sábado, 31 de julio de 2010

NUESTRO JURAMENTO

Ia seguir outro dia, mas como foram milhares de manifestações dos amigos, parceiros, um milhão de mulheres, resolvi procurar um som do Julio. Taí embaixo. Excerto de filme sobre a sua vida. Tem um lance tri nessa história, arrepiante de amor, como diriam as 19 mulheres (tou tenteando uma nega de Burundi, pra equilibrar com as alemoas, fechar o número, me acalmar e parar de mentir) que moram comigo, arrepiante mesmo: o produtor do filme elaborou tudo, mental e fisicamente. mas faltava uma coisa: um ator, parecido com o Julio, mas que soubesse cantar, se não como o Julio, algo que, digamos, passasse... Levou dois anos batendo cabeça e nada. Prestes a desistir, acabado, mais que dinheiro o projeto, o sonho esvaído, mas tem que ser homem e foi comunicar à família. Quando ia abrir a boca na sala, o interdito se deu conta, caiu em si: viu o Julinho, filho dele. É o cantor do vídeo abaixo: Julio Alfonso Jaramillo, com o bolero Nuestro Juramento, de autoria do famoso poeta e guitarrista puertorriqueño Benito de Jesús, falecido em junho passado. Beijo, Julinho. Até logo, Benito.

Mr. Juramento

viernes, 30 de julio de 2010

SANGUE IN BLUE


Nesta madrugada, lá pelos lados da Auxiliadora, caí num buteco de teto baixo onde tinha um cara tocando saxofone num palco diminuto, emburacado em plano inferior. Porto Alegre tem cada coisa. Além de nós, uma clientela masculina de meia dúzia de gatos pingados e uma mulher que vez em quando ria nervosamente na mesa do fundo. O negro nem aí pra nada, ensimesmado no instrumento, solando Alabama naquele porão.

Eu, que vinha de um dia ruim, de uma semana ruim, de um mês ruim, de décadas ruim, não me sentia muito bem, tinha muita sede e entornava fácil uísque com vermute e angostura tripla.

Durante a tarde vomitei ao ouvir o maluf-ficha-limpa no rádio do carro. E ela não telefonou. Mas não perdi a compostura.

Paredes azuis, garçom azul, luz azul, toalhas azuis, cadeiras azuis, cinzeiros azuis, até o rabo da solitária que ri deve ser azul. Tudo em péssimo estado. Buteco Blues o nome do bar. Não fumante não entra. Oba, me ganhou. Gente que se precisa de duas palavras para definir, começando com negação...

Na mesa eu, Alex e Mareu, eles atolados em uísque caubói. Percebi o atoleiro quando ele disse que etimologicamente o tango pode ser uma onomatopéia que remete ao som dos tambores africanos, e ela replicou que o amor de pica é um negócio muito complicado e que tem que se fuder quem fez acordo com o Collor.

Pelas três da matina o nosso John Coltrane lá no buraco interrompe o seu Blue train, se esforça tentando falar, desiste e acaba pedindo por gestos mais um copão de gin. O dourado do sax é a única cor diferente no anil onde nos aninhamos.

Dourado como os cabelos dela. Não telefonou.

Então dormi na mesa. Dormi não, apagada leve, só olhos fechados, leveza, o sax tenor se perdendo, longe...

A Bessie Smith pedia ao juiz para mandá-la para a cadeira elétrica, sangrento blues misturado ao sangrento acidente que a matou aos 43 anos. Sonho derivado de algo que li ou ouvi, mas o fato é que de dentro do bar eu estava lá, parado na rodovia e no julgamento.

Sem querer divaguei para "Send me to the eletric chair", agora na voz da Dinah Washington, aí sim testemunhei que ela matou mesmo a facadas o seu negro.

Um acorde mais alto, abro os olhos e Alex e Mareu riem, riem, riem... sei lá, um negócio da faculdade. Peço outro manhattan de três amarguinhas.

A Dinah Washington, esta sim lembro bem, a ouvi na rádio Belgrano pouco antes da sua morte. Moça nascida pobre demais no Alabama, dela tive um LP, raridade que alguém jogou fora, o encontrei jogado numa calçada, eu colecionava discos de pedra achados e ganhados, já que comprar estava fora de cogitação. Do Frankie Laine eu tinha dois, quebraram, ah, "Jalousie", un jour, dans la maison de notre amour une voyageuse est entrée, tango cigano que o sujeito inventou de botar na língua do Tio Sam, todo feliz pra esculhambar um ciúme triste pacas. O original da Rhapsody in Blue, com o Whiteman, eu tive de vender.

Chegadíssima numa garrafa, Dinah morreu no ano em que fugi de casa, em 63, ela aos 39 anos, depois de beber todas e tomar um balaio de soníferos. Parece que teve uma vida boa. Doida, claro, como todos. Dizem que casou de papel 8 vezes, acertou em parte ao se divorciar 7 vezes, teve uma pilha de amantes (Quincy Jones, eca, ela também papou, grande áfrica), e deixou um legado musical divino, obteve o título de “Queen of the Blues”, mas com muitos a chamando de Suprema do Jazz. 

Seu maior sucesso deve ter sido "What a difference a day makes", que não cito o nome do autor porque é um escandaloso plágio, desde menino denuncio e ninguém me ouve, do bolero Cuando vuelva a tu lado, da grande mexicana Maria Grever – esta não me esperou nascer pra ir embora, gravado com estrondoso sucesso por Los Panchos, acho que em 1964, pois na época se via muito milico alegrão, com solo de voz de Eydie Gormé ainda flor de mulher. Eydie, aliás, cujo nome verdadeiro é Edith Gormezano e nasceu no Bronx.

Taí, recordo blues populares, penso em clássicos, e lá vêm os boleros... pombas, eu colecionava mesmo era discos de boleros!

Do LP da Dinah eu gostava de todas as faixas. "Manhattan" (Isham Jones/Marty Syms) quase furei de tanto ouvir, lá pelos meus 10 anos. Sobreviveu a muitas mudanças de endereço, o meu disco, até que, em 1992, tomei um fogo e uma das mulheres da festa no meu apartamento (chamava-se Covil 2, o apartamento, o nome dela esqueci) afanou o meu precioso bem. Tinha bom gosto, a mundana, pois junto levou também um disco raro de "Los 3 Caballeros" e a Sinfonia Concertante 364 com o Menuhin no violino. Para que se tenha uma idéia da perda, o trio era composto por nada menos que Roberto Cantoral (autor de La Barca, Regálame esta Noche, El Reloj, entre outros boleros), Chamin Correa e Leonel Galvéz. Posso até vir a conseguir gravações deles, mas em vinil nunca mais.

Ah, os boleros. Um convite ansioso para se tomar mais uma, a estética etílica de maior chamamento popular. Não o bolero cubano, emocionado, apaixonado, e sim o lamentoso de fim de noite, culpando aquela maldita traiçoeira, daquela que partiu sabe-se lá para onde e por que, e o pior, com quem. 

Ânsia dos butequeiros que tremem ante esse bolero rítmico, dramático, daquelas notas que Los Panchos consagraram na guitarra de Alfredo Gil, dos violões lembrando ponteios de salsa. Dos cubanos talvez somente Bienvenido e La Lupe entraram nas notas do bolero rítmico. No Brasil, o estranho do continente, apenas Carlos Alberto e Altemar. Nos demais países muitos podem ser citados. Na Colômbia, Alci Acosta; no Peru Lucho Barrios. Na Venezuela até as crianças sabem quem é Felipe Pirela. Em Porto Rico... Epa, tem o Ecuador: Julio Jaramillo. Ah, o Julio.

Levanto os olhos e o drácula de azul está me estendendo a conta, estourou o Buteco Blues. Coloco a moçada num táxi, pego outro e me mando. Ao passar pela José do Patrô mando o cara parar, vou andar um pouco. Lá em casa tenho uma garrafa de jotabê e dois litros de jotapê. E discos... Podem esperar.

É bom relembrar Julio, dele também tive um disco roubado, isto é, um que me roubaram. Ah, o Julio, ganhei meu primeiro disco dele na noite em que dormi na zona pela primeira vez, na casa de um parente que era dono de cabaré, por obra de uma uruguaya baixinha que disse que um guri tan quietito merecia que o pusessem na cama. No seu quarto fui apresentado ao famoso guayaquileño, El Ruiseñor (rouxinol, para os dinamarqueses que me lêem) de América.

Julio morreu de cirrose em 1978, aos 43 anos. Inventaram parada cardíaca, mas foi de aguardente com cerveja mesmo, muito trago, mares de trago. Dizem alguns que empinava até álcool puro com grapette, mas isso não é verdade.

Então, borracho a dar com um pau, ainda assim dizem que era superado em borracharia pela sua outra característica boêmia: era muito, mas muito, mulherengo, parecia com alguém que conheci num passado longínquo: não podia ver mulher que se transformava, alucinado, e não sossegava o pito enquanto não fizesse lambuseiras inimagináveis com a dona.

Como costuma ocorrer com caras assim, consta que era muito bom de alma e coração, doce e querido, odiava gente sovina e detestava gente intrometida, metida a sabida ou faladeira. Com abstêmios simplesmente não falava. Dos nossos.

Ao morrer uma multidão de 200 mil pessoas não arredou pé da câmara ardente por 3 dias, e deu-se um escarcéu quando o esquife foi carregado pelo Cementerio General de Guayaquil, rolava aguardente, cerveja e pranto.

Todas as pessoas importantes presentes ao evento eram bebuns, boêmio(a)s, mulherengos, homengas, sofredores, enfim, gente da noite.

Na época, mesmo sendo novinho, só 25, fui nomeado representante dos velhos notívagos da Cidade Baixa, mas não pude comparecer às festividades da sua despedida porque tinha medo de avião e não tinha dinheiro para a passagem, então bebemos e cantamos a noite toda, como os outros lá no Ecuador, derramados em lágrimas. 

A data de seu nascimento é feriado da alma nacional, dia do Pasillo ecuatoriano.

(segue outro dia, esta dor de cabeça...)

ABRINDO

Enfim, abro os trabalhos. Pretendia abrir com algo importante, mas o que vi há pouco não permite. Vi o maluf se dizer o cara mais ficha-limpa do pedaço, mesmo sendo caçado feito cão pela Interpol. Vi as propagandas dos candidatos da mídia, o serra pra cá, o serra pra lá, a dilma, a dilma... Pior será quando começar na tevê. Na ânsia de transmitir familiaridade aos mentecaptos, os mentecaptos dos marqueteiros vão seguir nessa de "o serra", "a dilma", periga passarem a serrinha e dilminha, gente de casa... E vi mais. Vontade de dizer algo parecido com Que se explodam todos, mas como é um blog onde palavrões não são bem vindos, não vou dizer.

Contribuições, sobre qualquer assunto, serão aceitas com prazer.

Espero que pelo menos os amigos mais chegados de vez em quando espiem e/ou colaborem com a página.