viernes, 29 de octubre de 2010

Estão Voltando as Flores

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[Ei, F. Febraban; ei, Dan, eu sei onde vocês estarão no feriadão, e novamente vocês nem sonham onde eu e o pessoal estaremos. Viram, parece que não deu certo o Globogate da semana passada, seus golpistas. Domingo à noite abriremos uma champagne, muitas champagnes, para festejar a derrota da sua turma de bandarras. Ouçam meu riso, seus bandoleiros (bando de doleiros também), seus agiotas sugadores do povo. Ahahah... e tomem muito cuidadinho nos próximos dias, tenho uma amiga necromante que está doidinha pra invocar certas entidades, jogando-as para cima de vocês]

E tornamos a saudar a primavera. Ah, a vida é boa.

Aos amigos apenas: esta marcha-rancho de 1961, com letra e música do Paulo Soledade (Paranaguá, 29/6/1919 - Rio de Janeiro, 27/10/1999), é única.

"Estão Voltando as Flores", letra curtinha. Um hino de esperança. A recebemos hoje, com Altemar, da doce amiga Vanda Turco, junto a um pacote de músicas boas.

Não entendo como nossos artistas não tornam a gravá-la num outubro qualquer, esperando o carnaval, com uma grande banda, coro e tambores a fuzéu. Levantaria o Brasil. O Emílio Santiago andou gravando, mas apesar da sua bela voz, não gostei do arranjo nem da lentidão, ela merece explosão, coro alegre, mais taróis, couros ardendo.

Aqui com Nelson Sargento, (Rio, 25 de julho 1924), cantor, compositor, ator, escritor, artista plástico e pesquisador da música popular brasileira. O som não ajuda, mas vale pelo grande Nelson.


 
Vê, estão voltando as flores

Vê, nessa manhã tão linda

Vê, como é bonita a vida

Vê, há esperança ainda

Vê, as nuvens vão passando

Vê, um novo céu se abrindo

Vê, o sol iluminando

Por onde nós vamos indo.

 
VIVA O BRASIL!

E já nos emocionamos aqui, maioria com os olhos molhados, e botamos a cantar essa menininha Til abaixo.

Refresco 1

Como a turma aqui do AE hoje cai fora, um para cada lado, o refresco fica em dose dupla.
Primeiro, o doido do Tim Maia (Rio, 15/09/1942 - 15/03/1998), o Síndico do Brasil, que adorava peitar a malvada Rede Globo e que amava ervas especiais. Maluco de atar, mas além de enfrentar a "Grobo" reintroduziu os sopros na música popular brasileira.

Joaquim desperta apavorado

Joaquim Balaio Neves reaparece. Que sonhinho, hein, JB? Só de ler me deu uma aflição danada. Alheio a política, estou postando devido aos fatores psicológicos expostos, muitos brasileiros estão assim nestes últimos dias. Também já andei tendo pesadelos semelhantes, na época em que li um livro sobre a história dos papas. E aqui já falamos, à exaustão, em quem vamos votar contra. Ilustramos a matéria com um tubinho verrmelho, mas você não ia querer um gajo dentro, não é?
Abraço.
Salito.

Coisa estranha, Salito, as notícias de ontem me causaram um aflitivo pesadelo. Estava o ... (não vale palavrão, Joaquim) do José Serra com o papa Bentão da ... (de novo, Joaquim, poderia ter referido a Onan que todos entenderiam), junto com o Gregorião VII das orgias, aquele de quem você sempre fala, na capela Sistina.
Você sabe que antigamente era nesse local que os papas cometiam suas orgias, né, enquanto lá de baixo, um porão de galerias, vinham os gritos dos hereges sendo torturados, acho que isso os excitava.
Primeiro o Serra, todo bispão dentro de um vestido tubinho carmim, vendia a Petrobrás para os padres italianos da máfia, depois dançava pelado com o Bentão da Santa Fogueira (de novo, troquei para "Santa Fogueira", coisa amena perto do que colocaste).
Um caótico emaranhado de cenas, rapazes e moças nus, muito sangue, e os berros lancinantes do povo lá de baixo. Volta e meia olhavam para o meu lado, senti que pensavam em me empalar. O Bentão não me perdia de vista, e lá pelas tantas veio para o meu lado. Meti-lhe a mão nas fuças e então fui cercado por uns vinte bandidos. Estava acuado, sem ter para onde correr.
Rapaz, acordei gritando, ensopado de suor, acho que despertei o prédio todo com o grito de pavor.
Que alívio, ufa, quando me dei conta de que foi apenas um sonho mau. Lá se foi a Suzana para a cozinha, preocupada, fazer chá de camomila.

Mas este mundo me ensinou que sonhos muitas vezes são uma advertência.

Depois dessa, eu que já tinha decidido votar na Dilma para não permitir que os múmios retomem o poder, agora descobri que sou ferrenho admirador da minha presidenta desde criancinha, se a encontrar na rua vou lhe pedir um autógrafo de joelhos. Vai que junto com a Petrobrás o Serra decida vender também a Suzana e o meu filhote Carlinhos para os estranjas. De quebra, ainda vai querer que eu ajoelhe para os padrecos, eu, hein? Aqui, ó.

Bom feriadão a todos aí do AE.

JBN

PS: Maravilha a interpretação da fantástica Elza Soares no "Bambino", um descanso para a alma diante do que nossos ouvidos são obrigados a ouvir diariamente. E a própria canção, uma obra-prima da dupla Wisnik-Nazareth. Valeu.

jueves, 28 de octubre de 2010

O anjo das pernas tortas

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Mané Garrincha ou simplesmente Garrincha (Manoel Francisco dos Santos, Pau Grande, RJ, 28 de outubro de 1933 — Rio de Janeiro, 20 de janeiro de 1983), se vivo hoje completaria 77 anos.




O "Alegria do povo", um dos maiores jogadores de todos os tempos, marcou de forma indelével a história do futebol brasileiro. Representante do futebol-arte em sua plenitude, com seu dribles abusados e desconcertantes, na Copa de 1962 carregou o país nas costas e trouxe o caneco. Com Garrincha e Pelé jogando juntos, a seleção jamais perdeu uma partida.



Vinícius de Moraes homenageou-o com o poema "O anjo de pernas tortas":



A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.



Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!



Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.



Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um l. É pura dança!



No dia seguinte a sua morte, Carlos Drummond de Andrade, numa crônica publicada no Jornal do Brasil, escreveu:



"Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.".



Devido a seu rumoroso caso com a cantora Elza Soares, seu grande amor, foi perseguido por uma sociedade eivada de preconceitos.



Vinte anos depois da sua morte, a própria Elza Soares, em comovente aparição, encerra o imperdível filme de Milton Alencar "Garrincha, A Estrela Solitária", cantando a tocante Bambino (letra de José Miguel Wisnik e música de Ernesto Nazareth).

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Posfácio (epa!)

Aqui tenho a mania, instintiva, de achar que tudo é óbvio, todos entendem tudo. Mas não, hoje um amigo me alertou: tem a moçadinha, ansiosa mas nem sempre com os professores certos, a depender da alma que ouve a outra, porque "certo" ninguém é. Mais um doido a chorar? Melhorou. Bem por aí, desprezamos os caras certos, que ainda por cima exploram os bugres com a sua "sabedoria" adquirida mal e porcamente pela cultura de mentira, do sistema horroroso, que o dinheiro pagou e foi assimilada a seus modos. Alma não tem preço. Quase falo mal de dois baianos, deixa pra lá, seria injustiça, só dois brasileiros entre tantos.

Então vejam, meninos e meninas, a história dessa mulher, Elza Soares: hoje, 21/9/2012, ainda é a maior cantora em atividade do mundo. Maior em tudo. Aquele coração... Sempre foi uma das maiores do mundo, desde menina, apesar dos percalços por ser negra e teimosa num Brasil de acéfalos dirigentes que premiam uns aos outros com Juca Patos da vida. Honrosas exceções não contam, confirmam.

Da canção Bambino, ali em cima temos os autores. O Ernesto Nazareth nasceu no Rio em 1863, e ali morreu em 1934. Um colosso reconhecido pelo mundo todo.

O letrista, que também é músico, múltiplo artista, fantástico artista e ser humano, José Miguel Wisnik, nasceu em São Vicente, SP, em 1948, e está vivíssimo, para a alegria dos sentimentais e loucos que não se entregam. Já dediquei páginas a ambos neste blog de mal escritas palavras, eles que me perdoem, disse muito pouco.

Tem muito mais sobre essa nossa gente, basta a gente ir fuçando com o coração, mente arejada, esta que, confesso, ainda tenho muito pouco, vi escolas muito tarde, do lado de fora, salvei-me um pouquinho pelo supletivo de inúteis panfletos no conjunto, ora decorar fórmulas, mas tinha um de literatura que não dizia nada mas me incentivou a tomar a biblioteca pública como moradia.

E tem aquela coisa incompreensível de sentir a vida, a boemia, os sonhos acordado, a razão sem razão de viver, parece impossível colocar em palavras, mas isto vocês já sabem.



martes, 26 de octubre de 2010

Meia-noite no buteco

Ontem lá pela meia-noite, no bar Vagão da Meia Noite, próximo a Usina do Gasômetro, Juanito Diaz Matabanquero (sim, Mr. F. Febraban; sim, Dan, ele está aqui, e com as costas bem guarnecidas, então vão tirando o cavalinho da chuva), João da Noite e eu tomávamos uma das muitas que antecedem a antepenúltima enquanto ajustávamos uns detalhes de algo que precisamos fazer nesta semana, quando alguém mexeu no telão do bar, que reprisava um velho show do Noite Ilustrada. (Viram o que tem de "noite" no parágrafo? Pura coincidência).

Do show saltou para um debate ao vivo entre candidatos.
João da Noite, que contava uma passagem de sua história com uma gringa de Nova Bassano a quem muito amou,  ilustrando com o samba do Vanzolini que diz "...reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima", gravado pelo velho Noite, repentinamente pára de falar, abre os braços e reclama: "Era só que o me faltava, um politicalho e uma politicalha". Opa, disse eu, fala baixo, João.

A mexida na tevê foi obra de um magrelo nervoso, que plantou-se bem à frente do aparelho e ficou roendo as unhas, na torcida por um dos..., hummm, bem, um dos candidatos.

A mesa ao lado, lotada de gente feliz, morreu instantaneamente, todos levantaram e foram embora. Os dois boêmios da mesa do fundo, já altíssimos do chão, que matutavam algum recuerdo, trataram de tirar uma soneca, em dois minutos ressonavam sobre a mesa, um sono reparador, eles merecem, todo boêmio é um menino grande.

João, de frente para o telão, contrariado, fixa nele a sua atenção. Eu sigo falando baixo com Juanito, ele me dá conta do problema que Miquirina Segundo teve com os ladrões de cabras lá nos altos do pastoreio. Calçou o pé na macega e feriu quatro dos cinco, mas sofreu um corte feio no braço, não fosse a chegada de Kafil acha que o perderíamos.

"Debate é apelido!", grita João da Noite. "Isso é briga de rua, briga de bugio, baixaria, mas é tudo verdade o que dizem um do outro, é pouco!". O magricela com desagrado mira de soslaio para trás, mas dá de cara com Juanito e num átimo se arrepende.

"Psit, João, fala mais baixo", tornei a dizer.

João se descontrola fácil, diz que neste mundo o pobretão que não é recalcado é mentiroso ou alienado. Faz sentido. E ele também é, digamos, um pouco espalhafatoso de nascença, mas me atende e dá uma baixada na bola. Sem elevar a voz entra numa de ironia grossa. Fazendo cara de santo: "Querem matar um ao outro, mas por quê, ó Jeová, tanto fingimento, o que será que eles querem ganhar, no fundo, claro que não é dinheiro e cargos para o seu bando, o que será então, ó Osíris?".

Sigo achando sem graça a conversa, mas Juanito não se aguenta, rompe em sonora gargalhada, e segue em ataque de riso, à beira das lágrimas balbuciando: "No, es por amor a "Bracil".

João acaba rindo junto. O que faz a bebida.

O magrelo da primeira fila desta vez não olhou.

E João se adonou da palavra, quando a molha só ele fala. Afirmou, desfiando um sem número de razões, que esse tipo de circo é transmitido assim tão tarde para proteger as crianças, nossos órgãos de imprensa são muito responsáveis.

Faz sentido.

Emaranhou-se conectando e desconectando pensamentos, falou em novela das nove, do aleijume cerebral de alguém chamado faustão topo-gigio, e em dez minutos voltou atrás, dizendo que, pensando melhor, assim está tudo errado: o certo é o contrário, é o debate ser visto apenas por crianças, únicas pessoinhas que poderiam se divertir com os comediantes.

Eu já com dificuldades em me concentrar, tanta coisa a fazer nos próximos dias. Mas faz sentido. Imaginei a criançada rolando de rir pela sala. Mas infelizmente é para outra espécie de crianças, que a esta hora também dormem. Acaba estourando a bomba nas mãos dos notívagos.

Juanito contestou: hijos mios no, señor, pornografia no.

E ficaram trocando belas impressões sobre tão "empolgante" assunto. João parece ter lido meus pensamentos e observa: "Isto é para ninguém ver agora, estão encenando para passar depois no horário político obrigatório".

Entendi: os joões decidiram me estragar a noite em português e em espanhol. Sorvi a loira gelada. Loira me faz bem ao fígado, o que me faz mal são alguns políticos e todos os "pastores", como os amigos sabem. Afastei-me em devaneio, passei a elaborar mentalmente os nossos compromissos - meu e de Juanito - para quarta-feira.

Ressurge, vibrante, o filósofo político: "Sim, senhores, isto não é para adultos, estes se sentem subestimados, maltratados, insultados, se ofendem e trocam de canal ou desligam a droga da tevê". O magricela ouviu mas ficou frio.

E sobe o tom: "O que me espanta é que não têm pudor, como podem fazer isso diante de seres pensantes, não têm vergonha de se mostrarem assim, como profissionais do engodo, eles sabem que nós sabemos e estão nem aí, como sabem que depois das verdades que se dizem em público, depois de semearem discórdia e violência, de estuprarem a laicidade do estado e tudo que encontram pela frente, acabarão em elogios mútuos, abraçados falando em pacificação. Sério é o Siririca, o povo é sábio. Essa hipocrisia causa dano, não funciona no dia a dia do povo magoado".


Minha vez de ironizar: "Bravo, João, ganhou meu voto!, mas o nome do cara é Tiririca".
Pero faz sentido. Como o papo engrossou eu sugiro: "João, vamos mudar de assunto, essa palhaçada acaba em uma semana, faz de conta que acabou ontem".

Por ter ouvido o João, ou por magoado, o dono do buteco achou o controle remoto e de cara feia clicou com raiva, passando para um noticiário, rosnando: "Mas vão os dois pra tonga da mironga!".
O magricela saiu apressado, deixando a água mineral pela metade.
Fez bem o dono da baiúca, mais cinco minutos e ele iria ter como companhia somente o magro e os anjinhos dorminhocos.

"A Tonga da Mironga do Kabuletê" é um samba do Toco e do Poetinha, caiu no gosto popular há décadas, pelo final "... vou lhe rogar uma praga, eu vou mandar é você, pra tonga da mironga do kabuletê". Algo como mandar alguém longe,  mas Vinícius de Moraes dizia que em nagô isso tem um significado um pouco mais preciso.

Com essa, João da Noite se dobrou sobre a mesa e sussurrou: "Ei, gente, esse negócio de tevê em buteco é pra inglês ver, é melhor a gente terminar a noite com samba da Casa do Barão".

Esse é o João, uma hora dando discursos terríveis, em seguida um doce e amoroso guri.

Juanito topou imediatamente, afinal está de visita na cidade, quer espairar.

Eu assenti, sob a condição de que ele pelo resto da madrugada não viesse com papo furado como o de agora. Concordou sorrindo: "Feito, Salito, vamos ouvir a Banda da Lapa e olhar as mulheres, só".

E fomos. Rever Cláudio Barulho e a Banda em noite de primavera.

A Lapa é aqui.


domingo, 24 de octubre de 2010

Refresco matinal

Amanheceu em Porto Alegre (sim, Febraban, agora estou na Portinho, mas isto já está me aborrecendo, sai de mim).


Passei andando pela rua do Brique, a JB, antes de vir para casa. Com cara de sono, os artesãos, antiquários, artistas plásticos e a variada turma do rango recém iniciavam a colocar as mercadorias em exposição.

 O frescor matinal, o cantar dos passarinhos, ah, a primavera é linda quando se volta para casa contente.

Levei um lero com os conhecidos. O camarada Marrom, também conhecido como Wilson Borges, da banca das carteiras e objetos de couro, me abraçou apertado e disse que nunca envelheço, bonito sempre. Nada como ter amigos.
Respondi que me mantenho em relativa forma porque ando chupando muito suco de  lima. Acho que foi lima o que falei.

Fiquei dois minutos parado fixando a morenaça daquela banca que não digo, depois segui meu caminho. Ela lá, curiosa com o interesse daquele coroa de óculos de breu, terno azul, camisa azul e gravata azul àquela hora da manhã. Botei um grilo na morocha. Ela nem sonha com o que a espera.
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Depois descolei uma latinha num buteco das proximidades e fui o primeiro a comer os deliciosos pastéis na tenda da Vera.

Vindo de noite abolerada, não me saía da cabeça um samba do Moacyr Luz, o Poeta da Guanabara. Dos nossos. Está vivíssimo, pelas ruas do Rio, pelos bares do Rio. Sempre bebendo bem.


Saudades do Rio de Janeiro e seus bares, é tempo de novamente mudar de ares.
Saúde, Moacyr!





Pra que Pedir perdão? (Moacyr Luz - Aldir Blanc)

Se é pra recordar dessa maneira,
sempre causando desprazer,
jogando fora a vida em mais uma bebedeira,
ó, sinceramente, é preferível me esquecer

Eu te prometi mundos e fundos
mas não queria te magoar
Eu não resisto aos botequins mais vagabundos
mas não pretendia te envergonhar
(marquei bobeira...)

Vi muitas vezes o destino
ir na direção errada
e a bondade virar completo desatino
a carícia se transformando em bofetada

Ah, eu sou rolimã numa ladeira
não tenho o vício da ilusão:
hoje, eu vejo as coisas como são
e estrela é só um incêndio na solidão

Se eu feri teu sonho em pleno vôo
pra que pedir perdão se eu não me perdôo?

jueves, 21 de octubre de 2010

Sua Excelência

Carlito Dulcemano telefona de Montevideo. Pede encarecidamente que postemos ainda hoje o conto "Sua Excelência", do grande Lima Barreto. Aliás, Afonso Henriques de Lima Barreto recentemente visitou este blog, em Lima Barreto, com algumas verdades sobre a imprensa, da sua época, bem entendido, lá pelo início do século passado.

É uma beleza possuir amigos sensíveis: Carlito, meio cubano, meio uruguayo, conhece a obra de Lima Barreto como poucos.

Pois agora ele diz que com este conto, na verdade, o amaldiçoado escritor carioca mandava um recado para um arcebispo. Da sua época, bem entendido. Um recado com muitos despistes, os onanistas eram muito poderosos, sempre apoiados pelos olhares vulpinos dos políticos, faiscando de inconfessáveis interesses, todo cuidado era pouco.


Afirma Carlito que o sacerdote, escudado na CNBB daquele tempo, mas representando somente uma facção da empresa em que trabalhava, se é que se pode chamar aquilo de trabalho, tratava-se de um reacionário daqueles, um Belzebu de vermelho (foto), do tempo em que o Papa era o chefão do Santo Ofício da Bela Fogueira, o mesmo que a todo instante mandava o Leonardo calar a boca, e Lima Barreto, muito porreta, sabia das suas malvadezas em relação aos pobres de Paris brasileiros. Negras pobres e brancas pobres, então, visadas à beça, o tal arcebispo preferia ve-las mortas a admitir discussão sobre o aborto, prática por alguma razão muito comum nas classes baixas do Rio antigo. Nas altas também, mas as moçoilas destas não morriam ensanguentadas em fétidos açougues da periferia, podiam recorrer à asséptica clínica do eminente médico Dr. Gregorius Hypocritus (hummm... Gregório?), ali pertinho da Rua do Ouvidor.

Bem, custamos a crer, empedernidos incréus que somos, mas há que se reconhecer que é uma versão plausível, que com mais uns rabiscos poderia até ser plenamente convincente, outros tantos e se tornaria uma verdade absoluta, pelo mesmo modus operandi dos urubus ensaiados. Tempos terríveis aqueles. Vai que a imprensa ainda ajudasse o patife bispão das sufragâneas. Carlito domina o assunto: acrescenta que na época alguns padres espanhóis, que eram feras na arte de agasalhar, costumavam se apaixonar perdidamente pelos sacristãos bem armados. Houve tempo em que um desses sacristãos, o negrão Manguaço da Mariana, um caçador de cervos - daí a arma, era quem realmente mandava no baixo-clero lá da rua Santos Dumont. Entrava bufando de arma na mão: cadê as minhas sacerdotisas! Mas isto já achamos que é coisa inventada, e não pelo sofrido e genial Lima Barreto.

Charlando um tempão com Carlito, depois que atualizamos a velha história de Mr. F. Febraban, que presentemente anda à cata de novos mercenários, aproveitamos a deixa do negão Manguaço da Mariana, que caçava cervos, e lhe contamos sobre os muitos viados que comemos quando do exílio na Sibéria. Como todos os recantos do mundo, este também tem suas peculiaridades na culinária: lá se fazem umas celestiais tortas de carne de veado; acompanhadas de vinho tinto..., dos deuses! Naquela paisagem lunar, frio que congela os ossos dos boêmios que cometem a besteira de ficar pela rua até altas horas, o que dizer, então, de sangue de viado com vodka! Do capeta! Para além do sabor único, uma fonte inigualável de vitaminas, estas imprescindíveis naquele ambiente hostil. Ahn... que mania, já íamos mudando de assunto. Outro dia traremos a receita de como se entorta um cervo. Para beber, que é a preocupação mais latente, adiantamos que o sangue do viadinho deve estar quente, extraído logo após a punhalada na jugular, como alguns, pastores ou não, fazem para sugar ovelhas.

Taí, todo engravatado, pessoa do plural e tudo, e esqueço de perguntar a razão de postar hoje, necessariamente, o conto.
Bem, aí vai, a pedido de Carlito Dulcemano Yanés, para os entendidos. Em ministérios.
 
 
SUA EXCELÊNCIA
O Ministro saiu do baile da Embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no cupê depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade.

Todo ele era um poço de certeza. Estava certo do seu valor intrínseco; estava certo das suas qualidades extraordinárias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a deferência universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convicção geral de ser ele o resumo do país, a encarnação dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejos dos ricos. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que ele, ele só e unicamente, seria capaz de fazer o pais chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham…

E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer. Lembrou-se do seu discurso de ainda agora.

“Na vida das sociedades, como na dos indivíduos…”

Que maravilha Tinha algo de filosófico, de transcendente. E o sucesso daquele trecho? Recordou-se dele por inteiro:

“Aristóteles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como Sólon, Justiniano, Portalis e Ihering, todos os filósofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes…”

0 olhar, muito brilhante, cheio de admiração – o olhar do líder da oposição – foi o mais seguro penhor do efeito da frase…

E quando terminou! Oh!

“Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!”

A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.

O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.

O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois sumiram-se.

O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem.

Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora e o mesmo minuto da saída da festa.

- Cocheiro, onde vamos?

Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam.

Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente. Gritou ao cocheiro:

- Onde vamos? Miserável, onde me levas?

Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. O leão da Birmânia, o dragão da China, o língam da Índia estavam ali, entre todas as outras intactas.

- Cocheiro, onde me levas?

Não era o mesmo cocheiro, não era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era o seu fiel Manuel.

- Canalha, pára, pára, senão caro me pagarás!

O carro voava e o ministro continuava a vociferar:

- Miserável! Traidor! Pára! Pára!

Em uma dessas vezes voltou-se o cocheiro; mas a escuridão que se ia, aos poucos, fazendo quase perfeita, só lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, metálico e cortante. Pareceu-lhe que estava a rir-se.

O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as calças.

Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados.

Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libré e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfalmente, não havia minutos.

Nas proximidades um cupê estacionava.

Quis verificar bem as coisas circundantes; mas não houve tempo.

Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus, envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes.

Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou:

- V. Exa. quer o carro?

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martes, 19 de octubre de 2010

Shakespeare: dos nossos!

Na coluna Vinho & Coisa e Tal, do JB de 17/10/2010, o sempre elegante Reinaldo Paes Barreto trouxe um tema interessante que pode ter passado despercebido aos candidatos à presidência e seus séquitos de puxadores. Jamais para João da Noite e companheiros aqui do AE. Para a turma da boemia a história não é nenhuma surpresa, posto que desde muitos séculos é repetida noite adentro pelos bares, tradição oral entremeada por muitos brindes, principalmente nas comemorações de 23 de abril.


Vale a pena reproduzir. Preste atenção, caro arcebispo ecuatoriano aí no bairro da Glória, nada de tempestade em São Sebastião: isso servirá para que o nobre onanista abstêmio pense melhor antes de promover achaques contra Salito. Lendo o que o seminário proibia, talvez um dia ainda se desfaça das vestes coloridas, compre um chapéu de homem e se transforme num festivo cidadão de palavra molhada.

"Como tantos gênios, Shakespeare era alegremente pinguço! Beer or not to beer?

Que Shakespeare foi o maior poeta e dramaturgo da Inglaterra e um desses homens-oceano que surgem de mil em mil anos para botar no papel e no palco “a dor de viver”, todo mundo sabe. Mas que era chegado a uma cervejota, nem todos sabem.

Mas era.

William Shakespeare faz 14 menções à palavra "Ale" e cita cinco vezes a palavra "beer" ao longo de sua obra (cerca de 40 peças). Isso nos leva a duas conclusões: uma é que no tempo de Shakespeare - ele viveu de 1564 a 1616 - a cerveja já era uma bebida muito popular; e, a outra, é que além de gênio, o bardo de Avon gostava de uma “loura”, ainda que vagamente morna.

E isso porque a adição do lúpulo à fórmula da cerveja -- produzida até então apenas pela mistura da água, malte e aromatizantes, como a camomila, o gengibre, o zimbro e o açafrão – introduzida pelos monges, nos anos 700, serviu não apenas para “puxar” o sabor para o amargo mas, e sobretudo, para evitar que ela se deteriorasse rapidamente.

Graças a essa longevidade, a bebida se disseminou pela Europa nos séculos seguintes, sobretudo pela Inglaterra, pela Irlanda, pela Alemanha, pela Holanda e pela Bélgica – até hoje matrizes de algumas cervejas de excelente qualidade.

Mas é a Inglaterra que nos importa neste texto.

Como se divertir em Stratford-Upon-Avon, no século 16, além do teatro e das peças ao ar livre? O vilarejo era um burgo remoto no noroeste da Inglaterra (170 km de Londres), imerso em cerração, chuva e frio, que desde o seculo 11 foi transformado oficialmente em cidade-mercado. Tanto que ainda hoje as ruas se chamam “Rua das ovelhas”, “Rua da madeira”, “Rua da Lã”, “Rua dos vegetais”, por aí.

Bebendo cerveja. De preferência “ales”.

Parênteses: o pai do poeta – John Shakespeare – que fabricava tintas, bolsas e luvas de couro, e as vendia num balcãozinho colado à parte da frente de sua casa, ganhou bom dinheiro e acabou elegendo-se vereador. Depois, em 1556, assumiu uma posição importante no município: tornou-se o provador de cerveja da cidade!

Sua função era assegurar que os pesos, medidas e preços fossem cumpridos corretamente. Ou seja: o DNA cervejeiro transitou de pai pra filho!

Mas mesmo bom de copo, foi graças a ele, John, que William Shakespeare se tornou um extraordinário poeta e o maior dramaturgo inglês, provávelmente do ocidente. Isso porque foi ele que “obrigou” o menino a frequentar a escola e ter aulas de gramática, – coisa rara para crianças não-nobres, naquele tempo.

Corre o tempo. Aos 18 anos, o jovem William se casou com Anne Hathaway, filha de um rico comerciante amigo de seu pai. Quando se casaram, ele tinha 18 anos e ela...25. Estava grávida de três mêses: c’est la vie!

Logo depois do casamento, Shakespeare partiu pra luta. Aprendeu latim e foi para Londres, onde em pouco tempo tornou-se razoavelmente conhecido. Lá, segundo registros de propriedades, compras de terras e investimentos, tornou-se um homem rico. Tanto que tornou-se sócio do Globe Theatre, um empreendimento teatral que reunia grandes autores e atores e tinha por sede um edifício de forma octogonal, com abertura no centro. Detalhe: todos os papéis eram representados pelos homens, sendo os mais jovens os encarregados de fazerem os “roles” femininos.

Próspero, fazia a “ponte aérea” Londres-Stratford e em 1597, comprou a segunda maior casa de Stratford, a New Place, atrás da primeira, onde nasceu. E lá, de 1601 a 1608, se dedicou a escrever Hamlet, Otelo e Macbeth, sua trilogia de ouro.

Mas em 1613 o Globe Theatre foi destruído pelo fogo e Shakespeare teria sofrido um baque e resolvido se desligar do Globe para voltar definitivamente a Stratford, onde a família o esperava.

Morreu três anos depois, aos 52, no mesmo dia em que nasceu – 23 de abril.

Causa-mortis: porre! Morreu de tanto beber.

Mas nenhum outro homem de teatro – antes ou depois – desceu tão fundo pelos corredores da alma humana, para depois perguntar: ser ou não ser?".



Taí. Dizem alguns que bebia em excesso por ser profundamente corno, mas isso é uma calúnia espalhada pelos políticos e arcebispos da época, por motivos que todos sabemos. Em relação aos pastores, some-se o fato de que julgavam o grande escriba um católico recusante. Façamos-lhe justiça, era ateu, mas naquele tempo isso era muito perigoso, imperava raivosa ignorância, até se falar em aborto e saúde pública era tabu, não como agora, 500 anos depois, onde não existe mais fanatismo religioso a serviço de aproveitadores, daí que o velho Shakes se fechava em copas nesses assuntinhos.

Obviamente que aqui não estamos fazendo apologia do suicídio etílico, esse lero de morte nos causa, digamos, algum enfado. Desagradável. Possivelmente deve ter ocorrido  de o ilustre dramaturgo,  num descuido de beber um dia sim e outro também,  ter exagerado um tantinho na quantidade, e é sabido que os apreciadores de cerveja logo aprendem a amar o vinho. Ah, o vinho, os paroquiais onanistas ao menos tem isso a seu favor, pena que para eles tornou-se uma faca de dois gumes quando Gregorio VII, o Gregorião das orgias, tomou aquele bruto fogo na cidade de Trento... mas não mudemos de assunto.
Exageros à parte, convenhamos que uma quota diária de meia-dúzia de chopinhos tirados no capricho, geladérrimos e com colarinho de dois dedos, aliada ao mesmo número de bolinhos de bacalhau feitos na hora, não leva ninguém para a comunidade celestial antes do tempo. Sim, um copito de tequila ou de trigo-velho gelado pode acompanhar, para garantir aquele calorzinho ardido na garganta. Estamos de acordo com a Divina Elizeth, que cantava os belos versos de Luís Antonio: "Eu bebo sim, estou vivendo, tem gente que não bebe e está morrendo".


É verdade, quando se mandou para Londres ficou longe da mulher por 20 anos, porém isso é algo muito natural, para nós que pela tevê conhecemos madames de igual estirpe. Sobre as dezenas de mulheres que o amavam em madrugadas inesquecíveis os seus detratores se calam. Na realidade, a difamação tem a perfídia como substrato. A muitos era intolerável vê-lo pelos botequins, solitário na mesa 8 mirando o copo como se nada em volta existisse, entornando com firmeza preciosos líquidos, não raro sofrendo violentos repentes e acorrendo transfigurado ao seu bloco de anotações. Depois, exultante, olhos brilhando, gritar: "Mais uma na 8, portuga!". Os políticos e os padres, aflitos, mal dissimulando a malévola angústia, se perguntavam: o que será que lhe vai pela cabeça? Sim, noturnos irmãos, a inveja é coisa antiga.


Ao saber da calúnia dos senhores de boca seca e de vestido carmim, Shakes foi definitivo: "A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial".


Saúde, William!

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lunes, 18 de octubre de 2010

Na cama de outro - Parte 2


Por Síndia Santos

Não pude chorar, não se tratava de culpa. Meu marido saiu. A casa permaneceu num silêncio de angústia. Estagnei fixa a olhar pela sacada. Buscava algum desespero e só encontrava sinalizações duras. Estava feito. A casa nova, os móveis, as brigas, nada me segurara, todos me compeliram.

Quis amar e amei. Não importava muito em quais braços, desde que fossem os braços certos. Minha fé precisava de liturgia para se manter viva, criei um santo para venerar. Um santo que não fazia milagres porque estes eram de minha responsabilidade. E meu milagre seria separar-me. O divórcio; uma instituição tão antiga quanto o próprio matrimônio, a dissolução de laços social, cultural e jurídico. Babilônios, celtas, astecas, gregos, romanos, todos puderam recorrer à separação. Mas quem podia sedar os seus efeitos.

A flor de narciso quem sabe? Aquele do mito, que ao ver sua imagem refletida num lago, se lança numa busca desesperada pelo outro, e ao emergir descobre que não era o outro, mas sim, ele mesmo o objeto de seus sentimentos. Narciso mergulha e morre.

Parei no alto do penhasco marrom e cor de abóbora do meu sonho e me lancei ao mar, olhei para o significado daqueles nove anos. Não foi fácil conceber que estar junto doía porque em algum instante deixei de só ser. Em que momento essa massa sem formas, de regras e negligências me abocanhou?, não sei. Meu amante era um reencontro, o mergulho no outro para emergir em mim, uma forma de não aceitar o fim.

Nove anos e o fim.

Éramos tão crianças… Todos os romeus e julietas estão fadados a morrer por não saberem assistir ao próprio crescimento, fazendo pactos para se manterem estreitos. Tanto amor num só olhar e agora o fim. Onde foi parar aquele tempo onde o mundo eram dois corpos a serem descobertos? Tanto amor e fim. Uma intenção simples de querer bem e fim. Onde está o amor agora, minha angústia? Atolado na avareza de nosso amadurecimento?

Era o fim e eu tentava velar meus mortos. O telefonema revelou-me o óbito. Velar os mortos. Sentei-me e espremi algumas lágrimas; não dos olhos, porque esses não eram a sua morada. As lágrimas vinham do estômago que se contraia num nó só.

Há uma fronteira que nenhuma mulher pode cruzar. A transpus para deixar de ser menina, do contrário ainda seria uma porção de carne, músculos e ossos, vazios, restritos. Fui além, decidi que merecia viver.

Pela primeira vez, vi-me por dentro num espelho. Confessei a mim desejos que condenava; condenei-me. Daquele instante em diante, seria eu mesma.

Em busca de mim rejeitei todos os valores que me foram apresentados. Dignidade, decência, moral, orgulho, todos se apequenavam diante da fome voraz por vida.

Distraída feito voyeur escondendo-se do mundo, percebi-me. Havia me acostumado a fingir não ver, percebi-me de surpresa, feito uma figura num quadro que retribui o olhar. Assustei-me, caí, mas mantive o comportamento daqueles que vêem o mundo como um faz de conta. Fiz de conta que era imaginação e aceitei a brincadeira. Não havia como me machucar; enganava-me.

A porta bateu. Meu marido estava de volta. Malas; havia malas em suas mãos. O guarda-roupa foi aberto e peça por peça foi encerrada dentro daqueles caixões. Depois, milhares de fantasmas em forma de blusas penduradas em cabides se espremeram no banco traseiro do carro; no porta-malas, livros, papel pintado travestido de uma sabedoria que não explicava aquele momento.

Algo se rompia dentro do peito, uma hemorragia ganhava formas invisíveis.

- A partir de agora, quero esquecer que você existe. Não me cumprimenta, não me pergunta, não fala comigo. Você consegue entender isso? Você deixou de existir.

Era o contrário, minha existência estava ali, latejando. “Só aquele que se mantém integralmente pode, a longo prazo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, de ser percebido como uma força vital”, cantava em meus ouvidos Lou Andréas-Salomé.

- Dez meses, ficamos dez meses juntos. Apaixonei-me.

Meu marido sorriu, riso cético, assustador. Arrepios transpassaram meu corpo.

- Eu sei, a esposa dele me ligava com freqüência. Não acreditei. Você com um amante?! Não…

Ele riu de novo, eu chorei. Era o meu julgamento e a sentença me definia: eu era uma farsa, uma peça burlesca que não mostrou a que veio em nove anos. Custava-me crer que ele tinha razão.

Nove anos que me levaram a cama de outro, várias camas, camas estranhas, quartos estranhos, tempo estranho, homem estranho. Tempo vertical que não pedia mais de um segundo para transformar a proximidade em imersão. Homem estranho, eternamente próximo, um amante, reflexo de mim. Eu tinha um amante e gemi de prazer em seus braços e suei e amei e gozei inúmeras vezes, gozo do desconhecido, gozo de possibilidades.


Segue AQUI

sábado, 16 de octubre de 2010

Na cama de outro - Parte 1


Por Síndia Santos

Era o início de uma tarde de sábado quando o telefone tocou. Meu marido subiu as escadas que o levavam ao quarto, onde empolgada, eu descobria a dualidade partícula-onda que compõe a matéria na física quântica.

- Qual a senha do seu e-mail?

Lancei-lhe um olhar que misturava despreocupação e reprovação e voltei à leitura. O livro me enlouquecia ao reconstruir o conceito de realidade, apontando-a como coisa indefinível, universo participativo que transmuta diante do observador, se manifestando horas por partículas e horas por ondas. Caía por terra a divisão de Newton, onde as partículas formavam a matéria e às ondas cabia constituir aquilo que não era fundamental em si.

- Segura minha mão.

A mão do meu marido era partícula que tremia e suava. Por um instante, me transformei em onda e fui o frio que brotava de seus dedos.

- Você tem um amante?

Quis mentir. Que diferença faria mais uma mentira entre todas aquelas que havia inventado em dez meses? E o que era mentira senão uma das faces daquele mingau de infinitas possibilidades que era a realidade, como apontava o livro. Paradoxalmente, eu tinha e não tinha um amante.

- Tenho.

Minha confissão causou um colapso na minha existência, assim como a realidade que se fixa quando observada. Repousei o livro sobre a cama, a atenção se interiorizou em acusações e explicações que nunca seriam possíveis. Vaguei no interior de um átomo e feito os elétrons de Niels Bohr, vi a verdade saltar descontinuamente entre consciência e razão. De repente, quando menos esperava, ela escapuliu num motim há muito ensaiado que uníssono me açoitava: adúltera!

Traí uma relação de nove anos, pesava-me a razão. Contudo não me traí, rebatia a consciência. Adultério é aquilo que acontece quando nos recusamos a ouvir o que o corpo tem para dizer. Adultério, ad alterum torum, palavra que vem do latim e significa na cama de outro. Na cama de outro apunhalei pelas costas o que eu era, bicho morto, renasci.

(Segue AQUI)
* Síndia Santos é jornalista e escritora, alma do Fiandeira
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Jumi

Como sabem os mais de trezentos mil amigos deste blog, deixamos de lado a maldita política, vamos votar contra o bando mais pernicioso e fim de papo. Esperamos que todos tenham compreendido, pois aqui não voltaremos a lembrar dessas coisas tristes.
Alegremo-nos, é sábado!

Doravante será assim, um samba num dia, um conto em outro, variedades, uma milonga, abolerados, outro samba noutro dia..., vamos falar dos butecos do mundo, y así iremos levando.

Por falar em samba, hoje vai um parente muito próximo do bolero. Não consegui chamá-lo de "Refresco" no título da postagem, por razões que todos logo entenderão.

É que a Jumi telefonou de Luanda com tudo à flor da pele, o dia amanhecendo (lá), já pela oitava dose de pré-sal após chegar em casa, o coração estraçalhado numa dor-de-cotovelo daquelas. Após uma hora de conversa acalmou-se, mas insistiu com o "sambolero".

Não podemos lhe negar. Mas alegremo-nos ainda assim, isso só acontece com quem está vivo.
Na voz da imortal Clara Nunes, À Flor da Pele (Paulo César Pinheiro, Maurício Tapajós e dela mesma, Clara Nunes).
Tintim, Jumi! Amanhã estarás bem. Penso em ti.

(Os criminosos, as múltis, a quem os direitos foram cedidos, retiraram do ar, mesmo que o negócio deles seja outro, vivem disso, de explorar artistas e povos. Deveria ser da Clara e dos compositores, mas vida de artista, precisa alguma grana... Este vídeo que vai AQUI talvez seja o último vivo na rede. Quem souber copiar, copie, e o recoloque quando tirarem, e vão, aí bote de novo, e de novo...).


viernes, 15 de octubre de 2010

Refresco com Marisa Monte

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Dança da Solidão (Paulinho da Viola), com a deusa-cantora e o célebre Conjunto Época de Ouro. Só ela mesmo... não existe.

Merece um trago ou não? Pega leve... Não são apenas vocês, aqui na palafita todos, de Porto Alegre eu, os demais desde Angola, Germânia, Tanzânia, Uruguay e Polákia, e muitos outros lugares, pobres mortais, queríamos casar com a deusa branca-morena, por um diazinho só que fosse, meu Deus.

Como não podemos, agradecemos aos céus por estarmos vivos. E a aplaudimos com os olhos úmidos.




Outro dia traremos um pouquinho sobre a vida da Marisa. Sabemos que a moça é muito reservada, tanto que desperta ódios de jornalecos covardes. Lemos na rede um tal de Forastieri hijto de mami, o viado surtou, teve um achaque o infeliz, e prenunciou a morte da guria, que nada lhe havia feito, que não o tinha ofendido. Quem morreu?

viernes, 8 de octubre de 2010

Viva o Brasil!

Com o editorial Sigiloso tribunal militar os múmios do jornal Folha de S. Paulo, agonizantes, não sossegam, seus guinchos horrorosos são ouvidos pelo País. Querem a todo pano examinar o processo militar que a ditadura aplicou em Dilma Rousseff, na época pouco mais que uma menina, depois que se divertiu torturando sua mente e seu corpo.
O gigante desinformantossauro e seus cúmplices precisam de uma bala de calúnias de prata para matar a candidata antes do dia da eleição.
Ora, não é preciso ser adivinho para saber o que contém a risível papelada: acusações incoerentes feitas por milicos e civis analfas e sanguinários de um tempo que felizmente passou. 
Como hoje falou Celso Lungaretti:
"Em nenhum momento a Folha toca no ponto que venho levantando desde 2008, quando do episódio algoz e vítima: o que esse processo contém é a versão unilateral de usurpadores do poder e terroristas de estado acerca dos que resistiam à sua tirania.
Como a tortura era generalizada e bestial, os militantes presos reservavam suas forças para evitar fornecer informações que levassem à localização de outros companheiros, da rede logística e de planos importantes.
Seria insensatez aguentar pau-de-arara, choques e espancamentos para negar que tal ou qual companheiro participara de determinada ação; a regra não escrita era confirmarmos o que os torturadores já sabiam e o que eles acreditavam ser verdade, pois, afinal, nenhum de nós estava preocupado com enquadramentos penais naquele momento.
Sabíamos que as farsas encenadas nas auditorias militares serviam apenas para dar aparência de legalidade à fixação das penas que os serviços de Inteligência das Forças Armadas previamente estipulavam. Então, de que nos adiantaria aclarar o quadro?
Os sites e correntes de e-mails da extrema-direita, evidentemente municiados por torturadores do passado como Brilhante Ustra, divulgam incessantemente esses sambas do crioulo doido.
Sou apontado como jurado de um tribunal revolucionário que nem sei se ocorreu, como autor de um comunicado fantasioso e outras sandices.
E, mesmo sem saber quais os participantes de cada ação (era informação restrita apenas a quem precisava mesmo saber), eu conhecia muito bem a sistemática operacional e posso afirmar categoricamente que, em quase todos os relatos que a extrema-direita difunde sobre sequestros de diplomatas, expropriações de bancos, etc., são apontados muito mais autores do que os nelas efetivamente envolvidos.
Então, o que o STM está até agora negando à Folha não são informações fidedignas, mas sim disparatadas ou desconexas.
Mas, como o eleitorado brasileiro ignora tais detalhes, tenderia a tomar como verdadeiras as acusações que os serviçais da ditadura fizeram a Dilma Rousseff, sejam lá quais forem."

Os múmios sabem de tudo isso, mas querem uma frase, qualquer coisa, para atribuir à moça a pecha de dedo-duro ou algo parecido. A sorte grande seria atribuir-lhe a pecha de assassina, por obra do que os verdadeiros criminosos fizeram. Mas isso não encontrariam, nem a ditadura ousou tamanha bobagem.

Depois desta, o blog AINDA ESPANTADO, que desde cedo abriu o voto para Plínio de Arruda Sampaio, não vê mais como ficar alheio ao que se passa, e conclama a todos quantos passem por aqui a votarem CONTRA a extrema-direita representada por Serra, contra os répteis, contra os barões do atraso.
Não passarão!
Viva o Povo Brasileiro!
Viva o Brasil!

Salito

Refresco

Já que hoje falamos em políticos, o refresco da sexta vai com Cazuza.

Nina Moreno

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No mês passado, comemorando 20 anos da minha suposta morte, em Velório à Pampulha recuperei aqui um texto que escrevi na época sobre e para os amigos. O "Pampulha", para quem não lembra, é um falecido bar que foi de propriedade do nosso querido amigo Antonio Augusto Peixoto Magalhães, um portuga nota dez que hoje está no O Porto, na André da Rocha com 24 de Maio.

Aquele texto acaba assim:

"Lá no palco, o Pato, o Claudião e a Nina Moreno conversam seriamente, a Verinha na mesa a estibordo. A cantante uruguaia finalmente toma o microfone e anuncia, em portunhol: “Carísimos, me voy a cantar la ultima en esta noche, después los músicos y yo tenemos de hacer una apresentación, desde ahora hasta al mediodia, si no más, no velório de un loco que se murió... un adiós a Salito!”.
Não resisto, levanto, ando até o meio da pista de dança e grito: Nina, mi viejita, canta Por La Vuelta!"

Pois não é que ontem meu amigo Walter Schumacher me envia um vídeo com... Nina Moreno. Schumacher está à esquerda no vídeo, também filmando com o telefone.

Vinte anos depois ela segue firme. Desta vez ele a flagrou toda de negro cantando no bar Parangolé da Cidade Baixa (na Lima e Silva), lugar onde meninada e coroados se misturam numa boa, como se pode ver.

De fato, Ninita, veinte años no es nada.

Saúde, Schumacher!
Saúde, Nina!

José...

               Caro José
No dia 26 de agosto de 2010, abismado com a incompetência dos programas eleitorais na tevê, em texto também chamado José eu lhe disse o seguinte:
"Ocorre-me neste instante que a melhor imagem seria a de um circo, o espetáculo favorito do populacho. Sob o vídeo azulado ou sob a tenda de lona colorida, muita música, dança, teatro, figurinos, e no picadeiro principal malabaristas, bailarinos, equilibristas, ilusionistas e, como sempre, os animais amestrados, com tão repetitivas quanto antigas gingas, em troca de restos de comida alguns, da alma vendida pela ilusão da fama outros. No nosso circo, José, o povo está apinhado nas arquibancadas, espoliado, palhaço de perdidas ilusões no chão de falsas estrelas.
Abdico da imagem circense pela melancolia que me invade, José, este meu bilhete era para ser uma rápida tentativa de brincar mais uma vez com assunto sério, para não perder o juízo.
(...)
Nenhum gênio desses marqueteiros de vocês pode ser deixado a sós perto da carteira alheia, e menos ainda com poder de decisão sobre qualquer coisa. Eles não têm limites, é gente vil que vive de vender gato por lebre, são perigosos. E nenhum teve a idéia de falar em manter o ajutório família porém desonerando a cesta básica para todos, os malditos impostos indiretos? Esses gênios são gatos, José, gatos burros. E o que dizer de quem os contrata?
(...)
Se eu dissesse mude, José, reaja, livre-se dos faraós em ouro que te cercam, coloque fogo no circo, adiantaria?
Não se dê ao trabalho de responder."

Nenhum mérito meu, qualquer sujeito com meio neurônio enxergava isso.
Pois agora levantaram-se vozes de peso. Na sua coluna de ontem no JB, em Os cidadãos estão cansados, o grande jornalista e pensador brasileiro Mauro Santayana (foto) vem de dizer:

"Teve razão o senador eleito Itamar Franco ao recomendar a José Serra que deixe de obedecer a seus marqueteiros. Uma das grandes dificuldades do mundo de hoje está na terceirização das responsabilidades – e isso não ocorre apenas nas campanhas eleitorais.
(...)
Os homens de propaganda são indispensáveis a fim de dar embalagem às ideias dos candidatos, mas não para produzi-las.
(...)
...é imprescindível que cada um apresente seu projeto de nação e de governo, em lugar de promessas demagógicas, como as de aumento de salários e pensões. Estamos cansados com o mesmo realejo e as cançonetas que conhecemos."

Taí, espero que no ex-presidente Itamar, um grande homem, você acredite. O Brasil ganhará com isso, independentemente do resultado das urnas. 
Claro que a mensagem serviria também ao Lula e sua turma, mas para esse eu desisto de dar opinião, quem sou eu para tanto, deu de se achar o "cara", por pouco não se anuncia um novo Jesus aquele idiota, esquecendo que nós o fabricamos de outra maneira, gastando os trocos que não tínhamos diante de adversários terríveis e abonados. Com aqueles trocos ele se ajeitou e depois fez acordos com os adversários, Sarney et caterva. Eu não mudei, sigo o mesmo, sem nenhum no bolso mas de cabeça erguida. Ele que lide com as suas fabricações, tudo passa nesta vida, ele ainda verá.