lunes, 16 de abril de 2018

Não te mixa, lagartixa meu amor (rascunhos, excertos)

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Adoro lagartixa. Tive uma lagartixa amiga do peito, inicialmente arredia ficava pela parede em raras aparições públicas pela madrugada, enquanto eu batia máquina no covil IV da Av. Oscar Pereira, a gente lá cercados de cemitérios. 

Os vizinhos com dez abaixo-assinados pra me expulsar a pretexto do ruído da máquina de escrever tarde da noite. Na verdade não confiavam nas suas senhoras. Filhos da puta, comi umas vinte mulheres deles naquele pombal, sem jamais ter dado em cima de nenhuma, nem olhava, elas que vinham. 

Teve a mulher de um alemão que me pegou num feriado, o alemão tava trabalhando, e disse sem pudor: quero foder contigo. Vai ser grossa e despudorada assim na casa do caralho, pensei, mas passei o pau na dama, o marido era um maldoso chiclé. Quando falei, assim, mete, vagabunda, imagine que o teu marido corno está olhando, ela por cima, a boboca se acabou toda.

Com o tempo a Branca, nome que dei à lagartixa que tomou o meu apartamento como sua moradia, deu de aparecer mais, em dias de chuva, até que se soltou em confiança. Toda fresca me botava a língua, gozando da minha cara, mandando eu sair, pra que ficar tão triste, rapaz? Arrume outra mulher, uma cantora ou atriz, as crianças estão bem, pare de escrever tristezas, vá viver a vida...

Em três anos e três livros, e alguns vinhos, ela falava comigo, de maneiras que tirem o chapéu pra mim, indiada amiga, pois além de esperanto, chinês (de chinas, nem todas) e gatês, também falo lagartixês.

Só não falo inglês. Arranho no português. 

Quando ela sumiu, e pensei o pior, vendi o apartamento por um terço do que valia, me mudei daquele ambiente hostil onde só ela me amou.


domingo, 15 de abril de 2018

Amor à primeira vista

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Foi um choque no meu íntimo quando a mulher que eu nunca tinha visto na vida, nesta madrugada num bar da Rua João Alfredo, acendeu o cigarro e me olhou com aquele olhar número oito da Lauren Bacall. Senti o drama, quase me derramei, a filha da mãe me pegou.

Disse pra ela aquilo que vivo dizendo de brincadeira, agora de verdade: escolha a religião se quiser religião, o cartório se quiser cartório, marque horário e data, eu compareço e caso contigo, meu amor, só me diz com que roupa que eu vou.

Se depender de mim vou de terno de linho branco, chapéu da Lapa. A festa deixa comigo, irão todos os meus afetos, levo músicos amigos e muito mais, incendeio a cidade, mato meio mundo se for preciso.

Ela esquentou ainda mais os olhos e respondeu: vou marcar, tu agora é meu e de mais ninguém, só preciso de um tempinho para me livrar do meu marido, dono deste bar. Nada a ver com ele há anos, se tu quiser saio daqui contigo agora.

Vou ali e já volto, moça, me dá uma hora, falei cheio de pé atrás, eu hein, pelo espelho tava vendo os leões de chácara me olhando de lá. 

Saí fazendo cara de inocente, não sou bobo. Peguei um táxi e fui em casa me armar, é hoje que eles morrem se tentarem dificultar o nosso casamento.

(segue)
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Lula Libre. Que o Pai do Céu castigue os maus

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Buena madrugada, indiada amiga.

Tou voltando das barrocas, ontem à noite tomei uns tragos, tava numa raiva desgracida dos fascistas punheteiros e das fascistonas gélidas que permitem a invasão, que droga, esta terra tem dono, tão pensando o quê?

Saí fazer locuras pra desopilar com umas casteianas, fui desarmado porque a intenção era outro tipo de rinha.

Pelo sim, pelo não, levei só a minha daga misionera, do tempo de pelear lado a lado com Sepé Tiaraju. Ué, a vida é curta e a morte é certa, também sou filho de Deus, ou pensam que é só vocês que caem na esbórnia arriscando a pele?

Três. Uma trintona, uma quarentona e outra cinquentona argentinas, ui, que conheci pelo Par Perfeito, moram juntas no Balança Mas Não Cai da Rua Zé do Patrô, toparam um embate de vale tudo, no amor, né, na dureza que ando só no amor mesmo. Gostei das três, mas a cinquentona sabe tudo.

Quase me trituraram, as frescas secaram umas às outras, dei uma mãozinha, né... bem, não foi bem a mão, deixa pra lá. As bandidas me secaram o corpo de líquido, sugaram tudo numas brincadeiras, ora jogar basquete dentro de casa, uma cesta atrás da outra, mas sobrevivi, acabo de chupar uma latona de cerveja, de gut-gut para repor, comi uma banana, epa, a fruta, elas que... deixa pra lá. 

Hummm, essa cerveja tava gelada mas sei lá, de onde saíram esses pelos loiros que tirei da boca? Azar. Bem, comi pra recuperar as forças, e meio tonto tou aqui já pensando em repetir a dose.

Convidei-as pra morar aqui no covil, economizam uns pesos, tá caro o aluguel daquele apê tá caro, condomínio os olhos da cara, aqui é pelo sistema rachid, sai barato. 

Fiquei de ligar amanhã dizendo Vengan, depois de consultar as mulheres que estão trabalhando na boate. Consulta delicada: Comunico a vós, minhas putas, que a partir de hoje teremos mais três loucas para dividir as despesas, desde já as senhoras estão encarregadas de arranjar um bico pra elas lá na boate daquele al capone, ele topa, não é doido de se meter comigo.

Vamo nóis, e não tem nada e nem que tenha, cavaco também é lenha.

Lula Libre, que o domingo nos sorria e o Pai do Céu castigue os maus.
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sábado, 14 de abril de 2018

Cidade Baixaria

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Quatro da matina, estourou o cabaré, a lenga vai até às seis ou seis e meia, como sempre, de domingo a domingo, de janeiro a janeiro. Nunca vou entender isso, sou do tempo em que se é pra brigar, brigamos já; se é pra dar um tiro de matar é sem frescura, toma fiadaputa, bum, acaba logo a engresilha.

Fechou o tempo na Cidade Baixa, dezenas de senhores e senhoras brigando a socos no meio da avenida Venâncio Aires, que acaba repercutindo aqui na Octávio Corrêa, os vermes se espalham naquela de bate e assopra, tapinha e corre, pedindo me segure se não eu mato... acabam aqui na esquina. Mais gritos do que socos, em vez de se matarem logo ficam de gritacéu. A negada não sabe beber, ou o tal bar vende algo mais do que bebida.

"Na buceta da tua vó", gritou agora uma elegante senhorita, o nenê da Maria Joana, a Mexicana, começou a chorar lá no quarto. A oponente lá fora, também elegantemente, revidou com "No cu do teu pai, vadia". Agora foi o nenê da Sybille do Haiti que começou a berrar. Meus filhos, se elas não me mentiram.

O velho do andar de cima, que está desenganado, nas últimas, saiu do hospital para morrer em casa, se sentiu mal, a Judite de Canoas e a Jacira de Uruguaiana, mais umas que não vi, subiram lá dar uma mão pra família, gritei me chamem se precisar. Eu aqui na salinha do covil ouvindo, anoto os impropérios, palavrões, alguns eu nem conheço.

Um educado jovem bota música sertanoja goiana no carro, portas abertas, em volume setecentos, as paredes dos prédios estremecem, os moradores dão um pulo de susto. A canção de notas malfeitas tem sangue e chifres na letra. Um bom gosto à toda prova.

Amanhã ao sair andando pela calçada muito cuidado para não pisar em latas, garrafas, dentes quebrados, calcinhas sujas, poças de sangue. Cenas dignas de um quadro, uma beleza. "Guernica tupiniquélis", como sugeriu o amigo Petracco e emendo aqui.

Dia destes para me divertir jogo um molotov no cabaré que se diz bar de onde saem. Talvez dê cinco tiros no dono do muquifo que os embebeda sem advertir pra irem embora ao fechar. Ou o grudo na parede com a doze do Rubem Fonseca. Pessoas maldosas dizem que o elemento distribui propina para policiais militares e para a fiscalização da prefa. Explodindo o seu paraíso talvez compreendam o direito de bebês, crianças, velhos, enfermos, trabalhadores, dormirem um pouco.

Parabéns ao Mr. Boate Kiss, nobre Secretário de Segurança Pública. Parabéns ao prefeiteco pleibói. Com saudades os habitantes lembram que o último PM que foi visto nas cercanias remonta há uns dez anos, Alguém diz que viu uns num carro verde há quatro anos, quando vieram escoltar o dono do muquifo até chegar em casa com a féria do dia, denunciou à corregedoria e não deu nada, mas pararam de escoltar o sujeito em carro oficial pago com o nosso, agora vão de carro roubado.

Que eu saiba a função dos servidores públicos da segurança é proteger banqueiros e espancar professores e outros bichos em manifestações pacíficas. Alguns prendem e espancam pobres vendedores ambulantes, apreendem a mercadoria, para proteger o comércio graúdo. Parabéns a todos os envolvidos, muito justos.

A dor que sinto é quando penso que essas pessoas, divergentes e canalhas exploradores, votam, daí que temos o que temos na condução dos nossos destinos. Vou propor aos ilustres edis a alteração do nome do bairro, para Cidade Baixaria.

Pensei em Porto Triste para a capital, óbvio demais, deixo em aberto, aceito sugestões.

Será que fecharemos, todos da esquerda e centro-esquerda, mesmo de centro, em torno de um nome que nos represente para botar ordem no cabaré? 

Quem sabe tu encara novamente, nobre companheiro Olívio? A cidade e o estado estão, literalmente, caindo aos pedaços em roubo, buraqueira, destruição total, moral e econômica.

(Bonito é assim, como na imagem, como éramos antes, até o horário permitido, sem fascistas à solta)
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Eu, Juremil

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Alvíssaras! Eu estou muito apressado, mas, como eu supus que amanhã ou depois acabarias escrevendo sobre genialidade, eu me antecipo (eu marco de cima, eu pulo junto, eu sou o Inter sonhado, uau!).

Antes, Salito, uma correção: meu nome não é mais Juremir, eu mudei. Uau! Agora eu sou Juremil. O perfeito Juremil. O sagrado Juremil. Tá, bota aí também o humilde Juremil, o singelo Juremil, para não prejudicar os negócios. Huhu! Eu explico: eu fiz uma retrospectiva da minha ultragrandiosa obra e eu concluí que eu sou nota mil em tudo. Ninguém me supera. Juremil-mil-mil! Eu engambelo aqueles franceses imbecis por uma questão de estratégia. Prestígio e grana (ui que ameaço de orgasmo), me entende, não é, ninguém é de ferro, e também para viajar semanalmente a Paris, aquela cidadezinha mais apagada que a minha Dodô Desasada, o extinto pombal fronteiriço onde brotei bem no instante em que houve aquela conjunção (ui) planetária. Comparando com Jesus, dez a zero para eu, uau! As velhinhas me atacam na rua para me abraçar, huhu!, e isso que não viram meu pintão.

Sabe, Salitre, eu li tudo o que os gauleses escreveram, aliás, eu li tudo o que foi escrito no mundo desde os escritos dos alienígenas, me prestei até a ler os contos do ceguinho Borges, mas eu vou reescrever cem por cento em hieróglifos hititas, com a simplicidade e leveza do sacerdote Juremil, eu vou champoliá-los (oba) em 2011, eu vou cobri-los de rubor, eu vou fazer um barulhão, eu vou romper as fronteiras do pensamento, uau, rumo ao espaço, eu só imagino a cara do velho Fiódor Dostô, uau, e tem mais: eles que esperem eu publicar a minha nova obra-prima (chama-se EU, JUREMIL, trioriginal, hein?) onde eu provo, pela mesma dialética transcedental assassinada pelo Emanuel (o babaca do Kant) que aquele lero de imperativo categórico está invertido, e que o François-Marie Arouet era ridente devido à idiotice, espirituoso nada, ironia fina ele vai ver. Eu, eu... bem, naquele tempo não tinha livro meu na praça, eia, eu vou compor sonatas em braile para causar felicidade e espanto ao rústico Beethoven! Viva le futur antérieur!

Eu sou especialista em tudo: física quântica, filosofia, futebol, mais umas cem mil coisas só na letra éfe, tudinho, tudinho. Eu falo e eu traduzo todas as línguas conhecidas e desconhecidas! Uau!

Eu morei em Adis Abeba, em morei em Atenas, eu morei em Amsterdã, eu morei em Belgrado, eu morei em Berlim, eu morei em Bucareste, eu em Budapeste também. Uau! Eu morei no Cairo, eu morei em Copenhague, eu morei em Dublin, Estocolmo, Lisboa e Londres, eu morei em Luxemburgo, eu morei em Madrid, eu morei em Moscou, eu morei em Roma, eu... acho que pulei algumas, maldita memória, preciso tomar meus comprimidos... tá, comece aí todo o Abc até Viena! Uau! Em Bujumbura não, ahahah, desculpe, Saltito, uau!

Bem, eu ia falar de quê mesmo, deixa eu ver... Tá bom, eu... ahm... eu... eu... Bem, eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... Hummm, eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... eu... Uau! Eu quebro a rotina e hoje eu falarei de mim, mas só um pouquinho, eu estou meio atrasado para meus milhares de compromissos. Viu a economia no título que eu, o lacônico Juremil, botei agora lá em cima? Eu. Huhu!

Ah, eu tive uma namorada em cada uma daquelas cidades! Uau! Estranho... não recordo os nomes, ah, nome não importa. Uau!

Tu já leu o meu último livro? Cara, não é pra eu me gabar, eu não sou disso, mas é um clássico como nunca houve, na terra como no céu, aquele Shakeaspeare deve estar se revolvendo no túmulo, mortinho de inveja. Já na segunda página eu ensino o pessoal a conjugar os verbos. Eu me arrependi-me (ops) de publicar, está além do alcance da massa encefálica dos não escolhidos. Agora já era. Tu já comprou? Se não, compre logo, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, compre, vai esgotar, para ti eu faço um precinho camarada, eu sou o dono do pedaço no Reino dos livros, escribo en el periodico Letters of the People, huhu! Agora eu sou Universal. Lá no outro, o reino da judéia, a concorrência fica promovendo aquele canhestro da última página, ahahah. E eu faturando. Faturando a fama, claro. Eeeeeuuuuuuuuuuuuu!

Lembra daquele portuguesinho inexpressivo, o José Sarraceno ou Salamargo? Mais cheio que o Luiz Fernando. Pois é, morreu o crucífero (oba), iupi, iupi, iupi, dou pulinhos, morreu, morreu, morreeeu, se apressou a bater as botas pra não ter que ver o saco de nobél que eu vou abocanhar, viva, viva, vivaaaa, eu vou sarambecar lá nas Canárias, uau!

Bem, eu... eu... eu, uau!, eu preciso ir, até a próxima, eu estou atrasado para um show que eu vou dar à tarde lá na universidade dos caras de preto, como você diz, Eu vou-lhes (gostou? Vou-lhes) contar umas estórias básicas que eu inventei sobre as estorinhas sem graça daquele baiano, o Amado. As gurias vão delirar, ui uau! Depois eu tenho de dar uma palestra sobre nanorrobótica medicinal a partir da experiência com cágados, en passant eu ainda vou proferir outra, uma teleconferência d'échecs para os meus amigos Veselin Topalov, Magnus Carlsen e demais top-twenty (sobre as falhas das análises dos computadores na variante Leningrado da Ninzo-Índia), sem deixar de apresentar meus programas de rádio e TV, depois ainda uma aula de direito aeroespacial, e lá pelas dez, enfim, uma aparição no São Pedro, eu vou estrear um novo solo de oboé, eu, eu, eu, eu, uau, eu não dou conta, eu não dou conta, eu não dou conta...

Eu preciso ir, eu preciso ir... dê uma chegada aqui pela Rua da Praia, eu preciso te mostrar (en passant que o tempo voa) meu penteado atual. Rapaz, lindooooooooooooo, combina com o jeans que eu comprei no Marrocos. Uau! Ei, já comprou um livro meu?

Uau!, uau!, uau!

Juremil

PS.: E tu, Salatiel, ainda ingere bitter purinho? E aquela tua chinoca de Rivera, uuuuuuuui, conta, conta, conta.

viernes, 13 de abril de 2018

Tábua de mútua salvação

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Saí da minha rua, a Octavio Correa, subi a Olaria e caí na Av. Venâncio Aires, ainda nos limites da Cidade Baixa de Porto Alegre. Ia ver um negócio de grana, tava duro, sem cigarros e sem bebida em casa.

Levei uma hora, parando a todo momento, papo com comerciantes menores, lixeiros, as molecas que se viram, os viados, os catadores... em direção a uma loja de conveniência no posto da João Pessoa com a Venâncio, ver o saldo bancário, lá tem um troço de caixa eletrônico sem sacanagem. Sem sacanagem até aquele momento, convém examinar antes de enfiar o cartão.

Sacanagem é o preço da cerveja e de tudo o que aqueles filhos da puta vendem, não compro nada lá, salvo em horas de desespero. Bom, cheguei lá, meti o cartão, digitei a senha da CEF me-da-cu e saiu o papelzinho: R$ 0,45, nada de me dá, eu que tomei no cu.

Tou fodido e mal pago, e agora? Voltei cabisbaixo pela Venâncio, pensando seriamente em assaltar aquela merda de agência do BB lá na Azenha. Ia passando no puteiro 305 da Venâncio e uma mulher me atacou:

- Tu é o Bukowski da Cidade Baixa, né?

Pobre do Bukowski, vitimado por tal comparação.

- Depende, gringa, para pagar ou receber?

- Não, li um conto teu uma vez, se chama Brisa.

- Hummm, é, fui eu que cometi. Tu se vira nesse cabaré aí?

- Tou me virando, sim. Vamos tomar uma cerveja, queria conversar contigo, aquele conto me emocionou, meu pai era trabalhador de levar saco nas costas... Sou a Maria da Lua. Se tu puder, né, não quero incomodar, teus compromissos, literatura...

- Saí sem dinheiro, Lunera, se não iria com amor e carinho junto contigo, tu é linda e gostosa, nunca vi mulher mais bonita, amo peitão grande assim... Tu gosta de tudo?

- Gosto de tudo. Mas não se preocupe, eu tenho dinheiro, vamos, vai...

- Topa tudo mesmo?

- Tudo.

Gostei dela. Tive uma abobada que topava tudo com qualquer um, até chupar dentro de carro, atrás de árvore, e me dizia que topava só comigo.

- Qual é a tua tarinha?

- Ai, muitas, tudinho, amo vela quente pingando e dupla penetração, mas tem mais...

- Tarada, eu amo ménage. Tu tem alguma amiga de fé?

- Tenho.

- Pegadeira boa?

- Bota boa nisso. Vou combinar com ela, se tu quiser. E tu, tem namorada?

- Não tenho mais.

- Por quê? Tu tá bonitão.

- Essas mulheres são tudo cheias de preconceito, cansei, deixa pra lá.

- To falando contigo há poucos minutos e sabe de uma coisa: gostei de ti, cara.

- Tá, eu também gostei de ti, então vamos de mão tomar uma cerveja lá na Olaria, longe da tua viração?

- Tem um cara lá na Olaria que anda me perseguindo, eu era muito nova e me dominou, não deixava eu estudar. Agora que tou na PUC voltou a incomodar. Se ele falar comigo não se meta, não vale a pena, deixa que eu resolvo.

- O que faz na PUC?

- Direito. Um dia vou ser delegada, pegar todos os colas-finas que sempre ficam impunes.

- Oba, siga dedicada nos estudos, vai dar tudo certo.

- Tu é o primeiro que me diz isso, todo mundo diz que depois, por dinheiro ou de medo, entro pro esquema e só prendo pobre.

- É assim mas não é bem assim, tem pessoas boas lá. Lembrei de uma coisa, antes vamos dar uma passadinha no meu covil, pra mim me vestir decente, sapato, calça, camisa e paletó.

- Vai pegar arma, né, por causa do cara que falei antes?

- Vou, e não fale nada. E tem outra: não estou sem dinheiro aqui, por estar de tênis e bermuda, na verdade ando morto e a corvada em roda, tem nada em casa, tou sem nenhum, nem pro cigarro.

- Oba, então arranjei um gigolô armado. Tenho dez mil no banco e vou tomar mais desses palhaços que vem ao cabaré, por serviços prestados. Sinto que tu me pagará em dobro, de um jeito ou de outro.

Guria corajosa e inteligente. Peguei na mão dela, cruzamos os dedos, torcendo, quentes, bem felizes, e saímos andando pela avenida. Noite linda em Porto Alegre, tomara que chova mais tarde.
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sábado, 7 de abril de 2018

J'ACCUSE

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Les Misérables

O Judiciário foi idealizado para ser a consciência de todos, vejam a etimologia, a história.

Salvo no período da ditadura, quando muitos se acadelaram e cometeram horrores, juízes julgavam pelos autos, pelas provas, mantendo obsequioso silêncio fora disso, conforme determinam as regras que juraram observar. Acadelaram-se com as exceções de praxe, homens que honram a toga e o juramento. 

Minoria?

Agora isto, com o pérfido e semi-analfabeto de Curitiba, posando de homem sério, só falta o bigodinho e o uniforme da SS, com o assentimento dos covardes seus superiores.

Por tabela carta branca aos moleques sem mundo, fascistas da "Lava Jato", o nome já é uma piada, covil de caolhos e seletivos torturadores mirins, a estatura daquele Dallagnol é de chorar, cobra mandada que se diz cristão prometendo jejuar para obter injustiça, a que ponto chegamos.

Jejum, alguém já falou e dizem os seus livros sagrados, se faz sem contar para ninguém, e de horror à injustiça os mesmos livros sagrados estão cheios.

Todos fanáticos úteis ao projeto, calculado, de cabeça pensada, de imbecilizar ainda mais o povo, rumo à escravidão consentida.

Querem acabar com o Brasil, querem sangue? Querem seus palácios incendiados, ou contam com as Forças Armadas para voltar ao assassínio de milhares de rebeldes inocentes?

Aquele papo do criminoso Jucá, do grande acordo, citava generais, é aí que se apoiam, o ás sangrento na manga? É o que parece. 

Contam com os nossos filhos que juraram defender a Pátria em caso de agressão externa para, em vez disso, matar a quem os sustenta, o povo que lhes paga uniformes e armas?

Em princípio vai o meu desprezo ao Conselho Nacional de Justiça - CNJ, medrosos, corporativistas, covardes que arrumaram uma boca boa em suas vidas. Essa gente de que falava Taiguara, que pensa só em si.

Obviamente ao STF, pois foi o Barroso quem deu carta branca ao meliante de Curitiba, rasgando as leis, aí então os bandidos menores, instalados em todas as instâncias, até em TRF's, se encorajaram, e toda a podridão saltou dos bueiros, o líquido viscoso do fascismo latente, mau, fedendo.

Roma caiu por menos. E quem apoia esse estado de coisas vai se arrepender, a história se repete, os omissos logo serão vítimas do horror que aplaudem contra os seus vizinhos.

Omissos alguns somente. Não a turba ignara, que nem sonha com o que está realmente em jogo, que quando a assassina Fiesp e a Globo a mandou, correu a bater panelas. Estes logo sofrerão as consequências, a persistir o estado de exceção.

(Na imagem alguns desses senhores, que sabem que a instituição que não funciona é a deles, no meio um homem sem mundo, raivoso, pouco lido, ao seu lado dois fascistas, doentes fanáticos pela criação)


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sábado, 17 de marzo de 2018

A irmã do Potinho

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Fui dormir na casa do amigo Potinho, os seus velhos pais estavam viajando. Tava só ele e a irmã em casa. Bebemos, comemos, jogamos cartas até tarde. Modéstia à parte, com cartas sei mexer, e de sorte tiro a carta que quiser de qualquer baralho viciado ou virgem.

A guria Jussara de saia curta cruzava as pernas de um jeito... e depois me olhava com um olhar de queimar, fiquei em chamas mas me controlei.

Irmã de amigo meu pra mim é homem, eu fora. Dormimos tarde, nós dois num quarto, ela no outro.

Quando acordei pela manhã ele tinha se mandado, pegar cedo no batente, deixou um bilhete: Tá em casa, mermão, fique aí, vou levantar uma grana, ao entardecer eu volto, e vou falar com uns caras pra ver se te arranjo um emprego. Minha mana gosta de ti, se ela escorregar, execute, bem vindo à família.

Que filho da mãe o Potinho, sou melhor em cartas mas ele sabe mais do que eu.

Li o bilhete, botei água esquentar no fogão pra fazer café, e passei na frente do quarto da guria. Tava nua na cama, agora os olhos em fogo me olhando, ela siriricando sem o menor pudor.

Não lembro o que fiz, só recordo dos gritos dos vizinhos pelo cheiro do metal da chaleira derretendo no fogo.

O Potinho é nosso padrinho de ajuntamento, que virou casamento cinco anos depois, a gente lá casando com as meninas gêmeas daquela manhã pela mão.

Mulher é bicho de Deus mas também do Diabo. Até hoje quando chego em casa ela me olha, os olhos se incendeiam, e de saia curta cruza as pernas daquele jeito.
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sábado, 10 de marzo de 2018

EU DEIXO

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Ao sair antes para comprar um presentinho pro meu priminho que amanhã completará cinco anos de idade, na volta vim por lá e dei uma parada no bar do Nadir, ali perto da igreja Sagrada Família na Rua José do Patrocínio. Tava superatolado de gente, digo, superlotado.

As mulheres de rodar a bolsa - umas novas na parada, ui, o pessoal do AAA da Igreja, estes tomando água mineral, os malandros, as travecas lindas e perfumadas, a turma da punga lá no Centro, todos pularam em mim aos beijos e abraços de corpo inteiro.

Salito, seu malandrão, onde andava por todos estes anos? Que saudade, eu era apaixonada por ti! E aí, camarada, conseguiu fazer a vida? Tinha 17 filhas, quantas tem hoje, maluco? E por aí vai, muitos choramos.

Todo mundo feliz. Respondi tou morto e a corvada em roda, mas sabem como é, a gente dá um jeito, ainda não precisei pegar em arma. As próximas dez cervejas são por minha conta, Nadir, exclamei feliz.

O que vocês estavam fazendo quando cheguei, amontoados lá no fundo? A gente tava vendo uma notícia na Internet, uma vagaba Carmen Lúcia, que mal sabe tocar siririca e chupar pau, livrou a cara de mais um ladrão podre.

Mudei de assunto. Alguém quer jogar sinuca? Há anos não pego num taco, dou a sete livre. O Julião da Maleva saltou: só a sete não tem graça, é covardia, Sala. Então dou a cinco, a seis e a sete. Uma das bonecas novas se escalou.

O Nadir trouxe a caixa de bolas, do às à sete. Ela encaminhou-se ao taqueiro, escolheu um taco enquanto dizia: é hoje que te como, fama tu tem, quero ver.

Eu vou deixar, pensei.
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QUANDO PRECISEI

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Maldito o dia em que precisei, sem emprego por ser honesto demais, ora demais, ou se é honesto ou não é.

Sumiram todos. Todos eles e elas: amantes, parentes e amigos.


A pessoa sabe que precisa ir ao agiota, digo, ao banco, tirar o saldo. Com medo não vai, diz pra si mesma vou amanhã, e os dias passando, amanhã vou sem falta, e não vai. Gasta pouco na mercearia com cartão de débito, de crédito não tem, um quilo de arroz, um pé de alface, um toco de fumo em corda e uma garrafa de pinga mucufa.

Passa o cartão morrendo de medo que diga que não tem o suficiente, uns 15 reais. Ufa, passou.

Hoje vou lá tirar o saldo, naquela de seja homem já que a vovó Marica não foi.

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(Fragmento do conto "Quando precisei")
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