo de camiseta del Peñarol. 150 personas cantándome, insultándome y después de Porto Alegre corriendo a la estación de Omnibus, que se me perdía la reserva. Espere seis horas más en esa estación y después once horas de viaje hasta llegar a Montevideo. Llegué el mismo día del partido a las doce del día", comentó Fabián.

Toda esta historia comenzó hace unos años como les sucede a muchas personas, su papá es fanático del 'manya'. Él lo hizo hincha pero "después la pasión vino sola, no quiero culparlo de mi enfermedad". Klein nació en 1982, año en que Peñarol se coronó campeón por tercera vez de la Libertadores, y espera que esa fecha sea un amuleto de la suerte para el cuadro que orienta Diego Aguirre.

"Capaz que le traigo suerte. Es la primera vez que estoy así como tan enfermo, que me voy acordar de todo y que se lo voy a contar a mis hijos y a mis nietos", dijo lucía con orgullo la camiseta a rayas amarillas y negras.

Este aficionado, como seguramente la mayoría de de los uruguayos, esperan que el conjunto aurinegro vuelva y saque la casta actuando como visitante en esta edición de la Copa Libertadores. Dejaron el camino a Internacional en cuartos de final actuando fuera de su patio y en semifinales, en Buenos Aires, eliminaron a Vélez Sarsfield. Ahora, esperan con ansias una nueva corona en Sao Paulo.

"Eso es lo que da más fe para creer que es posible, las cinco Libertadores que tenemos hasta ahora las ganamos afuera de casa, y esta Libertadores en especial nos está yendo muy bien, así que esperemos cerrar con broche de oro y que la Copa vaya para el palacio de Peñarol", concluyó Klein, que no paró de ondear la bandera que tenía entre sus manos.

En pocas horas sabremos si la travesía de este seguidor 'manya' habrá recogido sus frutos, pero lo cierto es que lo que vivió, lo hizo todo por amor a Peñarol.
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Inverno

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O Inverno é parte de As Quatro Estações, um conjunto de 4 concertos para violino, de 1723.
É a obra mais conhecida de Antonio Lucio Vivaldi (Veneza, 4/3/1678 - Viena, 28/7/1741). Vivaldi, o padre ruivo, é outro que morreu na pobreza, vale a pena ler a sua biografia.
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martes, 21 de junio de 2011

Nelson Gonçalves: para sempre Boêmio

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Em 21 de junho de 1919, junto com o solstício de inverno,  surgia Antônio Gonçalves Sobral, na cidade gaúcha de Santana do Livramento. Logo se foi com a família para São Paulo, morando no Brás.

Hoje, NELSON GONÇALVES  completaria 92 anos. O Boêmio partiu numa noite de sábado, no Rio, em 18 de abril de 1998.

Dos cantores populares, o melhor do mundo.

Pelo que hoje se ouve nos rádios, jamais voltaremos a ter algo parecido, nem em sonhos. E isso que usava somente um terço da sua voz, mais não precisava.

A rede e as bibliotecas do mundo são pródigas em informações sobre a sua vida, então aqui diremos poucas palavras.

Suou a camisa, como engraxate, tamanqueiro, jornaleiro, mecânico, garçom e pugilista (com 16 anos, peso médio - 69 Kg - campeão paulista), até ser reconhecido. Já no Rio de Janeiro, Ary Barroso, que além de grande compositor e apresentador de shows de calouros era especialista  em dar mancadas, gênio destemperado, o aconselhou a desistir. Podemos imaginar o que significa para um cantor iniciante ouvir isso de um gigante de sua época. Não desistiu. No dia em que não o reprovaram em concurso de cantores sem antes ouvi-lo direito, tudo mudou.

Nelson era taquilálico (falava rápido demais, precipitadamente), o que era confundido com gagueira e lhe valeu o apelido de Metralha. A boca não se dava bem com uma parte do cérebro, e este, sendo mais rápido... Milagrosamente, a "gagueira" sumia quando cantava.

Com o sucesso Nelson também ganhou problemas sérios com drogas (nesta seara os problemas sempre são sérios), algo não, digamos, incomum, nesse meio (tomar coragem para enfrentar grandes platéias no início da carreira? Modismo? Pediríamos aos psicólogos e psiquiatras para explicarem, caso estes não fossem todos malucos). Dizia: "É mais fácil sustentar dez filhos que um vício". Quando o enjaularam por 30 dias em 1965, Adelino Moreira foi visita-lo. Ao ver o amigo no cárcere, Adelino sucumbiu e chorou copiosamente. De trás das grades veio o vozeirão: "Não se preocupe, Adelino, vai ficar tudo bem de novo".

Gostava de falar, e não era de meias palavras, abria a "metralha" e ia dizendo tudo, de um jeito que para alguns era incômodo, áspero, mas que nada mais era que o seu modo honesto de se comunicar, pura sinceridade, sem refinamentos nem frescuras. 

De vida atribulada, intensa, foi o retrato de muito do que cantava. Mulherengo a dar com um pau, bom copo, amicíssimo e com temperamento de vulcão em estado de latente erupção, se esquentar mais um pouco sai fogo. Um tantinho saudosista, como todos os boêmios: "O Rio de antigamente é minha grande saudade. Ninguém assaltava. Você saía do Dancing Avenida com duas mulheres, uma em cada braço, e vinha andando da Lapa até a Glória. Ninguém mexia com você”. Dos nossos. Epa, nós é que somos dos dele, e olha lá.

Já maduro, andava pelo país todo, às suas expensas, dando palestras em escolas. Assistimos a uma. Contava à moçadinha o drama que viveu e os horrores que cometeu, chegando a bater nos seios da moça - uma fã - que o recolheu andando a esmo pela rua, em 1965, e o levou para a sua casa, quando todas as portas haviam se fechado. Com paciência, resignação e amor, Maria Luiza recuperou o Boêmio, e veio a tornar-se sua companheira por 32 anos, 13 filhos, sendo 10 adotivos (olhaí os 10), gente como o Boêmio sempre dá um jeito de fazer o bem, mais ainda quando tem algum no bolso.

Muitas histórias cercam a sua trajetória, alguns escrevem livros, todos querendo ganhar em cima do seu nome, com poucas verdades e muitas mentiras. Triste, mas compreensível. Afinal, por 55 anos, de 1943 a 1998, o homem foi uma lenda viva.

Em 1976 gravou o LP "Nelson até 2001", incluindo a sua milésima canção. No disco cantava Depois de 2001, dele e do Adelino: "Só pretendo morrer / Depois de 2001 / E se deus do céu quiser / Sem inimigo nenhum", para gritar ao final: "É no gogó, Gugu!", referindo ao filho caçula. Era até quando pretendia viver, pelo menos. Dizia sorrindo, naquele jeito apressado: "O velho vai até 2001, rindo da vida". Por pouco, Nelson, por pouco.

Um caso raríssimo de longevidade artística: se vivo fosse, estaria gravando e vendendo até agora. Com os novos recursos tecnológicos, gravar a cada ano se tornava uma brincadeira mais fácil.

O velho era foda, a cada ano reafirmando sua condição de recordista nacional de vendas, gravando tudo o que achasse bom.  Exemplos: Lobão (Me chama), Arnaldo Antunes e Marisa Monte, do Paulinho da Viola (De mais ninguém), Kid Abelha, de Paula Toller/Herbert Vianna (Nada por mim), Legião Urbana (Ainda é cedo) e Lulu Santos/Nelson Motta (Como uma Onda).

Um ano antes de morrer, em 1997, levou mais um disco de ouro, pelo "Ainda é cedo". Em 1998 Adelino Moreira estava finalizando "Lua Namoradeira", que compôs para a sua voz. Não deu tempo, este coração...

Sem jamais lamber as botas do colonizador, gravou em bom português mais de duas mil canções, 183 discos em 78 rpm, 128 álbuns, vendeu cerca de 80 milhões de discos, ganhou 38 discos de ouro e 20 de platina. Os ouros não foram ganhos pelas simples 100.000 cópias, eram milhões, mas na época ainda não havia discos de platina e diamante. Teve seus discos vendidos em todo o mundo.

Na América Latina, parte da Europa e em países de língua portuguesa não surpreende. Surpreende é vender bastante na China, e chegar ao primeiro lugar nas paradas de sucesso na Bélgica, em 1975 (com a música "Naquela Mesa", do Sérgio Bittencourt).

O Boêmio é o verdadeiro Rei do Brasil, não da mídia. Esta teve de curvar-se, como aqueles que o rejeitavam no início da carreira. Essa mídia ladra e pernóstica diz que o maior vendedor de discos do Brasil é o Coberto Ralos, uma grosseira inverdade, repetida incansavelmente para manter seus lucros. Os dados não são confiáveis, mas todo mundo sabe que o maior vendedor sempre foi a dupla Tonico e Tinoco, excomungada pela "elite" em seus rega-bofes de palácios, mas que atingia a alma do sofrido povo brasileiro, explorado e mantido inculto pela mesma elite cafifa.

Com o Boêmio a pancada é mais embaixo, atingia a todos: o ouvinte de Tonico e Tinoco, do Coberto Ralos e de Mozart, com todos os intervalos entre um e outro.  

A seguir, três canções. Tal a discografia do homem, é muito difícil selecionar três, mesmo que a rede, descontadas as repetições, tenha somente uns 5 por cento da obra. Enfim...
A todos os amigos, em especial a Dolores.


Revolta (Nelson Gonçalves, letra, e Raul Sampaio, música), de 1959.



Renúncia (Mário Rossi, letra, e Roberto Martins, música), o seu primeiro grande sucesso, de 1943, aqui com Tim Maia.


(02/fev/2013: os assassinos retiraram o espetacular encontro de Nelson e Tim Maia, por violação de direito autoral, isto é, para que fique mofando em seus arquivos, forçando a turma a gostar dos sertanojos que nos empurram, mas alguém há de postar outro. Enquanto isso tentarei descobrir o nome do responsável no Brasil, aqui na palafita estamos cheios de boas intenções para com esses animais, ops, sem ofensa aos animais, estes não se grudam em maldades que nem dinheiro é. Um coitado que há de se cuidar e devolver, não gostamos do gesto)





O negócio é amar (Dolores Duran - Carlos Lyra), com Fafá.




Em São Paulo a sua filha Lílian Gonçalves, butequeira que de tão boa já é chamada de Rainha da Noite, é dona do Bar do Nelson, o bar do boêmio, reduto desta raça única que são os boêmios, e ponto de encontro de compositores, cantores, artistas, que abre as 4 da tarde e vai até o último cliente, música ao vivo sem parar e num clima de... ah, os boêmios entendem. Lá a Dercy Gonçalves comemorou os seus 103 anos (a certidão diz 101, mas feita com dois anos de atraso, diz ela, nos idos de 1907, e estava há um mês comemorando, não sossegava: aos 103 e caindo na noite!), no que foi a sua última apresentação, partiu 5 dias depois.

(Obs: Lá pelos idos de 1995, um cidadão, Sérgio Tadeu Vargas Côrtes, homem excepcional, grande contista, uma visão de mundo..., com aqueles olhos de mouro, estrelas, que viam o Universo de dentro da tenda nas noites do meio do deserto..., generoso, invadiu minhas gavetas e decidiu fazer um livro, e quem o demove?, Selecionou uns 20 contos. Ainda bem que não abriu a gaveta bem de baixo. Saiu: Pela Noite. Sobrou para mim na hora de lançamentos em casas de cultura, anúncio em rádios, jornais, a lenga de sempre. Eu não gostava, esse comércio é fogo. Convenceu-me a dar palestras em universidades, PUC, UFRGS, etc. Eu empurrava um copão de uísque, para espantar a timidez e lá ia. Um dos contos se intitulava Hoje tão longe, alusão direta à Revolta, que nunca esqueci por ouvir no rádio nos verdes anos, 4, 5 ou 6 de idade. Na PUC, na Federal e em outras foi uma festa, com a moçada da literatura, publicidade e outros bichos, era autógrafo, queriam me comer e tal. Até que um dia ele me arrastou para uma particular, especial para doutorandas e mestrandas em educação, psicologia e ciências sociais, sei lá, professoras. Escolheu o conto Hoje tão longe para ser lido. Eu tinha uns 40 ou 41 anos. Lá fui eu e meu chapéu, com aquele copão. O Sérgio foi lá na frente ler o conto, eu falaria ao final, com perguntas e tal. Na metade da leitura o enorme salão estava vazio, foram saindo uma por uma. Ele me disse que errou, o conto era "muito forte", o herói era um gigolô de putas de rua, tinha palavrões e mortes no texto. Doutorandas... Um conto que botou abaixo a meninada e a cidade? Aí larguei de mão, me desculpe, meu amigo, nessas não vou mais. Aprendi muito naquela tarde. Daria um conto.)

lunes, 20 de junio de 2011

Cidadão Boilesen

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Um ano e meio depois da estréia nos cinemas, enfim assistimos ao premiado documentário Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, resultado de 15 anos de pesquisa.

Chaim é um cineasta carioca nascido em 1954, há 20 anos funcionário da ONU, atualmente chefe do departamento de TV em Nova Yorque.

Trata do envolvimento da classe empresarial na Operação Bandeirantes (OBAN), o ovo da serpente da ditadura imposta ao país pela chamada "classe dominante", isto é, os larápios de sempre: banqueiros, empreiteiros, donos das comunicações et caterva. Os mesmos a quem Palocci e muitos outros se venderam.

Da OBAN resultaram os DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) em todo o Brasil, isto é, os centros de tortura.

Pelo documentário é fácil perceber a quem Sarney e Collor representam atualmente, na defesa de sigilo eterno de certos documentos oficiais. Cara-de-pau não lhes falta.

Já os militares dizem temer repercussão negativa pelos documentos da guerra do Paraguai. Insultam a inteligência da sociedade, pois o vizinho sempre soube - sofreu na carne -, como de resto o mundo inteiro, que não foi guerra, foi genocídio. Até as aves do Sul sabem que os problemas são outros, a começar pela Operação Condor.


O filme está na internet, em 10 partes, desde 7/8/2010, pelo que se supõe que Chaim autoriza a reprodução.

Deveria passar em todas as escolas.
 








domingo, 19 de junio de 2011

Sinfonia concertante 297

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A Sinfonia Concertante K 297-B. A obra para flauta, oboé, trompa e fagote, de 1778, cujo manuscrito foi perdido. Mozart, sempre sem dinheiro, julgou que o extravio foi pura maldade dos parisienses.

Estranhamente, a maravilhosa  peça reapareceu quase cem anos depois. Até os dias de hoje especialistas discutem se a composição é mesmo a original, pois muitos defendem que sofreu alterações ou que foi concluída por outro compositor.

Numa coisa parece que há unanimidade: toda a peça é bela, e a parte orquestral é sublime.

Aqui, o segundo movimento. Bem, uma parte dele, infelizmente no youtube a tesoura não pára, judiaria.
 



O maestro Daniel Barenboim nasceu em Buenos Aires, em 15/9/1942. Descendente de judeus russos, possui as nacionalidades argentina, israelense, palestina e espanhola. Doutor em Música pelas Universidades de Bruxelas, Oxford e Londres, e em Filosofia pela de Jerusalém. Por tudo que representa, é detentor de uma extensa lista de premiações e honrarias.

A orquestra que o acompanha é a West-Eastern Divan, uma orquestra de jovens a que se dedicou, baseada em Sevilha, Espanha, com músicos de países do Oriente Médio, Egito, Irã, Israel, Jordânia, Líbano, Palestina e Síria.

Chico

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Hoje Francisco Buarque de Holanda completa 67 anos.

Filho de intelectuais, desde menino conviveu com diversos artistas, amigos de seus pais e da irmã Heloísa, entre os quais João Gilberto, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Tom Jobim, Alaíde Costa e Oscar Castro Neves.

Chico é o que se pode chamar de unanimidade nacional.





sábado, 18 de junio de 2011

O Rei dos Reis etíope

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Outro dia, lendo as insultuosas manifestações de governantes e da imprensa italiana, ambos propriedade do peripatético, um perigoso irresponsável, o fascista Silvio Berlusconi, sobre uma decisão soberana do presidente do Brasil (o caso Battisti), acabamos lembrando da Etiópia.

Ainda: lendo sobre a posição do Itamarati, a favor do sigilo eterno de documentos, ficamos muito curiosos a respeito do voto brasileiro no infame incidente de 1936, bem como sobre a atuação da diplomacia brasileira nessa e em outras ocasiões.

A Etiópia - significado de "terra de paz superior", segundo especialistas -  é o sítio que possui os traços mais antigos da humanidade, bem como um dos países mais velhos do mundo. Sua dinastia remonta a dez séculos antes de Cristo.

A Igreja Ortodoxa Etíope (nada tem a ver com a Católica, é independente, mas reconhece a ascendência da Igreja Ortodoxa Copta, estabelecida por São Marcos no Egito, cujo chefe é o Papa de Alexandria, sucessor de São Marcos) afirma que na igreja Nossa Senhora Maria de Zion, em Aksum, repousa a Arca da Aliança mencionada na Bíblia, dentro da qual estariam as Tábuas da Lei onde estão inscritos os Dez Mandamentos.

Segundo descobertas e estudos recentes, é o berço do homo sapiens.

Até 1935 nunca fora dominada por uma potência externa. Todos os seus vizinhos de fronteira já haviam se transformado, a ferro e fogo, em colônias inglesas, francesas e italianas.

Tendo como pretexto um mero tiroteio na divisa com uma colônia italiana (Eritréia), em 3 de outubro de 1935 os exércitos de Mussolini iniciaram a invasão. Houve tenaz resistência dos etíopes, enfrentando as armas modernas do invasor. Um morticínio terrível, para os africanos: pedras e lanças contra metralhadoras, tanques, canhões e gás venenoso.

A Etiópia valeu-se da Liga das Nações, que decretou sanções ao invasor. Sanções de mentira: em 5 de maio de 1936 houve a ocupação de Adis Abeba. O fracasso da Liga em impedir a agressão foi um sinal do que viria em 1939: a pior guerra de todos os tempos, a segunda mundial.

Em junho de 1936 o imperador Hailé Sélassie (nascido com o nome de Tafari Makonnen, em 23/7/1892, morto em 27/8/1975), novamente recorreu à Liga das Nações, se fazendo presente na reunião em Genebra, onde proferiu o seu mais famoso discurso.

Os livros de história contam sobre a fala do etíope:

"Certamente que aquela sessão de junho de 1936 foi a mais constrangedora que a Sociedade da Liga das Nações assistiu na sua curta existência. De pé, no púlpito frente ao microfone, o Négus (Rei dos Reis), o imperador da Etiópia Hailé Sélassie, um homem pequeno, barbudo, com uma capa preta sobre os ombros, de enorme dignidade, protestava contra a invasão do seu reino africano pelas tropas da Itália fascista. Viera invocar o principio da Segurança Coletiva, segundo o qual um ataque a uma nação integrante da Liga significava uma agressão a todos os seus membros.

Nas laterais, tentando impedir o seu discurso indignado, lido em aramaico, jornalistas italianos apupavam e vaiavam o estadista. Pior ainda foi o resultado da votação em que ele pedia que os delegados não reconhecessem a conquista do seu país feita pelo agressor, que naquelas alturas já havia ocupado a Etiópia."

Os italianos sairam da Etiópia em 1941, empurrados pelos ingleses na segunda guerra mundial. A partir de então, deu-se a presença inglesa, com sua costumeira "ajuda".

Hoje a Etiópia, terra de petróleo e diamantes, de governantes carniceiros e de uma nomenklatura de nababos, é um dos países mais pobres do mundo (atrás somente da vizinha Somália, esta faminta também com a "ajuda" inglesa), onde o flagelo da fome é uma vergonha para a humanidade.

Hailé Sélassie, também conhecido como Ras (príncipe) Tafari, é tido por muitos como uma divindade, a encarnação de Jah (Deus) na Terra. Négus (Rei dos Reis), Conquistador de Judá, Senhor dos Senhores. A dinastia do trono que ocupou remontaria, tradicionalmente, ao Rei Salomão e à Rainha de Sabá. Inspirou o movimento, ideologia ou religião Rastafari, que se espalhou pelo mundo graças ao jamaicano Bob Marley.

Tudo o que se disser sobre Hailé Sélassie será pouco. Certo é que foi um grande homem e um grande pensador. Se o tivessem ouvido em suas preocupações com o multilateralismo e a segurança coletiva, certamente o mundo seria outro.

Abaixo, fragmentos do seu discurso na vergonhosa sessão da Liga das Nações em 1936.

Eu, Hailé Sélassie, Imperador da Etiópia, estou aqui para reclamar justiça para com meu povo, bem como a assistência que há oito meses passados prometeram a ele, quando, na ocasião, 50 nações concordaram que uma agressão, violando os tratados internacionais, havia sido cometida contra ele.

Não há precedente de um chefe de estado ter vindo falar nessa assembléia, como não há precedente de um povo ser vítima de tal injustiça, estando no presente abandonado e colocado em risco de vida por seu agressor. Igualmente nunca se viu o exemplo de um governo proceder o sistemático extermínio de uma nação por meios bárbaros, violando as mais solenes promessas feitas pelas nações da terra de não usar contra seres humanos inocentes as injúrias do gás venenoso. É para defender um povo que luta pela sua antiga independência que o chefe do Império Etíope veio até Genebra para cumprir com o seu dever, depois dele mesmo ter lutado no comando dos seus exércitos.

Além disso, nunca se viu tão gritante exemplo de um país que tenha se posto a extinguir metodicamente, por meios cruéis, toda a raça de um outro povo, em transgressão a normas de um acordo ao qual aderiu honrada e publicamente, na forma de um tratado concluído com as nações do mundo, que determina que nenhum governo poderia tirar do outro sua própria nação por meio da guerra e que não poderia exterminar inocentes com gás toxico.

Este assunto que trago perante a Assembléia Geral da Liga das Nações Unidas não visa apenas resolver o que a Itália fez, por meio de agressão. Eu diria que isto toca a todos os governos do mundo. Esta é uma questão que envolve o dever de governos de assistir uns aos outros para estabelecer a segurança mundial, coletiva, envolve a própria sobrevivência da Liga das Nações, envolve a confiança que as nações podem depositar nos tratados que firmaram, envolve os valores depositados em promessas que os países pequenos receberam em relação à inviolabilidade de seus territórios e independência, o respeito a esses valores, envolve analisar se o princípio da igualdade entre as nações se confirma ou se os pequenos deverão se submeter ao subjugo dos poderosos.

Em suma, não se trata apenas da Etiópia em questão, mas sim da forma decente de vida dos povos do mundo, que foi afetada e prejudicada.

Além do Reino de Deus, não há governo humano que tenha mais mérito do que o outro. Mas, nesta Terra, quando um governo poderoso acredita que está certo eliminar outra nação, contra a qual nenhuma ofensa tenha sido provada, então chegou a hora do prejudicado trazer os males que vem sofrendo perante à Liga das Nações. Deus e a História estarão observando, como testemunhas, o julgamento que será dado aqui.

Peço a Deus Todo-Poderoso que ele poupe as nações do terrível sofrimento que recentemente infligiram ao meu povo, sofrimento que os que me acompanham aqui foram as testemunhas horrorizadas. É meu dever informar aos governos reunidos em Genebra da responsabilidade que eles têm sobre as vidas de milhões de homens, mulheres e crianças, do perigo mortal a que eles estão submetidos, descrevendo aqui o destino que sofre a Etiópia. O governo italiano não faz a guerra somente contra os guerreiros, mas contra toda a população, ainda que afastada das hostilidades, com a intenção de aterrorizá-los e exterminá-los.

Vocês os grandes poderes, que prometeram dar garantias de segurança coletiva, para evitar que nações pequenas sejam extintas e que o destino que está tendo a Etiópia também venha a ser o seu, consideram vocês que tipo de assistência oferecer, de tal forma que a liberdade do povo etíope não seja destruída e sua integridade territorial seja respeitada? Vocês, os representantes do mundo, se reúnem aqui! Eu vim até vocês, aqui em Genebra, para cumprir o mais triste dever de um Imperador. Que resposta devo levar de volta ao meu povo?

Vocês jogaram um fósforo aceso na Etiópia, mas ele vai queimar a Europa!"

Enquanto 25 membros da Liga das Nações se abstiveram, 23 votaram contra a proposta de Sélassie. A favor, somente o voto etíope. Os representantes do mundo, capitulando, aceitaram o fato consumado: Mussolini havia se apropriado do reino de Négus.

Três anos depois a Europa ardeu em chamas, o horror em sua forma mais vil.

Mussolini foi fuzilado em 1945 pela resistência italiana, e o seu corpo foi exposto pendurado de cabeça para baixo num posto de gasolina de Milão.

Sélassie foi assassinado pelos milicos do seu país, quando a milicagem era moda.

Como se sabe, a ONU sucedeu a Liga.

E nada mudou.
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